domingo, 14 de março de 2010

Escritores são formigas


Há algumas semanas, um amigo de Brasília, jornalista e professor, tuitou que estava gostando da profissão que escolhera: “aspirante a escritor”. Desde então, a questão que andava adormecida, voltou a me rondar.


O que nos faz deixar de ser aspirantes e nos torna, de fato, escritores? Qual é o critério, onde está a linha de corte?

Escrever bem? É um critério questionável, muito ligado à subjetividade. Claro que há uma gigantesca distância entre saber escrever (os alfabetizados o sabem) e escrever bem. Mas será que é essa competência que nos define? Existem maus escritores profissionais? Penso que sim e alguns são best-sellers.

É ter publicado? Só vale se for em livro? E, sendo livro, tem que ter editora e distribuição nacional? Vale independente? Eu publiquei cinco livros de poesia entre 1987 e 2005, e um monte de crônicas e poemas na internet. Sou autor. Meus livros estão no registro da Biblioteca Nacional. Mas você não vai achá-los à venda em livrarias. O que é um alívio, considerando alguns textos que lamento ter cometido.

Meu amigo, o “Aspira” que trouxe a questão à tona no mar de coisa, escreveu dois romances integralmente publicados na internet, onde também publica ensaios regularmente. Outra amiga, blogueira em Paris, escreve ótimos textos e deseja um dia lançar um livro. Será que é o objeto livro, com seus estímulos sensoriais e sua concretude, que nos faz escritores? Somos menos escritores porque nossos textos vagam em páginas virtuais? Mas a internet tem um alcance potencial maior do que um livro...

Viver financeiramente de literatura? Pode ser, me parece o mais forte dos critérios. Mas ainda assim é injusto. Poucos são os que conseguem viver exclusivamente de literatura. Muitos escritores, mesmo famosos e vendendo bem, têm outras profissões ou empregos. João Cabral era diplomata; Drummond, funcionário público; Vinicius, expulso do Itamaraty, ganhava dinheiro mesmo era com a música. E certamente a literatura nunca foi a principal fonte de renda do “Sir Ney” do Maranhão. Outros grandes escritores pagam as contas da casa lecionando em universidades e dando palestras e oficinas. Há ainda os que mantêm colunas em jornais, e isto também é uma forma de viver de literatura. Não, não desprezemos o valor das crônicas, nos ensinaram Machado de Assis, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Veríssimo e outros.

Penso que o pudor que temos em nos assumir escritores esteja ligado aos critérios que levantei, mas há também algum ranço de “marginalidade” na atividade literária, traço comum com outras atividades ligadas às artes e aos esportes. Somente nesses campos, há os aspirantes, os amadores. Não existem engenheiros, médicos ou advogados amadores. E os aspirantes são aqueles que muito claramente estão cursando a graduação.

Como nesta história, o escritor não tem dinheiro para pagar a conta do analista ou para contratar um mordomo, a culpa vai recair sobre La Fontaine. Sim, ele. Que no século XVII, na França, atualizou fábulas gregas de Esopo. A fábula da formiga trabalhadora e da cigarra artista ferrou com a gente. Aliás, La Fontaine pode se dedicar à literatura porque tinha mecenas.



Cobrindo as vergonhas

Em um dado momento do passado, querendo afirmar identidade, tatuei (e não tuitei) a palavra “poeta”. Uns dois anos depois, arrependido de tamanha exposição, cobri a palavra com um desenho maori em formato de escudo que protege boa parte das minhas costas.

“Poeta bom, meu bem, poeta morto”, cantou Zeca Baleiro.

8 comentários:

Marcelo Grossi disse...

Boa reflexão, Wirz!

Minha opinião: o que nos torna escritores é o fato de não conseguirmos não escrever...

E quanto àquele "convite" que fiz naquela postagem da Devassa, algum parecer?

paulopaniago disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
paulopaniago disse...

leandro, caro, obrigado de novo pela parte que me toca. se seu amigo está certo (e me parece que está), então podemos, eu e você, nos considerar escritores, uma vez que fazemos isso porque não conseguimos fazer diferente. escrever é um tipo bacana de compulsão.
mas agora me deixa por favor te contar uma história diferente de la fontaine. a formiga ouviu batidas à porta e pensou: "é a cigarra, que não trabalhou e agora vem pedir abrigo. ela vai ver só". abriu a porta. de fato, era a cigarra, mas envolta num casaco de peles e dizendo que havia sido contratada para cantar numa casa de shows em paris. "quer alguma coisa de lá?", ofereceu. "quero sim", respondeu a formiga. "se você encontrar o la fontaine, manda ele pra puta que o pariu".

Marcelo Grossi disse...

HAR HAR HAR HAR HAR!

Boa, Paniago!

Leandro Wirz disse...

fuck la fontaine!

Heli Suassuna disse...

O problema é que o escritor passa a ser reconhecido a partir do momento que tem um livro publicado. Mas ser escritor não é apenas quando se tem um livro publicado, e sim quando se escreve bem. Escrever bem é dificil.
As opiniões são diferentes. Posso achar que você escreve bem e outra pessoa não pensar o mesmo.
Você e Paulo Paniago não são menos escritores por divulgarem o trabalho na web. São escritores e não aspirantes. A questão é que vcs claramente dependem da opinião dos outros, e, antes disso, da publicação para que sejam rotulados de escritores.

Carol Nogueira disse...

Querido Lê,
Sou aspirante como seu amigo. Ainda não gosto suficientemente do que escrevo para dizer que sou escritora. Pra mim o critério é esse: estar satisfeito. Acho que a linha de corte é termos chegado lá onde a gente pretendia quando pensou pela primeira vez num livro todo feito com letras nossas. Tem gente pra quem é fácil. Pra mim, nú, é uma trabalheira. :) Beijo!

Grossi-Mouta disse...

Como Romeu e Julieta?
http://marcelogrossi.blogspot.com/2010/03/como-romeu-e-julieta.html