segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sobe ou desce?

No elevador, a vizinha estava filosófica: "Envelhecer é uma vitória e uma tristeza. Uma vitória, porque a gente chegou lá, sobreviveu; e uma tristeza porque vem muita coisa ruim também". Tá bom pra domingo de manhã, né?

Sem misericórdia

Caminho cedo com o cachorro na manhã nublada. A bonita gari grávida, com bem cuidadas tranças afro, fala ao celular com entonação cantada: “bom dia, com muita alegria!”. Em seguida, encara as centenas de folhas de amendoeiras que o vento, com natural ausência de misericórdia, espalhou pela praça. E diz, rindo, “eu vou chorar o dia inteiro”.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Solidão atualizada

Almocei na companhia do meu smartphone, que não me acompanhou no chopp. Joguei paciência (que em inglês, chama-se, mui apropriadamente, solitaire), fiz um selfie para postar como estava me divertindo na rede social, onde li notícias suas, tão melhores, de algum lugar distante.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Namoro novo

Dez e quarenta e cinco de uma terça comum. Ele a deixa no trabalho, provavelmente atrasada. Dentro do carro, beijam-se longamente. Ela desce e caminha em direção à entrada do prédio. Vira-se, talvez ele a tenha chamado. Volta até o carro e, na ponta dos pés, estica o corpo pra dentro, pela janela aberta do carona.  Outra vez, beijam-se demoradamente.

Ela então retoma o prumo e o rumo à portaria, levemente corada, sorridente e olhando para trás. Ele permanece parado até que ela suma completamente de seu campo de visão. Quem sabe torcendo para que ela decida jogar tudo para o alto e voltar para o carro porque o desejo não pode esperar.
Felizes são os namoros novos.


Fosse namoro antigo, ela não voltaria para beijá-lo uma vez mais. Fosse namoro antigo, o beijo de despedida no carro seria mero selinho. Fosse namoro antigo, ele não a levaria ao trabalho. Fosse namoro antigo, eles não perderiam a hora do serviço. Fosse namoro antigo, seria hora de acabar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Bons hábitos

Cioso de sua saúde, a cada hora de trabalho, desgrudava os olhos da tela do computador, levantava da cadeira, alongava o corpo, esticava as pernas e descia para fumar.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O silêncio de cada um

Mal se sentam à mesa ao lado e os dois jovens casais pedem à garçonete que fotografe seus sorrisos congelados em momento de euforia fabricada para consumo externo.  Click feito, foto postada nas redes sociais imediatamente.  Os quatro então se voltam para seus smartphones por vários minutos. O silêncio é interrompido quando uma das mulheres comenta que já tinha cinco curtidas na foto. E voltam a mergulhar no cristal líquido das telas. A interação é essa, virtual.

Não difere muito da nossa, real. Permanecemos calados observando o movimento ao redor e cortando o silêncio com pontuais comentários ácidos.

Ao mirar o espelho, eu faria um sobre a melancolia dos casais antigos.


Mas preferi calar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Homenagem

No dia que seria aniversário do finado marido, a viúva transou febrilmente com o atual.
Ciente da simbologia da data, ele não sentia o orgulho dos vencedores. Incomodava-se por ela lembrar-se do falecido, da forma que fosse, em qualquer ocasião.
Se era pra ser uma espécie de homenagem, era do tipo que não agradava plenamente a ninguém. Nem à própria viúva, que preferia mesmo um ménage com os dois, o morto e o vivo, se ainda o fosse.
No passado, sonhara secretamente com isso, mas sabia que se lhes houvesse proposto o sexo a três, hoje haveria um viúvo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Marmanjos melados

Eu estava na porta do clube esperando chegar o táxi que chamei.  Outro carro vem.  Cinco marmanjos tentam convencer o taxista a levar os cinco em uma corrida só, espremidos em um sedã pequeno.

Oferecem pagar a mais do que o taxímetro marcar. Oferecem o dobro. Oferecem pagar a multa se, por ventura, ela vier. O taxista permanece irredutível ante as propostas turbinadas pelo – neste caso, muito – vil metal.   Educadamente, explica que transportar cinco passageiros é ilegal e sobrecarrega o carro.

O taxista aciona pelo rádio outro carro da cooperativa, provavelmente esperançoso de que, com dois carros à disposição, o grupo aceitasse se dividir.

