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sábado, 2 de abril de 2011

Cão de capa

                                                                        Reef


Nosso cachorro tem pêlos longos. Daí que quando chove, a gente bota uma capa nele na hora de passear. Porque com qualquer tempo lá fora, ele tem que sair para as necessidades. Detesto frescuras em cachorros, fico envergonhado de sair com ele encapado, embora as mulheres digam “ai, que fofo!”. Referindo-se a ele, claro. E fofo é uma das piores coisas que uma mulher pode dizer de um homem.


A capa se justifica porque mesmo com todo amor e fidelidade canina (falo da minha para com ele), murrinha de cachorro molhado não dá. Enfim, não é a única ocasião em que me sinto meio ridículo, então vamos em frente, rua após rua.

Nessas noites chuvosas, o que me incomoda mesmo são os sem-teto preparando suas camas de papelão e usando cobertores de plástico e trapos. Certa vez, uma dessas pessoas disse-nos: “Pô, esse aí tá melhor que eu.”

Incomodou muito o fato de ele ter razão. Menos pela capa e mais pelo cão ter um lar amoroso e o cara da rua não.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O restaurador

Eu estava na esquina com meu cachorro, quando ele parou de procurar algo no lixo e puxou conversa:


“ – Esse cachorro é aquele que ajuda cego? Outro dia eu estava na Central, onde fui vender latinha, e achei uma filhote de Yorkshire pequeninha, ela estava comendo as coisas do chão, do lixo. Eu catei ela, mas , no momento, não estou em condições de criar. Eu dei banho nela, levei ao veterinário, gastei uma grana. Daí eu estava andando no Largo do Machado e uma senhora olhou para a cachorrinha, gostou dela. Eu dei pra ela. Ela perguntou como se chamava. Eu dei o nome de Tarsila. Sabe por quê, Tarsila? Tarsila do Amaral, a pintora. Eu sou pintor, sou restaurador de igrejas. Ela perguntou porque eu estou nessa vida. Eu falei que é coisa de família, briga por dinheiro. Meu irmão é dono de cooperativa de vans, eu quero que ele cuide dos táxis e das vans e fique lá com o dinheiro dele. Eu sou dependente químico, eu sou alcoólatra. Estou em tratamento em uma clínica lá em Botafogo. Outro dia eu fui ao convento, onde tem quadro meu, onde restaurei a igreja. A irmã me chamou para entrar, eu falei que só vou entrar quando estiver bom. Um dia você vai escutar toda a minha história. Prazer em te conhecer. As pessoas, na rua, às vezes a gente não dá nada por elas.”

O cachorro ajuda este cego que sou. O homem me restaura.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Malucos

Atraio malucos. Como ímã. Só gente doida. Há uns anos, um barbudão que circulava pela Tijuca com um cajado me parou para dizer que tinha sonhado comigo. Felizmente, não fora um sonho erótico. Mas tive que ouvir longamente suas histórias non-sense até conseguir me desvencilhar sem tomar uma cajadada na cabeça.


Outro dia, passei por uma mulher, ela na maior manguaça. Vira-se para mim e diz: “ah, a evolução da medicina...” Qualé, tia? Não fiz plástica nem uso botox!

Uma vez, um cara se aproximou para brincar com meu cachorro e começou a me contar sua longa trajetória de evolução espiritual. Lá pelas tantas, out of the blue, me avisa para tomar cuidado com meu fígado. E diz que não é exatamente ele quem está me dizendo isso, mas que “estão mandando essa mensagem” para ele me transmitir. Ok, obrigado. Alerta dado. Vou beber melhor.

Há algumas semanas, um cara na rua vizinha, começa a puxar assunto sobre cachorros, e do nada, avisa que a Megasena está acumulada em não sei quantos milhões. Opa, sinal dos deuses. Ou do louco. Por via das dúvidas, joguei. E se você está lendo este texto agora, é porque obviamente eu não ganhei na loteria.

Mais recentemente, eu estava na ante-sala do estúdio, esperando para fazer mais uns rabiscos na pele, quando outro cliente esquisitão e cheio de tatuagens, pensando alto, exclamou: “eu não sou desse planeta, eu não posso ser desse planeta”. Eu concordei, mas me mantive quieto, porque até mesmo concordar com ele podia ser arriscado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vida de cão




Minha mulher é Diretora de Saúde, Bem-estar & Nutrição. Eu sou o Diretor de Entretenimento & Lazer. Orgulhosamente integramos o staff do Reef, nosso cachorro. Inquestionavelmente, o mais lindo do mundo.

Quando estamos à mesa, fazendo as refeições, lá está ele largadão, confortavelmente deitado ao nosso lado, imerso em seus pensamentos mais profundos que podem ser resumidos em comida, brincadeira, carinho, sono, passeio, necessidades fisiológicas e umas cachorras popozudas.

Eu ando com uma inveja danada (mas do Bem) dele. Tudo é tão simples. Sem maiores preocupações com trabalho, produtividade ou grana, sempre com gente paparicando, e sem nenhuma grande questão filosófica a açoitar a alma.

O uso da expressão “vida de cão” como uma vida árdua, difícil, precisa ser revisto. A gente sabe disso desde o “Rock da Cachorra”, do Eduardo Dusek, nos longínquos anos 1980: “...Tem muita gente por aí que está querendo levar uma vida de cão, eu conheço um garotinho que queria ter nascido pastor alemão...”

