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terça-feira, 27 de julho de 2010

Pilar de José

“Como foram os últimos momentos com ele? Saramago falava da morte, houve um ritual de despedida?

PILAR: Não se falava da morte, porque desde sempre soubemos, como todos, que esse é nosso destino. Não se falava nem se evitava o tema, ele simplesmente estava, com naturalidade, sem dramaticidade.

Não houve ritual de despedida, como não havia ritual de vida: houve cumplicidade ao longo de 24 anos de vida em comum. Ou talvez houvesse, sim, um ritual: viver cada dia como o primeiro e o último.

Com a intensidade e a alegria de escolher como singular e destacada toda ocasião.”



Trecho da entrevista concedida à jornalista Sandra Cohen, por Pilar Del Rio, viúva do escritor José Saramago, publicada em O Globo, em 25 7 2010.
 
 

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O mundo é péssimo


No Brasil para inaugurar a exposição “A Consistência dos sonhos” e lançar o livro “A viagem do elefante” (Cia das Letras), o escritor José Saramago falou à imprensa no Consulado de Portugal em São Paulo, na tarde de 25 de novembro:

“Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo. Nessa longa história da humanidade, em que ponto tomamos uma direção errada que nos levou ao desastre que estamos hoje, do qual somos responsáveis? A literatura pode salvar o mundo? Mas salvar o mundo como? Principalmente depois de tudo o que já se escreveu. Como não conseguimos mudar o rumo de nossas vidas?

Quantos delinqüentes existem no mundo? A violência já atingiu o nível da barbárie. A corrupção chegou a tal ponto que é um problema de linguagem. A palavra bondade hoje significa qualquer coisa de ridículo. É preciso conquistar, triunfar. Ninguém se arrisca a dizer que seu objetivo é ser bom. Querer ser bom em uma época como esta é se apresentar como voluntário para a eliminação. Como chegamos a isso? Para mudarmos a vida, é preciso mudarmos de vida”.

Colhi estas declarações no site do jornal O Globo, em matéria assinada pela jornalista Márcia Abos.

E as palavras de Saramago me fizeram pensar em outras tantas. Também tenho muito mais perguntas do que respostas, e as perguntas talvez nem sejam as certas. Em que ponto tomamos uma direção errada? Acho que foi logo na primeira curva do percurso. Se a fábula bíblica diz que Caim matou o irmão Abel, então somos todos filhos de Caim, o irmão mau. Lendas a parte, há uma cena no filme “Hannah e suas irmãs”, de Woody Allen, em que a personagem questiona como a humanidade foi capaz de produzir uma barbárie como o holocausto dos judeus. Seu interlocutor, mais vivido e amargo, retruca que sendo os homens como são, o que causa perplexidade é só termos cometido isto uma vez. A gente não é flor que se cheire.

Não, não creio que a literatura possa salvar o mundo. Nenhuma arte tem esse poder. No prefácio de “O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde escreve que “o artista é o criador de coisas belas. A única coisa que salva o artista é a beleza de sua arte. Toda arte é completamente inútil”.

Renato Russo fez um acurado retrato de sua geração nas canções que compôs. Ao final de “Há tempos”, ele canta: “Meu amor, disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem. Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa”. E assim o poeta se apresenta, seja à eliminação, seja à aceitação. Mas seja qual for a consequência, permanece dignamente em pé. Água e consciência limpas. Mesmo no fundo.

Finalmente, lembrei de Millôr Fernandes, genial em seus aforismos irônicos: “O otimista é um pessimista mal informado”.

Então, estou aqui contribuindo para o pessimismo generalizado.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O Caderno de Saramago


Este é o nome do recém-iniciado blog do escritor português José Saramago, laureado com o Nobel de Literatura em 1998.
Segundo o autor, que acaba de concluir seu novo livro, A viagem do elefante, o blog irá trazer "o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice".
A primeira postagem é uma carta de amor a Lisboa, sobre a qual o autor diz, na apresentação do texto: "Decidi então partilhá-la com os meus leitores e amigos tornando-a outra vez pública, agora na página infinita de internet, e com ela inaugurar o meu espaço pessoal neste blog".

Há vida inteligente na web. O endereço direto do Caderno é http://caderno.josesaramago.org/ Ele fica hospedado no blog da Fundação José Saramago, http://blog.josesaramago.org/

Em seu Livro de Itinerários, Saramago - agora blogger Nobel - escreveu, muito apropriadamente, “Chegamos sempre ao sítio aonde nos esperam”. Mesmo.