Os marmanjos, todos bem acima dos quarenta anos, insistem.  Um dos babacas senta-se no meio-fio, de birra infantilóide, e diz ao taxista que ou leva os cinco ou não leva nenhum.

Chega o outro táxi, igualmente um pequeno sedã, que, lamentavelmente aceita levar os cinco espremidos. O birrento faz cara de triunfo sobre o taxista que havia se recusado a transportá-los.

Eu, que ainda aguardava meu táxi, fiz questão de cumprimentar o primeiro taxista dizendo que ele agira corretamente. 


Mas não consegui entender a razão de cinco marmanjos suados, saindo da pelada de domingo no clube, fazerem questão de andarem grudados, melados e apertados, se roçando no carro. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Aéreas termais

No voo entre São Paulo e Goiânia, minha poltrona está cercada por uma dúzia de senhoras frenéticas com o passeio que farão à Caldas Novas e suas piscinas de águas termais.  Eu tentando ler poesia, os originais de um livro que uma amiga me enviara, pedindo minha modesta opinião, despida  de qualquer autoridade de expert.

A senhora ao meu lado estica o olhar sobre o que estou lendo. Simpática, tenta puxar conversa. Correspondo dentro do estreito limite da boa educação apenas.  Ela pergunta se fui eu que escrevi, se vai virar livro, se sou o editor e comenta que os poemas são “complexos”. Assumi como elogio, embora tenha me parecido que ela não entendeu bem o que havia lido de esguelha.

As senhoras da fila da frente matraqueiam sem parar. Falam mal da nora de uma delas, esporte favorito de muitas sogras por aí.  A senhora diz que não entende como o filho foi se casar com aquela moça porque ela isso, ela aquilo. Até que uma vaticina: “É o sexo. Ela deve ser boa nisso. Mulher tem que ser safada”.


Esqueço a poesia, contenho o riso e louvo a sabedoria da maturidade.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fofoca de vizinho

Segredo é algo que a gente conta para uma pessoa de cada vez. E fofoca talvez seja o segredo que saiu do armário e se descompromissou com a verdade.
Eu não conheço meus vizinhos. Nem quero.  Com vizinhos, nunca gostei de intimidade, nem de confusão.
Mas por essas vulgaridades das construções modernas, quando estou no banheiro escuto – mesmo sem querer - a conversa de outro apartamento. Não sei se ao lado, embaixo ou em cima.  Mas com alguma frequência, ouço um homem falar, quase sempre resmungando ou reclamando.  Pela voz, deve ter algo entre 55 e 60 anos.
Noite passada, meu vizinho rabugento se excedeu. Ele disse, presumo que para sua mulher:
“Você acha que eu vou comer tudo isso?! Não sou que nem você, você devia fazer dieta, está imensa de tanta porcaria que come.”
Concluí que a principal porcaria na vida da mulher dele é o seu marido, meu vizinho.  

sábado, 1 de junho de 2013

Nomadismo light

Bem, tirando a poeira do blog e retomando o fim do post anterior, eu me mudei de Copacabana.  Já faz uns meses. Sou animal inquieto. Por razões profissionais, casamentos, separações ou só porque deu vontade (este é o caso agora), fui para meu oitavo endereço em quinze anos, no Rio e em Brasília.

Eu gosto de desmontar e montar casas. Gosto dessa trabalheira insana.  Gosto dos ciclos. Dos fins e dos recomeços.

Está um pouco no DNA. Minha mãe morou em – não me lembro mais – cerca de uma dezena  endereços durante sua infância, já que meu avô era praticamente um nômade. Moraram em Zurich, Ubatuba, Friburgo, Teresópolis, Miguel Pereira e sei lá onde mais até fixarem residência no Rio de Janeiro.

Estou morando em uma rua tranquila, mais perto do trabalho e mais distante da praia, do caos e das pulgas de Copacabana.  

Mas tudo é por enquanto. 


domingo, 20 de janeiro de 2013

Já deu


Copacabana é mau agouro. Moro no bairro há pouco mais de dois anos e qualquer caminhada banal me lança ao futuro, esfregando no rosto a dura e cruel realidade que me espera. Que nos espera a todos, aliás, se não morrermos antes. É o bairro carioca com a maior população de idosos. E a velhice, vamos combinar, não tem nada de melhor idade. É uma merda, quando a saúde não se sustenta.

Quando saio com meu cachorro de manhã, invariavelmente me deparo com uma senhora cadeirante, macérrima, entrevada, gemendo ininterruptamente em voz alta, em companhia de sua enfermeira, na portaria do prédio ao lado. Uma existência precária, sem nenhum prazer aparente, só suplício.