Pelo menos a vida dos cachorros da classe média – desde que tratados como cachorros mesmo e não como humanóides ou bibelôs de madame - é um vidão mesmo. Mas nada de lacinho, sapatinho, coleira de ouro, festinha de aniversário.

Só o basicão: ração na tigela e água fresca. E um cafunézinho, que sempre cai bem. Isso e alguém que me leve para passear. Tô precisando de férias.

Ou então vir cachorro na próxima “encadernação”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Bom pra cachorro

Marley & Eu. Foto de divulgação do filme.


Quando a conheci, minha mulher tinha um Golden Retriever de três anos, o Reef. Ela diz que quando me contou isso, na noite em que nos conhecemos, meus olhos brilharam. Eu brinco dizendo que me apaixonei por ela graças ao cachorro.

Com o Reef, que já está com seis anos, aproveitei a nova chance e sou um “pai” muito melhor do que fui quando tive outro Golden, o Luke.

Eu - e a torcida do Flamengo que tem cachorro - fomos assistir a “Marley & Eu”, a versão cinematográfica do best-seller de John Grogan. Nas duas primeiras semanas em cartaz nos EUA, o filme já faturou US$ 100 milhões.

O filme, assim como o livro, é uma delícia, narrando as estripulias do labrador e sua família. E, claro, chora-se muito, já que Marley morre ao final. Não, não estou estragando a surpresa, contando o fim. Todo mundo já sabe o que acontece, o filme é fiel ao livro, com a vantagem de ter ótima trilha sonora (A cena dos cachorros na praia, ao som de “Lucky Man”, do The Verve, é linda!). E sim, obviamente, o nome é uma homenagem ao Reggae Man, Bob Marley.

Eu fiquei meio balançado, a garganta deu nó, entraram uns ciscos nos meus olhos e coisa e tal. Minha mulher chorou rios e quando chegou em casa apertou o Reef, como nunca. Mas o que mais mexeu comigo foi a formação da família. Como disse a personagem de Jennifer Aniston, “a família já estava formada antes dos filhos nascerem”, quando eram apenas ela, o marido e Marley.

Eu sou um pequeno burguês, com sonhos classe média. Eu quero mesmo viver do que escrevo, quero continuar casado e amando a minha mulher, quero ter filhos com cara de que são criados à base de Corn Flakes, e que vão dar um trabalho da porra, quero os estresses do cotidiano, as fraldas, os choros, as zoeiras, as noites mal dormidas, as preocupações, as risadas, as pizzas de domingo, quero ter uma casa legal, quero ter o Reef no quintal e correndo pela casa, me acordando cedo todas as manhãs como faz hoje, querendo brincar e passear.

Só quem tem cachorro sabe que ele se torna membro da família. Não sou como um certo ex-ministro que disse que sua cadela era “uma pessoa como outra qualquer”. Cachorro é cachorro e gente é gente, e os desiguais devem ser tratados de modo diferente. Mas cachorro vira uma espécie de filho e o dono fica, invariavelmente, ridículo, bobo, babão. Eu incluso, claro. Cachorro destrói coisas, enche a casa de pelos, dá trabalho e despesa. Quando você percebe, ele fez você mudar a sua forma de enxergar muitas coisas.

No filme, John diz sobre Marley, que o cão o ensinou a ser mais simples, ingênuo e verdadeiro. Que basta dar seu coração a um cachorro e ele fará o mesmo por você. Cães amam seus donos incondicionalmente. E de quantas pessoas você pode dizer isso? Quantas pessoas te tornam melhor?

sábado, 8 de novembro de 2008

Obama é bom

O cachorro mais lindo do mundo. Foto: Leandro Wirz



Obama começou bem. Nesses primeiros dias pós-eleição fez felizes declarações, a começar pelo antológico discurso da vitória, que fez muita gente chorar. Em seguida, falou sobre as dificuldades e o trabalho duro que precisará ser feito para tirar os EUA da crise. A taxa de desemprego é a maior em 14 anos. Big pineapple!

Foi hábil também em resistir às pressões iniciais para anúncio de equipe e deixando claro que não montará um governo paralelo nesses meses de transição, tirando o que resta de autoridade ao presidente no ocaso do governo Bush. "Os EUA tem apenas um presidente e um governo." Ou seja, cada um a seu tempo. Foi diplomático, sem ser omisso. Cobrou medidas ainda no final desse governo e que se não forem feitas já, ele as fará assim que tomar posse.

Mas o golpe de mestre veio no dia em que o cachorrinho scottish terrier Barney, da família Bush, mordeu o dedo de um jornalista da Reuters. Nos EUA, é tradição a família do presidente ter cachorro. Apenas 5 dos 43 presidentes não tiveram.

Perguntado sobre que cachorro levará para a Casa Branca, Obama respondeu que levará um cão abandonado num abrigo. "Quero um vira-lata, como eu". Bingo!

Obama é mesmo bom de marketing. Esse cara vai longe.

E eu, se um dia for à Casa Branca, vou levar o meu golden retriever. Obviamente, o cachorro mais lindo do mundo. Alguém duvida?