sábado, 18 de dezembro de 2010

Réquiem para a Modern Sound

Modern Sound. Foto: Leandro Wirz


Meu melhor amigo me mandou um e-mail avisando. No dia seguinte, a notícia saiu no jornal. A Modern Sound, melhor loja de discos do Rio de Janeiro, fechará as portas no dia 31, depois de 44 anos em atividade.


O fim é, de certa forma, previsível. A outrora toda-poderosa indústria fonográfica, tal e qual a conhecemos, está moribunda. Ninguém mais compra discos. Eu mesmo contribuí, involuntariamente, para a ruína da Modern Sound. Se antes fui comprador compulsivo, nos últimos anos, muito pouco comprei. Jamais adquiri CDs ou DVDs piratas, mas a internet e os downloads tornaram a vida dos consumidores de música mais fácil e mais barata.

Houve uma época em que CD era a minha unidade monetária. Antes de comprar um tênis ou uma camisa, eu calculava mentalmente quantos CDs eu compraria com aquela mesma quantia. Muitas e muitas vezes, eu desistia das outras tentações para gastar com os discos. Sempre que eu vinha de Brasília, nos oito anos em que lá vivi, visitar a loja em Copacabana era programa obrigatório. Lembro de um aniversário em que minha mãe me presenteou com uma grana legal e torrei tudo na Modern Sound, felizão.

O cronista Arthur Dapieve escreveu que sem a Modern Sound, o Rio fica menos inteligente. Com certeza, menos culto. A Modern era uma espécie de santuário para quem gosta de música. Fuçando prazerosamente em seus enormes balcões e estantes, encontrávamos de tudo, nacionais, importados, raridades e éramos atendidos por vendedores que entendem do assunto.

A Modern fez parte da formação musical de muita gente e tem lugar na minha memória afetiva (assim como a já finada Subsom, no subsolo de uma galeria da Tijuca). Hoje de manhã, fui lá me despedir. Encontrei uma amiga que tinha ido fazer o mesmo, pesarosa. A loja estava razoavelmente cheia, mas deu para sentir o clima de adeus, o ocaso. Havia lacunas nas prateleiras, nada mais em estoque. Desconto de 30% nas compras à vista acima de R$ 100. Comprei cinco discos. Mas desta vez, saí de lá entristecido pela primeira vez. E última.

Toquem o réquiem.

4 comentários:

Mirelle Siqueira disse...

sinto falta dos vinis sabia?

e mais ainda dos seus textos. ve se não some assim!

feliz natal pra vc e p tereza!

Leandro Wirz disse...

Que bom, Mirelle, que sente falta dos meus textos. Eu adoraria não sumir assim, mas às vezes o trabalho consome muita energia e os textos ficam sendo escritos mentalmente até que encontro tempo e disposição para redigir. Feliz Natal pra vc e o Leo tb!

Anônimo disse...

Por outro lado, a música na rede acabou com a ditadura das grandes gravadoras que, por décadas, nos disseram o que ouvir apostando em receitas prontas de qualidade bastante duvidosa. O músico Leoni fala sobre isso no texto Liberou Geral, na seção Colunista Convidado, da Revista O Globo de hoje. A mudança é inevitável e, se for bem conduzida, será muito benéfica para artistas, fâs e até empresários.

Denise disse...

Na Era Digital, a Modern deixou de ser Modern e virou Traditional :-).

Na minha opnião os downloads de MP3 foram apenas o golpe de misericórdia nas já moribundas lojas de disco. O que realmente destruiu o mercado de varejo musical foram os preços exorbitantes cobrados pelos "big record labels". Qunado as lojas de disco começaram a sofrer as consequências, no lugar de manter seus preços fora da realidade e tentar aumentar os preços do iTunes, "record labels" deveriam ter se concentrado em fazer seu produto mais atrativo para o consumidor.