No último ano, perdi minha mãe, que, aos 79, morreu em pé, subitamente e saudável. Felizmente, sem ter que encarar a decrepitude que ela tanto temia. E tenho acompanhado a decadência cada vez mais acentuada do meu padrasto que, aos 86, acumula limitações e dores.  

Nesta semana, o ator Walmor Chagas morreu. Polícia e família acreditam que tenha optado pelo suicídio aos 82 anos, já que vinha sofrendo com graduais privações em sua saúde e, consequentemente, em sua qualidade de vida. A mais recente, a catarata nos olhos que o impedia de ler, sua maior paixão.  O suicídio é a mais drástica e radical atitude frente à vida, para a qual não cabe julgamento e dispensa justificativas. Cada um sabe de si, onde o calo lhe aperta.  

Li notícia que,  em dezembro, dois gêmeos belgas, de 45 anos, surdos, decidiram pelo suicídio assistido (eutanásia), já que perderam também a visão, em função de doença degenerativa.  Surdos e cegos. Sem duas janelas de comunicação com o mundo, escolheram que era demais para suportarem. No outro extremo, está aí o físico Stephen Hawking se agarrando aos fiapos de vida que lhe restam, com bravura e tenacidade. E há muitos outros exemplos menos célebres, porém igualmente nobres.

Já escrevi antes que penso que a vida vale a pena, sim, desde que sob condições mínimas de proveito. Como disse certa vez outro grande ator, Chico Anysio, “eu não tenho medo da morte, tenho pena de morrer.” Mas eu tenho muito medo de certo tipo de (não) vida.

Acho que vou me mudar de Copacabana.  Não preciso de tanta visão de futuro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Papo franco-italiano


- Roma?
- Sim... respondeu ela, curiosa.
- Paris.
- Não entendi.
- Seu nome é Roma, ouvi quando sua amiga te chamou. O meu é Paris. 
- Esqueça Paris.  Ela disse, já se virando.
- OK, que tal então, Nero?
 Ela riu, sem se virar de volta. Prossegui.
- Sério, meu nome é Paris. É meio ridículo, eu sei, e o pior é que de uns tempos para cá tenho que aguentar as piadinhas com o sobrenome Hilton.
- Hum...
- Meu nome é Paris, porque sou o quinto filho e como veio de novo um varão, frustrando meus pais que queriam uma menina, me deram este nome. Meus irmãos são Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan...
- Hahahahaha. Quer dizer que você é Paris, porque acabaram os mosqueteiros?!
Quando ela se virou, eu pude ver a explosão daquele riso.
- Sim, você está diante do quinto mosqueteiro. Sou um personagem inédito.
- Ah, quer dizer que vão escrever um romance inspirado em você? Ela disse, com ironia.
- Na verdade, gosto eu mesmo de escrever minha história. Mas prefiro textos a quatro mãos.
 Ela corou, sorriu e desviou o rosto um pouco para baixo.
- Mas e você, por que o seu nome é Roma? Seus pais curtiam anagramas?
- Pois é, sou o próprio amor. Ou seu avesso.
- Opa, terei cuidado...
E riram sonoramente
- Falando sério, nada demais. Meus pais achavam que era um nome forte, curto e fácil. Mas é claro que sempre faz lembrar da cidade e de que todos os caminhos levam à ela.  
- Ou a você... Especialmente sua luz. A luz de Roma na primavera é extraordinária.
- Você conhece?
- Sim, estive lá algumas vezes. Você conhece Paris?
- Hã-hã. Você é fotógrafo?
- Por que a pergunta? Você é modelo?
- Não, é que você falou em luz...  
- Apenas um amador. Mas não saio de casa sem uma câmera. Foto é momento. A gente nunca sabe quando vai surgir uma oportunidade....
- Você tem essa mesma filosofia quando se trata de pessoas?
- Claro que sim. Você é bem esperta.
- Conheço tipos como você.
- É possível. Existem outras pessoas que não desperdiçam chances. E você é uma mulher de que tipo?
- Do tipo que sabe o que quer. E quando quer.
- Decidida.
- Exatamente.
- Isso é bom. Admiro mulheres assim. Posso te convidar para um café, aqui mesmo na livraria?
- Um cappuccino.
- É coerente. Italianíssima.

...

