quinta-feira, 14 de abril de 2011

Credo

“Respeite os seus desejos: o menor desejo de um homem deve ser atendido o mais depressa possível. Ouviram bem, meninas?


Melhor se arrepender de ter feito: diante de uma dúvida, não fazer é uma atitude do século XIX. Chama-se cautela. Uma atitude careta, por assim dizer.

Liberdade: não há nada que um homem deseje mais e não há nada de que ele tenha mais medo. Um homem é responsável por todos os seus atos.

Terminar tudo aquilo começa: é o segredo, que ninguém nos ouça, da produtividade e, portanto, da riqueza. Somente terminando o que você começou é que você vê se era uma merda ou uma maravilha.

Livre-se da culpa: ninguém pode te culpar de nada. De ser vagabundo, galinha, egoísta ou mal comportado. Você é inocente. Inocente por ausência de uma intenção culposa.

Viva cada dia como se fosse o último: não é ficar pensando na morte. É prezar a vida. Saber de todos os prazeres que ela pode dar e aproveitá-los gulosamente.

Tudo é sexo: esqueça a pornografia. É o mito de que é possível trepar indiferentemente. Se existe algo na vida que desperta sentimentos modificadores, isto é o sexo.

Um homem deve ser maior do que o seu sofrimento: o importante é amar a vida. O mundo é uma beleza. Se eu não tivesse o mundo dentro de mim, eu ficaria cego quando abrisse os olhos.”


Estes são os oito mandamentos do dramaturgo Domingos de Oliveira, publicados hoje no jornal O Globo.

Domingos é o meu pastor e nada me faltará.

sábado, 9 de abril de 2011

Então você quer ser escritor?


Há um par de semanas, me deparei com um livro inevitável: “Então você quer ser escritor?”, contos do paranaense Miguel Sanchez Neto. O título é desafiador, provocativo e, em uma rápida folheada, me certifico que não se trata de volume de dicas e fórmulas inúteis para quem quer brincar de ser escritor.


Sim, eu quero ser escritor. Respondo ao chamado do mundo. Ou do meu mundo. Todo escritor tem mais vida interior do que vida real. Eu quis ser cantor de rock, mas cresci e envelheci, sem a dignidade e a capacidade de continuar a ser ridículo. Eu quis ser ator, mas tive receio e preguiça. Bailarino era a quarta escolha, porque não há uso mais belo e consciente do corpo, mas nunca tive o menor talento para a dança. Sim, eu quero ser escritor, opção terceira em meu rol da infância. (Se é que é opção, visto que para muitos é maldição, um embrenhar-se na solidão).

Li, certa vez, em crônica de Arthur Dapieve, que todo homem de caráter tem suas obsessões. Sobre o caráter podem pairar dúvidas, mas entre minhas obsessões inequívocas estão árvores desfolhadas, galhos secos. Como se fosse sempre inverno ou estivesse no cerrado. Não bastasse o título, então, a capa do livro também era igualmente irrecusável, com a imagem de árvores que parecem emergir (ou estão semi-afogadas) em águas paradas. Peças mortas de resistência vã.

Aproveitei viagens a trabalho durante esta semana para ler no avião que, em alguns trechos, sacudiu não mais que um carro sobre o asfalto vergonhosamente esburacado do Rio.

O livro é de fatias da vida. Personagens sem nobreza, sem grandiosidade em recortes que tangenciam o banal, mas ocultam profundidade, como, talvez, as raízes das árvores da capa. Na maioria das vezes, sem grand finale.

Mas ao final do último conto, que dá título à coletânea, parecia que tinha levado um soco. Um soco bom, se é que isso é possível. Faltou ar e a primeira palavra que me ocorreu foi: estupendo.

