sábado, 2 de abril de 2011

Cão de capa

                                                                        Reef


Nosso cachorro tem pêlos longos. Daí que quando chove, a gente bota uma capa nele na hora de passear. Porque com qualquer tempo lá fora, ele tem que sair para as necessidades. Detesto frescuras em cachorros, fico envergonhado de sair com ele encapado, embora as mulheres digam “ai, que fofo!”. Referindo-se a ele, claro. E fofo é uma das piores coisas que uma mulher pode dizer de um homem.


A capa se justifica porque mesmo com todo amor e fidelidade canina (falo da minha para com ele), murrinha de cachorro molhado não dá. Enfim, não é a única ocasião em que me sinto meio ridículo, então vamos em frente, rua após rua.

Nessas noites chuvosas, o que me incomoda mesmo são os sem-teto preparando suas camas de papelão e usando cobertores de plástico e trapos. Certa vez, uma dessas pessoas disse-nos: “Pô, esse aí tá melhor que eu.”

Incomodou muito o fato de ele ter razão. Menos pela capa e mais pelo cão ter um lar amoroso e o cara da rua não.

4 comentários:

Anônimo disse...

os jornais cariocas dão mole de não te contratarem como cronista, você tem olho afiado. essa sacada de leitura sobre o cão ter afeto que falta ao sem teto é dolorosa e verdadeira, aguçada. e, sim, as mulheres descobriram como desarmar completamente um homem, como tripudiar com suas pobres tripas ao chamá-lo (e isso inclui seu cão) de fofo. pobres de nós.
paulo paniago

Mirelle Siqueira disse...

to com o paulo, bobeira dos jornais.

Leandro Wirz disse...

Paulo e Mirelle, obrigado pelos generosos elogios.
Hello, jornais do Rio, tô aqui!!!

Celso Cavalcanti disse...

Leandro, faço coro aos elogios acima. E lembrando Eduardo Dusek, "tem muita gente por aí que tá querendo levar uma vida de cão..."