- Então, vc veio para a noite de autógrafos?
- Sim, leio todos os livros dele. Ele me deu aulas na faculdade.
- Você fez o quê?
- Jornalismo. PUC. Você?
- Design de interiores.
- Legal, acho muito interessante. Não sou profundo conhecedor, mas gosto de tudo que se relaciona à estética, ao belo...
- E à funcionalidade...
- Sim, também.  Sou virginiano. Super pragmático.
- Ah, não me diga que você se liga em astrologia?
- Você curte?
- Claro que não, acho uma bobagem.
- Na verdade, eu só gosto de brincar com os estereótipos ligados aos signos. Os virginianos são sempre vistos como metódicos e chatos.
- E você, claro, não se considera um chato...
- Hum, eventualmente, como todo mundo. Acho que tenho níveis toleráveis de chatice, mas prefiro que você avalie.
 - Eu sou insuportável todos os dias.  Mas só até às 10 da manhã.  Depois, me transformo nessa pessoa incrível.
- E modesta.
- Eu adoro o meu trabalho. Gosto de decifrar meus clientes e tentar traduzir sua personalidade em suas casas. Tem um pouco de psicologia nisso...
- Sem dúvida. Deve ser muito bacana ver como seu trabalho mexe na vida das pessoas. Ele tem um resultado muito prático, muito visível.
- Sim, é estimulante transformar um ambiente, ou levantar um do nada e dar a ele uma cara, uma alma.  E observar como isso mexe com as pessoas. Salva até casamentos.
- Salvou o seu?
- Como sabe que fui casada?
- Não sabia. Arrisquei.
- Não, a decoração não salvou meu casamento. O problema não era de interiores.
- Como assim?
- O problema foi externo. Uma vaca siliconada...
- Hahahahaha. Mas e agora, sem ressentimentos?
- Sim, sofri pra caramba na época, mas agora acho que ela me fez um favor. Estou bem assim. E você?
- Eu também já fui casado.
- Teve filhos?
- Não.
- Separado há muito tempo?
- Dois anos.
- Tempo para frequentar muitas noites de autógrafos.
- Sem dúvida. É o tipo de evento em que a gente pode encontrar alguém interessante, não acha?
- Você disse que é jornalista...
- Sim, mantenho uma coluna online e um blog. Onde comento generalidades, um pouco de literatura, de música, cultura pop. Enfim, coisas que não transformam a vida de ninguém, nem salvam casamentos.     
- E o que salva um casamento?
Ele, na verdade, pensou em responder “sexo”. Mas achou melhor que seria uma abordagem incisiva demais naquele momento.
- Talvez nada tenha tamanho poder.
- Instituição falida? – ela continuou.  
- Como instituição, talvez. Mas não como relacionamento. Continuo a crer na possibilidade de relacionamentos duradouros e saudáveis.
- E felizes?
- Sim, felicidade é possível.
- E o que é felicidade?
- Pergunta com múltiplas respostas, algumas bem clichês, nenhuma satisfaz plenamente. Gosto muito da definição de um amigo terapeuta: “Felicidade é suportar o inesperado”.
- Boa! Felicidade para mim é uma coletânea de momentos.
- Alguns deles vividos em uma livraria.
- É, pode ser. E inesperados. Ela sorriu, com a malícia desenhada no contorno dos lábios e bebeu mais um gole do café.   

...

- Você gosta de cinema?  
- Sim, gosto.
- Eu adoro. Vou toda semana.
- Eu também, vou praticamente toda semana.
- O que você gosta?  Comédias românticas?
- Também, mas não faço o gênero mulherzinha.  Não vejo só filmes água-com-açúcar.
- Eu gosto de muita coisa, menos filmes de terror.
- Não me diga que tem medo. 
- Medo? Quem? Eu? Claro que sim. Mas eu adoro filmes de suspense, policiais, serial-killers...
- Hum, suspeito. Devo temer que você seja um psicopata?
- Não, claro que não. Eu também gosto de comédias românticas.
- Faz o gênero sensível?
- Funciona, às vezes...
- Eu não sou ligada em filmes muito cabeça, aquela coisa de intelectuais vestidos de preto na sessão da meia-noite de uma mostra...
- de cinema iraniano.
- Isso! Nem pensar. Tô fora.
- Eu também. Não tenho mais saco para essa pretensão intelectual. Achei que você fosse cinéfila. Quando nos apresentamos, você ia me dispensando com uma frase de Humphrey Bogart em Casablanca, um clássico...
- Quem disse que eu ainda não te dispensei?
- A borra do café.
- Hahahahaha, lá vem você de novo com crendices.
- Eu também não acredito nisso. Estava brincando.
- No que você acredita?
- Que nós vamos ao cinema neste final de semana.
- É um convite?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobre homens e tigres


O homem é o animal autointitulado mais inteligente da Terra. Mais inteligente não significa o mais feliz.

