
domingo, 8 de março de 2009
Pensamentos rebeldes, por Ana Kessler

Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz idéia de reivindicar direitos à mulher e por quê ela fez isso conosco, que nascemos depois dela. Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós, elas passavam o dia a bordar, a trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando crianças, freqüentando saraus, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.
Aí vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã tampouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconseqüentes com idéias mirabolantes sobre "vamos conquistar o nosso espaço". Que espaço, minha filha? Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo ao seus pés. Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, e se exibir para os amigos, que raio de direitos requerer? Agora eles estão aí, todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como o diabo da cruz. Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim. E nos lançando no calabouço da solteirice aguda.
Antigamente, os casamentos duravam para sempre, tripla jornada era coisa do Bernard do vôlei - e olhe lá, porque naquela época não existia Bernard e, se duvidar, nem vôlei. Por quê, me digam por quê um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo? Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso. Tava na cara que isso não ia dar certo.
Não agüento mais ser obrigada ao ritual diário de fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, que sapatos, acessórios, que perfume combina com o meu humor, nem de ter que sair correndo, ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, passar o dia ereta na frente do computador, com o telefone no ouvido, resolvendo problemas. Somos fiscalizadas e cobradas por nós mesmas a estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, cheirosas, unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especializações. Viramos super mulheres, continuamos a ganhar menos do que eles. Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço?
Chega, eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela - ai, meu Deus, 7h30, tenho que levantar!, e tem mais, que chegue do trabalho, sente no sofá, coloque os pés pra cima e diga "meu bem, me traz uma dose de whisky, por favor?", descobri que nasci pra servir. Cês pensam que eu tô ironizando? Tô falando sério! Estou abdicando do meu posto de mulher moderna. Troco pelo de Amélia.
Alguém se habilita?"
Ana Kessler, 19 de junho de 2003
A mulher madura, por Affonso Romano de Sant'Anna

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes, ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras, a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo no repouso da graça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho dos seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece os mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensa-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso e repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não espera-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant’Anna, 15 de setembro de 1985.
Mulheres na pressão, por Martha Medeiros

“... Ainda desejamos provar para o mundo que yes, we can.
Claro que as mulheres podem tudo, está sacramentado. Mas será que devemos querer tudo? Onde foi parar nosso critério de seleção? Já não sabemos distinguir o que é prioridade e o que pode ficar em segundo plano: tudo virou prioridade. E só uma mulher supersônica consegue ter eficiência absoluta em todos os quesitos: melhor mãe, melhor amiga, melhor filha, melhor namorada, melhor esposa, melhor profissional, melhor dona-de-casa e melhor bunda. É morte por exaustão na certa.
Eu proponho, nesse Dia Internacional das Mulheres, que a gente dê uma folga para nós mesmas. Vamos mudar de assunto. Que se pare de falar de mulheres que conseguiram engravidar aos 57 anos, que perderam 30 quilos em duas semanas, que beijaram 28 caras em duas noites de carnaval, que aprenderam a ganhar dinheiro sem sair de casa, que visitaram 46 países nos últimos dez anos, que sobreviveram a tragédias, que conseguiram domar as melenas, que são executivas completas, que possuem duas centenas de sapatos, que três semanas depois de separar já estão felizes nos braços de outro, que preparam um risoto de funghi em dez minutos, que têm disposição para rolar no chão com os filhos, que assistiram todos os filmes em cartaz, que aparentam ter 15 anos menos, que exibem uma barriga de tanquinho um mês depois de parir, que lembram trechos dos clássicos que leram na época da faculdade, que superaram traumas, que arranjam tempo para fazer pilates, ioga, musculação e drenagem linfática. Dá orgulho, eu sei, mas é uma competência e uma autopromoção que beira o irreal.
Estou com saudade de ler e ouvir sobre as adoráveis qualidades dos homens. Eles merecem voltar a ser valorizados. Isso ajudaria a reduzir nosso estresse e a nos dar uma situada. Com menos holofotes, deixaremos de nos cobrar tanto e recuperaremos um pouco da paz de nossas avós.”
Martha Medeiros, 8 de março de 2009.
Excomunhão
O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho excomungou toda a equipe médica que fez o aborto lícito e a mãe da menina, que autorizou o procedimento.
Confrontado com o fato de que o estuprador não estava sendo punido pela Igreja, o Arcebispo deu mais uma demonstração de insensibilidade afirmando que o crime de estupro é “menos grave” do que “tirar a vida de um inocente” por meio de um aborto.
A comparação absurda torna inevitável a lembrança da frase de Paulo Maluf, que ficou eternizada no mundo político, quando deixou escapar, em um debate sobre violência urbana, um comentário que definia bem seus valores morais: “Estupra, mas não mata”.
Deve ser seguindo essa linha torta de pensamento que tantos padres perversos cometem o injustificável crime de pedofilia.
Eu nunca vi ninguém fazer um aborto feliz da vida, enquanto o estuprador se regozija com o sofrimento da vítima.
Que religião é essa que coloca a barbárie do estupro e os direitos da menina vítima, que precisa de paz e amparo emocional, em segundo plano?!
A menina tinha amparo legal duplo para fazer o aborto (vítima de estupro e risco de morte para a mãe). Supostamente em nome da vida, o Arcebispo queria obrigar a menina a correr o risco da morte.
A posição do Arcebispo foi coerente com a sua Igreja. Foi defendida e ratificada por outras autoridades eclesiásticas, que disseram: “Nem sempre se pode identificar o que está amparado por leis com princípios éticos e valores morais. Para nós, sempre terá procedência o mandamento do Senhor: não matarás”.
Esta é a opinião da Igreja Católica, legítima e que deve ser respeitada, embora dela eu discorde frontalmente.
Fui batizado em Igreja Luterana, estudei a vida inteira em Colégio Marista, recebi a Primeira Eucaristia e a primeira das três vezes em que me casei, o fiz na Igreja Católica. No entanto, não me considero católico. Cada vez mais me causa repulsa a sua doutrina. Cada vez fico mais inconformado com a limitação do pensamento católico.
Eu não tenho religião. Eu não tenho certeza se Deus existe. Mas se Ele existir espero que seja bem diferente desse deus do Arcebispo.
E, Dom, se quiser me excomungar também, fique à vontade.
sexta-feira, 6 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Vik Muniz no MAM