Durante a leitura deste conto, pensei muito em um escritor, paranaense como o autor, que tem sido, há década e meia, uma referência para mim. Um homem que me ensinou muito sobre literatura e sobre a vida. Um grande amigo, um irmão mais velho, uma espécie de pai (no bom sentido da palavra). Valeu, Bwana!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Em vôo

Foto: Leandro Wirz


Tive um dia cansativo e por isso, na viagem de volta, quando passa o serviço de bordo, peço à aeromoça, loura de sorriso artificial e corpo de Barbie, apenas uma cerveja e amendoim. Não me queixo, para a maioria, é muito pior. Uma das moças à minha frente reclama com a colega que, em três anos, só conseguiu quinze dias de férias e que um mês inteiro longe do trabalho é completamente fora de questão. Outro diz ao amigo que está indo ao Rio às 16h e pretende voltar a São Paulo ainda no vôo das 21h.


Minha poltrona é a do corredor, sempre prefiro. Agora deram para cobrar adicional por aquelas cadeiras junto às saídas de emergência, que têm mais espaço para acomodar as pernas. A turma do marketing inventou que são assentos comfort. Com preço plus, claro.

O vôo tem muitos estrangeiros, dois grupos de franceses e americanos. Não vêm a passeio. Business trip. Um dos americanos diz, ironicamente: “we’re clearly in the wrong plane”, queixando-se do apertadíssimo espaço entre as poltronas.

Na outra fileira, um brucutu, com caneta e um monte de papéis no bolso da camisa de manga curta, ronca altíssimo. Ninguém merece. Minha mulher diz que às vezes faço o mesmo. Não acredito. Ela fala isso só quando está na TPM.

Ao meu lado um casal mais idoso e elegante. Ele começou a ler um livro, mas adormeceu logo. Ela folheia a Vogue. Ele veste calça cáqui, camisa azul clara com gravata marinho e blazer clássico, marinho com botões dourados. Ela, um terninho azul marinho, com lenço de seda no pescoço. Bolsa Gucci, bagagem de mão Louis Vuitton, tudo original. Ele pousa serenamente a mão sobre a perna dela. Quando acorda, ela carinhosamente lhe ajeita os cabelos brancos. Acho comovente a intimidade e o afeto entre eles, after all.

Isolada na primeira fileira viaja a veterana atriz a quem as rugas dignas inviabilizam novos papéis de protagonista em telenovelas. Ela conserva ares de quem não perde a majestade. Pura ilusão.

“Tripulação, preparar para o pouso”. Acabei a cerveja.

sábado, 2 de abril de 2011

Cão de capa

                                                                        Reef


Nosso cachorro tem pêlos longos. Daí que quando chove, a gente bota uma capa nele na hora de passear. Porque com qualquer tempo lá fora, ele tem que sair para as necessidades. Detesto frescuras em cachorros, fico envergonhado de sair com ele encapado, embora as mulheres digam “ai, que fofo!”. Referindo-se a ele, claro. E fofo é uma das piores coisas que uma mulher pode dizer de um homem.


A capa se justifica porque mesmo com todo amor e fidelidade canina (falo da minha para com ele), murrinha de cachorro molhado não dá. Enfim, não é a única ocasião em que me sinto meio ridículo, então vamos em frente, rua após rua.

Nessas noites chuvosas, o que me incomoda mesmo são os sem-teto preparando suas camas de papelão e usando cobertores de plástico e trapos. Certa vez, uma dessas pessoas disse-nos: “Pô, esse aí tá melhor que eu.”

Incomodou muito o fato de ele ter razão. Menos pela capa e mais pelo cão ter um lar amoroso e o cara da rua não.

domingo, 27 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Sendo homem

Hoje cedo, li a coluna de estreia de Reinaldo Moraes no caderno Ela. É, eu sempre começo a leitura do jornal de sábado pelo Ela. Moraes é autor do excelente “Pornopopéia”, que muitos apontam como um dos melhores livros brasileiros deste século. No jornal, ele substitui o ótimo e ácido João Ximenes Braga, que assinou o espaço quinzenalmente por catorze anos.


Em seu texto, Moraes anuncia-se um “Macho Light”, hetero que “tem seus momentos de delicadeza e relativa elegância visual que aprendeu com las chicas desde a mais tenra meninice”. Afirma que seu “zelo com a conduta e a estampa” era parte de seu “aprendizado civilizatório com as mulheres” e que vivia em busca da “menor oportunidade de abrir portas ou catar coisas caídas no chão pras mulheres, e também de tocá-las, nem que fosse só num cotovelo para atravessar a rua.”