É também o bicho mais pretensioso. Tão pretensioso que inventou deus à sua imagem e semelhança, mas, malandra e mercadologicamente, espalhou que foi o contrário. Inverteu criador e criatura, em golpe de falsa modéstia. Assim, ficou mais fácil vender o seu peixe. No caso, seu deus. E é por causa desse bom deus e do vil metal que as guerras têm sido travadas há séculos. “Lembre-se sempre que deus está do lado de quem vai vencer”.

Diante de tantas desigualdades injustificáveis neste mundo de meu deus (ops, de seu deus), o homem inventou que os desígnios desse seu deus são além de nossa compreensão e que se você, meu caro, está tão fodido assim deve ser porque merece. Mas não fica assim, nem tristinho, nem revoltado, não, porque quando você morrer, se tiver se comportado direitinho, você e o carinha que inventou deus e está cheio da grana serão iguais e desfrutarão das maravilhas dos jardins floridos da vida eterna.  Até lá, fica na sua e não enche o saco.  

O homem é tão pretensioso que acha que está no centro do universo, embora habite um planetinha ínfimo em uma galáxia insignificante. E como tem dificuldades em lidar com a sua finitude, encanou que a sua vida tem que continuar em algum lugar melhor.  Melhor para ele e pior para os que não compartilham o mesmo deus. Porque, claro, pretensioso, o homem passou a crer que, por crer em um determinado deus, é individualmente superior ao homem igualzinho sentado ao seu lado no metrô, mas que inventou outro deus qualquer.

O homem é tão pretensioso que não aceita que sua breve passagem por estas bandas seja tão somente cheia de som e fúria significando nada (como escreveu um certo bardo dotado de rara sensatez).  Em sua infinita pretensão, difundiu a ilusão de que se ele, homem, existe é por um propósito maior. E que este é tão incomensuravelmente grande que uma vida inteira é muito pouco. Precisa e merece outra, alhures ou aqui mesmo, em encadernação revista e atualizada.

Tudo isso só pra não se borrar nas calças quando a jiripoca pia ou quando está cara a cara e prestes a ser devorado por um tigre naturalmente nada misericordioso. Que pode não ter sido capaz de inventar a roda, a pólvora, a penicilina, a bomba ou um deus, mas é muito mais bonito que o bicho homem. E quiçá, mais inteligente, porque vive, simplesmente, sem perder tempo pensando na tal felicidade ou inventando histórias pra boi dormir. O tigre vai lá e come o boi. E pronto, tá resolvido

sábado, 5 de janeiro de 2013

Duzentos anos


Era o primeiro dia dos namorados que passavam juntos, apaixonados jovens em seus vinte e poucos anos.

Ele, pouco familiarizado a gostos, caprichos, sensibilidades femininas foi objetivo e perguntou-lhe o que queria ganhar de presente. Ela, romântica e manhosa, respondeu que queria algo que durasse duzentos anos.

Até um Neanderthal entenderia que ela insinuava o desejo por uma joia. Diamantes são eternos.

O dia estava chegando e ele já havia planejado o esquema clássico flores, jantarzinho e motel. Nada original, mas sempre eficaz.  A simples ideia de entrar em um shopping e folhear vitrines até achar um presente lhe causava arrepios.  A falta de grana sobrando para comprar uma joia – sim, ele entendera o recado – comprometia o atendimento do sonho e ele temia o impacto negativo de frustrar a expectativa dela naquela primeira data especial. Afinal, gostava sinceramente dela e queria que o relacionamento se desenvolvesse. No fundo, talvez houvesse certa ponta de usura também, pelo alto investimento financeiro em uma “bobagem”, mas ele não admitiria nem para o espelho.

Na volta do almoço, ele fuma um cigarro com um colega do escritório.  Ali em frente ao prédio no Centro um camelô vendia pequenos animais, num comércio ilegal então possível . Aproximam-se com curiosidade entediada.  Pequenas tartarugas em uma caixa de papelão.  O colega, despretensiosamente, pergunta ao vendedor quanto tempo dura aquele bicho feio comedor de folhas de alface. Duzentos anos responde o homem.