Trampo

No pitoresco calendário nacional, hoje é primeiro de janeiro. Para valer mesmo, o ano só começa na segunda-feira seguinte ao Carnaval. E já que, obviamente, nem você – porque está me lendo agora – nem eu – porque estou escrevendo este blog – ganhamos na Mega-sena, vamos ao trabalho. Essa falaciosa invenção que, juram, dignifica o homem.
Já que temos que trabalhar – e que bom que temos emprego, especialmente em tempos de crise – é melhor fazer o trabalho bem feito.
Para ajudar, está aí esta simpática - e de fato, sábia - lista que circula pela Internet com dez atitudes para trabalhar melhor. (A qual eu não vou me dar ao trabalho de traduzir, ok?)
Feliz Ano Novo. No mais, rala que rola.
domingo, 1 de março de 2009
Milk

Está em cartaz “Milk”, o filme que proporcionou a Sean Penn o merecidíssimo Oscar de melhor ator. Dirigido por Gus Van Sant, conta a história real de Harvey Milk, primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos.
Até os quarenta anos, Milk pedia sigilo aos seus namorados, com medo de perder o bom emprego em Nova York. Sentindo que precisava de mudança em sua vida, parte para San Francisco com o namorado Scott Smith, sai do armário e inicia a militância em favor dos direitos civis dos homossexuais.
Após três tentativas frustradas, Milk é eleito supervisor de San Francisco, cargo similar ao de vereador no Brasil. Sua principal cruzada passa a ser contra a chamada Proposição nº6, do senador Briggs, que estabelecia que professores homossexuais – e quem os defendesse – deveriam ser demitidos das escolas públicas. A justificativa, absurda, era a de que os professores “ensinariam homossexualidade”, assediariam aos alunos e os recrutariam para as hostes gays, destruindo as famílias.
Milk consegue vencer e a proposição é vetada em San Francisco. Mas a alegria pela vitória dura pouco. Sua carreira promissora, em franca ascensão, é interrompida brutalmente a balas. Em 1978, Milk foi assassinado, junto com o então prefeito de San Francisco, por um outro supervisor, Dan White, seu rival político.
Em linhas gerais, esta é a história. O filme é muito mais que isso e vale a pena ser visto não apenas pela magistral interpretação de Penn. É assustador pensar que tanta ignorância, tanto preconceito, tanta hostilidade contra os gays aconteceu há apenas 30 anos.
E, a despeito do muito que se evoluiu nas últimas décadas, ainda há um longo caminho pela frente para vencer a homofobia.
Eu tenho muitos amigos gays. Notem que eu não escrevi conhecidos ou colegas, mas amigos. Alguns dos melhores. Um destes foi para mim um irmão no momento mais difícil da minha vida. Com ele, aprendi o valor das amizades sinceras e a precisar de menos coisas materiais para ser feliz.
Certa vez, saímos para almoçar em um grupo de oito homens, no qual eu era o único hetero. Ele então me perguntou se eu não me incomodava em sair com “tanta bicha junta, dando pinta”. Eu respondi que não. Que, ao contrário, eu me orgulhava. Porque ali, o diferente era eu. E a minha presença não os constrangia, não os continha, não os incomodava. Eu era aceito por eles. E ficava feliz porque eles se sentiam plenamente à vontade comigo ali.
Relações de amizade são construídas com admiração e respeito mútuos. Torço para que um dia, somewhere over the rainbow, as pessoas convivam harmoniosamente, sem rotularem umas às outras em função da sua orientação sexual.
Ilustra este texto o selo que o governo de Pernambuco fez para mostrar que é receptivo aos turistas gays. A iniciativa é boa, principalmente se for além do mero discurso.
Aquele abraço
Ainda assim, apesar dos maus-tratos, do descaso, da deseducação, da ausência de planejamento, da sujeira, da violência, o Rio de Janeiro continua, sim, lindo, como canta a música. Lindo, porém “selvalizado”.
A beleza, mesmo imensa, atenua, mas não elimina as mazelas desta cidade. Sem dúvida, uma das mais bonitas e bárbaras (no mau sentido) do mundo.
Primeiro de março é também o endereço de uma ilha de civilidade no Rio. Fica na Rua Primeiro de Março, 66, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que desde 1989 oferece aos milhões de visitantes anuais uma programação de altíssima qualidade, diversificada, gratuita ou a preços acessíveis. É um dos lugares que os cariocas devem freqüentar e recomendar aos turistas, e dos quais podem se orgulhar.
Feliz aniversáRio. Ainda há esperança.

