segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sob certas condições


Há algumas semanas, uma decisão da mais alta instância do Judiciário alemão manifestou-se favoravelmente à eutanásia, ou ao suicídio assistido, como alguns preferem chamar. Não é o primeiro país a fazê-lo. A Suíça também tem legislação que permite o procedimento, em determinados casos, e, em geral, quando há manifestação prévia e expressa do paciente. O que nem sempre é possível. E aí a decisão recai sobre entes próximos, que podem ter outros interesses além de abreviar o sofrimento. Certamente, há outros países que buscaram equalizar a questão. No Brasil, com a imensa bancada parlamentar de católicos e evangélicos, creio que dificilmente teremos um dia alguma decisão similar.


Bem, o assunto é polêmico, mas você já percebeu que eu sou favorável à eutanásia. Creio que cada pessoa tem o direito de decidir como e o quanto quer viver. E igualmente decidir como e quando morrer.

Eu não acredito em vida pós-morte. Simplesmente, deixarei de existir e não sentirei nada nem de bom, nem de ruim. Game over. E justamente por isso, não tenho medo da morte. Que fique claro que não temer a morte não significa desejá-la. Quero viver plenamente por muitos anos ainda.

Por outro lado, temo a decrepitude da velhice. Aliás, temo já a fase anterior, a da decadência severa, aquela que nos confina a uma existência dolorosa, sem prazeres e sem objetivos. Prolongar a vida só para acumular dias não faz sentido para mim. Daí que manter-se vivo deve ser uma escolha e não uma obrigação.

A dificílima decisão deve ser tomada de forma racional e não ser um ato desesperado. É uma decisão individual que deve ser respeitada. Depende exclusivamente do quanto cada pessoa acha que consegue suportar e quer sobreviver (ou “subviver”) a todo custo. Claro que há pessoas admiráveis que, embora padeçam de graves enfermidades ou limitações, são felizes. Já outras, por muito menos, acham que não vale a pena prosseguir.

Eu sou do bloco dos que acham que a vida requer certas condições.

Um comentário:

Mel disse...

Vamos lá, o assunto é polêmico como vc diz. Eu trabalho, dentre outras coisas, com prevenção do suicídio (daqueles passíveis de se prevenir) e a questão é sempre essa, em última instância cada um decide se quer viver e é o único responsável por si mesmo. Mas tbem tenho em meu consultório gente de bastante idade, com o corpo insistindo em se manifestar por dores e doenças, mas gente que faz um uso tão bacana dos seus dias e de sua capacidade de pensar... Acho que decidir morrer não é simples não. Tão pouco viver cada dia.