Bingo! “Duzentos anos?! É disso que eu preciso! Moço, quanto custa esse bicho? R$ 10? Me dá um.” Uma pechincha.

No dia dos namorados, a tartaruga é colocada em uma caixa bonita, com laço vermelho. Ela se impressiona com o tamanho da caixa e logo pensa que ali deve estar um estojo com belo colar ou par de brincos. Ao abri-la, contendo a ansiedade, para não parecer interesseira, encontra a simpática tartaruguinha, feliz por voltar a respirar fora da caixa.

O que pensam que ela fez? Bateu com o casco duro na testa dele e terminou o namoro? Não. Riu e apaixonou-se em definitivo. Depois, racionalizou: “esse homem tem senso de humor, é criativo, inteligente e me deu uma volta”.

Esta história aconteceu há mais de vinte anos. Estão juntos até hoje, tiveram duas filhas. O amor ainda vive. A tartaruga também. O amor é uma tartaruga.

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bem diferente


O idoso escolhe sua mesa favorita, no canto do salão, e pede o vinho de sempre, que hoje “tem, mas acabou”.  Conversa com desenvoltura com dois garçons denotando intimidade de habitué.

Com uma folha de papel, faz flor e entrega a uma das quatro jovens, colegas de trabalho, que almoçam na mesa ao lado.  Elas agradecem a gentileza.  Ele explica que é uma “técnica japonesa chamada origami” e que é capaz de fazer girafa, coelho e outros bichos.

Após curto intervalo, ele puxa assunto, estilo veterano galanteador de segunda .
- Vocês trabalham nas imediações?    (caramba, ele usou a palavra “imediações”!)
- Sim, numa empresa do outro lado da rua.
- Empresa de quê?
- Empresa de comunicação.
- Eu tenho um amigo que tem um escritório naquele prédio.  Eu já tô velho, aposentado...

E por aí vai. As moças respondendo delicada, mas laconicamente, às investidas. Não queriam ser grosseiras, mas estão interessadas em conversar entre elas.

Ele então fala dos cinco filhos e seis netos e mostra fotos. Elas elogiam: “Família bonita”.

Com o passar do tempo, e o nítido desinteresse das moças educadas em esticar a conversa, ele capitula e pede a conta, quase ao mesmo tempo em que eu termino o meu filé.

Eu também almoço sozinho. A solidão pode ser ruim. A velhice é pior ainda.

Como diz um amigo sexagenário: “envelhecer é bem diferente de viver”. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Galeria Nacional

Na sala 41, uma das minhas favoritas - como se fosse possível tê-las em um lugar como a National Gallery - a segurança ruiva permanece alheia a todos e às obras de arte que, para ela, são agora mera paisagem revista ad nauseum. A única coisa pendurada na parede que lhe interessa é a placa que sinaliza "way out". Tudo que deseja depois de mais um dia arrastado em longas horas tediosas são duas pints em um pub, antes de encarar o tube pra casa.

domingo, 16 de setembro de 2012

Cada mergulho, um flash



Cena carioca: em quiosque da praia de Copacabana, um grupo batuca pagode tosco, desses para arrumar tips dos gringos, e um gay, vestindo sunga vermelha com estrelas e regata de oncinha, samba frenético, sentindo-se Luma na Avenida.  Admiro quem consegue se divertir com tão pouco.

domingo, 5 de agosto de 2012

Ela está ali


São 1h37 da madrugada de domingo e ela, sozinha, fuma e toma lentamente um chopp que esquenta rapidamente num restaurante da orla de Copacabana nessa noite morna sem lua. Tem uns cinquenta e muitos anos e está arrumada, maquiada com algum excesso, brincos grandes, pulseiras douradas, colar de bijoux,  vestido preto, cabelos tingidos de louro pra disfarçar os fios brancos que denunciam a idade. Em vão. Pescoço, pés de galinhas e mãos delatam.  

Faz tempo – uns três anos, pelo menos – que não sabe o que é um homem. E ela queria muito chupar um pau esta noite. E ter mãos firmes que a tocassem com vontade, que lhe trouxessem de volta orgasmos distantes, mas não esquecidos. Não tem sido fácil. Em suas incursões pelo vazio das noites, ela, vez ou outra, conversa com algum solitário. Mas todos têm sido invariavelmente desinteressantes. Grosseiros, quase rudes, barrigudos, calvos, que fazem galanteios diretos demais,  baratos como rosas murchas de vendedores ambulantes. Gente que desanda a falar mal da ex-mulher que lhe tira uma fortuna de pensão e de filhos problemáticos.