Eu me enquadraria nesse perfil, mas não curto esse negócio de rótulos. Gosto do mundo masculino: futebol (Mengo!), cerveja & uísque, muscle-cars, Harley-Davidson, rock & blues, churrasco, filmes do Tarantino, pornografia e falar muita sacanagem e baixaria. E, claro, amo mulher sobre todas as coisas. Mais até do que algumas mulheres com quem me relacionei gostariam, considerando que nem sempre minhas paixões foram sequenciais, mas simultâneas. Desculpem aí pela sinceridade. Atire a primeira pedra quem nunca foi cafa.

Por outro lado, me identifico tanto quanto com algumas coisas comumente associadas ao gosto feminino: moda, shopping, decoração, arquitetura, poesia, arte, comédias românticas, para ficar em alguns exemplos. Até discuto a relação de vez em quando. Bem, raramente. E com objetividade.

O fato é que, desde pequeno, sempre preferi estar nas rodas de conversa femininas do que nas do Clube do Bolinha. Ouvindo-as, aprendi. O que só aumentou meu fascínio pelo universo das mulheres.

Acredito que não há combinação mais poderosa do que força e delicadeza. Gentileza, elegância e sensibilidade podem – e devem – se equilibrar com a indispensável virilidade.

Macho classic, light, diet ou zero, eu não quero nem saber. Só quero continuar sendo simplesmente homem. Imperfeito assim.

domingo, 13 de março de 2011

Eca!

Palitar os dentes para remover aquele fiapo de carne ou couve que teimou em fixar residência na sua boca é um troço horrível. Só deve ser feito se não houver fio dental disponível em um raio de 10 km e mesmo assim na solidão do banheiro. Aliás, tudo o que se faz em um banheiro deve ser feito na mais absoluta solidão. Portas fechadas, sempre. Intimidade demais é uma merda. Vamos combinar que vê-la enxaguando a boca com Listerine não é a mais estimulante preliminar para uma sessão de sexo oral, por exemplo.


Dia desses, eu estava sob marquise do prédio onde trabalho, pitando um cigarrinho, quando passou um sujeito palitando. Os ouvidos.

Isso mesmo. Nada de cotonete. Palito de dente orelha adentro. Sem medo de furar os tímpanos.

A cena bizarra me fez lembrar – sem traço de saudade – de um colega de trabalho que tive no início da carreira, em fins dos anos 1980. Era um senhor bigodudo que ainda usava gel no cabelo. Ele tinha o hábito de usar a tampa da caneta Bic para dar aquela coçadinha nos ouvidos, enquanto limpava a garganta ruidosamente como se tivesse um roto-rooter embutido. Alternava com o uso do mindinho. Ato contínuo, usava a tampa para eliminar resíduos sob a unha comprida. Fazia isso sem a menor cerimônia, na frente de todos no escritório.

Ele tinha outro hábito desagradável. Colecionava artefatos orgânicos retirados das amplas narinas sob o tampo da mesa ou o assento da cadeira do escritório. A gente o chamava de Zé Meleca, alcunha que ele fazia jus por merecer. E acho até que se orgulhava.

domingo, 6 de março de 2011

Até a Sandy

Sandy deu o que falar nesta semana. O que falar, eu disse. A cantora, ex-ela & Júnior, é a nova estrela da campanha da cervejaria Devassa, em substituição a realmente devassa Paris Hilton, gelada demais até mesmo para uma cerveja. Em propaganda, vale a máxima de Oscar Wilde: “Não importa que falem mal, desde que falem de mim”.


Sandy, como todos sabem, tem sua imagem atrelada à castidade e a um bom-mocismo que beira a chatice. Tem o rosto bonito, mas aquela cara de que a qualquer momento pode se internar em um convento. O mote da campanha é “todo mundo tem um lado devassa.” No caso, da Sandy, é difícil de acreditar. Mas tudo bem, o jogo é este mesmo. O antagonismo entre sua imagem e a da cerveja. Achei a escolha acertada e gosto da campanha. Ruim seria se todo mundo tivesse um lado Sandy santa.