Ela mesma sobrevive com a pensão – não uma fortuna – que recebe do ex-marido que lhe deixou por outra, mais jovem, uma divorciada com duas crianças, e com um salário modesto de funcionária pública de quinto escalão da prefeitura. Aluga um pequeno apartamento ali mesmo em Copa em um prédio antigo, feio e mal cuidado. Poderia estar roubando, matando, mas está ali. E esta já é uma piada velha dos vendedores de balas dentro dos ônibus que ela pega diariamente até o Centro.

Ela está ali. Recusa-se a aposentar o desejo.  Nada de acomodar-se diante da televisão, de vestir sandálias baixas da linha Comfort, e cuidar de netos. Até por que sequer teve filhos com o ex-marido.  Compra roupas que emulam elegância e qualidade nas lojas populares escondidas nas galerias do bairro. Não têm bom caimento, mas disfarçam razoavelmente as imperfeições que a idade e a gravidade impõem ao corpo. Ela luta contra, fazendo ginástica numa academia modesta perto de casa.

Ela está ali, olhando o movimento na calçada, a diversificada fauna noturna, àquela altura com interesse pouco maior do que a indiferença  à televisão sem som suspensa no restaurante.  Dado o avançado da hora, pressente sem dificuldade que seu jejum não se encerrará hoje.

Tudo bem, está habituada ao zero a zero.  No próximo fim de semana, estará de volta, com o mesmo fiapo de esperança. Ela só quer, como quase todo mundo, encontrar alguém legal pra ficar. Um coroa bacana que a leve para jantar, para viajar, ao teatro. Um homem gentil.  Ainda haverá algum? Ela está ali. Seu mérito maior é tentar.


sábado, 30 de junho de 2012

Onde era céu

foto: Leandro Wirz



Eu trabalho em um prédio modernoso de gosto arquitetônico pra lá de duvidoso. Desses com vidros espelhados.  Volta e meia, ouvimos um baque surdo contra a inquebrantável vidraça. E é menos um pássaro no mundo.

Na condição quase marginal de fumante, eu estava lá embaixo  fazendo fumaça e olhando o movimento da rua quando um passarinho se chocou contra o prédio. Caiu bem perto de mim.

Caído meio de lado, permaneceu por instantes com a cabeça enfiada no chão e a asa esquerda aberta.  Como se sentisse aquela dor aguda de quem leva um chute no saco. (Não sei qual seria exatamente o equivalente feminino para a dor de um chute no saco. Então, mulheres, perdoem a minha ignorância e imaginem a dor mais intensa que podem sentir). Saca aquela cena manjada de jogador de futebol valorizando a falta que levou? Rosto chafurdado na grama, expressão de choro, mão no local onde levou a pancada e o outro braço erguido chamando atendimento médico e maca? Pois é. O passarinho era bom nisso. Mas não estava encenando.

Aos poucos, foi recolhendo a asa, tirando a cabeça do chão e pondo-se em pé. Ou em patas. Evacuou. Perdoem a escatologia, mas foi o susto.  Então, dirigiu os olhos para o prédio gigante diante de si e foi levantando gradualmente o pescoço até o limite, tentando entender em seu minúsculo cérebro que porra era aquela que parecia céu azul, mas era um aríete.

E ficou ali alguns minutos, atordoado. Longos minutos.

Até que um homem se aproximou dele, na intenção de ajudá-lo. Assustou-se, porque já sabe que humanos  - e agora, também prédios envidraçados – são uma ameaça. Felizmente, abriu asas e saiu voando ligeiro na direção oposta ao edifício assassino.

Na hora do almoço, em trágica coincidência, me deparei com outro passarinho tombado na calçada, em frente ao colosso impassível. Este não teve a mesma sorte.

Fiquei pensando, não em leões, mas em quantos pássaros matamos por dia. Pássaros enganados por ilusões de céu com seus voos violentamente interrompidos. E como será à noite, quando os vidros se tornam espelho negro e opaco? Onde era céu, súbito é muro.





ps.: Este texto é dedicado à querida Selma Pereira que, ao me ouvir contar esta história, pediu que eu a escrevesse.