Putas e santas habitam o imaginário masculino. As putas para satisfazer nossos desejos e fantasias. As santas, porque queremos corrompê-las. Lembre-se do clássico da literatura “As ligações perigosas”, de Choderlos de Laclos.

Logo pipocaram na internet entrevistas anteriores à campanha, em que Sandy declara não gostar de cerveja e afirma só gostar “de bebida docinha.” Ah, que mimo. E qual o problema dela só beber cerveja mediante cachê? Eu também só beberia Devassa se me pagassem. Além disso, alguém acredita que a Xuxa só usava produtos Monange e a Tônia Carrero, Leite de Aveia Davene? Hellooouu!

No primeiro filme da campanha, Sandy sobe ao palco do bar, ameaça um strip e uma dancinha com a cadeira. No segundo filme, Sandy diz o texto com propriedade, é convincente. Mas aí ela dança “Conga”(da saudosa Gretchen, precursora das popozudas hipertrofiadas) sobre o balcão de um bar. Bem, sobre sua performance, ela é bem humorada, mas posso dizer que a minha querida vovozinha faria algo mais sensual...

Sandy também estará no camarote da cervejaria durante o Carnaval carioca na Marquês de Sapucaí. Pelo jeito, será um calmarote.






ps.: se quiser ler sobre a campanha da Devassa com a Paris Hilton, clique aqui
http://mardecoisa.blogspot.com/2010/02/devassidao-gelada.html  e  http://mardecoisa.blogspot.com/2010/03/puritana.html

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Bravura do cisne



Bailarino é uma das profissões que eu gostaria de ter tido. E gostar de balé foi um dos motivos pelos quais fui assistir a Cisne Negro. Mas não é um filme sobre balé. A dança é pretexto e contexto para falar de emoções, limites, disciplina, obsessão, repressão, estímulo, competição, coaching, frustração, moral, sexo, transformação, amadurecimento.


Cisne Negro é sufocante, surpreendente, soturno, arrebatador e incomodativo. Ou seja, é muito bom. Fica difícil distinguir exatamente realidade e o que é o turbilhão de pensamentos e sentimentos que consomem a protagonista. Há exagero na escatologia de algumas cenas, desnecessárias. Por outro lado, há momentos sublimes, como a cena em que Natalie Portman se permite e dança o lado negro do cisne de forma selvagem e apaixonante. Sou homem e não fujo à regra. Linda é também a cena lésbica entre Natalie e a sensualíssima Mila Kunis (e lingus - já pedindo perdão pelo trocadilho que li em uma revista, e não pude evitar reproduzir).

Vi o filme como uma ode à emoção, ao deixar-se levar por elas. A perfeição requer a imperfeição, a impureza. Ao final, cabem reflexões e a indagação provocadora que meu amigo psicanalista Marcus Quintaes fez via Facebook: ‎"Quem em você se chama Cisne Negro"?

(...silêncio...)

(pigarro) Mudando de assunto, em Bravura Indômita, remake do clássico western em que John Wayne interpretou o papel que agora Jeff Bridges defende, também é um bom filme. Mas confesso que não consegui enxergar méritos para as dez indicações ao Oscar que recebeu.

Já Natalie Portman é barbada para levar para casa a estatueta de melhor atriz na premiação desta noite.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Homem de visão

Copacabana é um bairro chacoalhado de turistas, todos sabem. Ainda mais nesta época do ano quando multidões chegam em busca de belas paisagens, diversão, sexo e desse sol hostil.


Eu caminhava pela orla tentando impressionar nórdicas desavisadas com minha camiseta autopromocional, onde se lê “Cariocas do it better”. Não que eu venda, alugue ou faça leasing do meu corpo, até porque já estou meio gasto. Mas, enfim, ainda dou minhas cacetadas, como se diz em linguagem chula.

Até que me deparei com um senhor sentado com uma placa pendurada no peito, onde estava escrito em português-english: “I’m blind and diabetic. Please help me”. Ou seja, esmolante bilíngue, usando o indefectível apelo emocional. Aceita real, dólar, euro, peso, yen e em breve, muito em breve, presumo que Visa, Mastercard e Amex.

É dele o prêmio Marketing Best.