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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bem diferente


O idoso escolhe sua mesa favorita, no canto do salão, e pede o vinho de sempre, que hoje “tem, mas acabou”.  Conversa com desenvoltura com dois garçons denotando intimidade de habitué.

Com uma folha de papel, faz flor e entrega a uma das quatro jovens, colegas de trabalho, que almoçam na mesa ao lado.  Elas agradecem a gentileza.  Ele explica que é uma “técnica japonesa chamada origami” e que é capaz de fazer girafa, coelho e outros bichos.

Após curto intervalo, ele puxa assunto, estilo veterano galanteador de segunda .
- Vocês trabalham nas imediações?    (caramba, ele usou a palavra “imediações”!)
- Sim, numa empresa do outro lado da rua.
- Empresa de quê?
- Empresa de comunicação.
- Eu tenho um amigo que tem um escritório naquele prédio.  Eu já tô velho, aposentado...

E por aí vai. As moças respondendo delicada, mas laconicamente, às investidas. Não queriam ser grosseiras, mas estão interessadas em conversar entre elas.

Ele então fala dos cinco filhos e seis netos e mostra fotos. Elas elogiam: “Família bonita”.

Com o passar do tempo, e o nítido desinteresse das moças educadas em esticar a conversa, ele capitula e pede a conta, quase ao mesmo tempo em que eu termino o meu filé.

Eu também almoço sozinho. A solidão pode ser ruim. A velhice é pior ainda.

Como diz um amigo sexagenário: “envelhecer é bem diferente de viver”. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Almoço livros



Eu sou chato por várias razões. Por várias virginianas manias. Como deseducadamente rápido e aproveito o restante do horário de almoço para andar por aí, flanar mesmo. Quando o sol escalda minha careca, eu me refugio nalguma livraria. Não vou dizer que sou rato de livraria, porque ratos são nojentos.

Mas eu fico por lá, fuçando entre prateleiras, mesas, balcões. Olho, pego, cheiro, folheio. Orelhas me seduzem facilmente. Quero comprar vários, mas a voz da razão me faz pensar na fatura do cartão e nos livros que já tenho e que estão amargando a fila para que eu os leia. Tenho mais livros do que dou conta de ler.

Freio meu impulso consumista. Mas permaneço ali, meio atônito por não conseguir acompanhar tudo que há e por não conseguir guardar, ao menos na memória, nem a metade do que eu gostaria.

Meu fascínio mesmo é por capas e títulos. Deve ser vício de publicitário, sempre atento ao primeiro impacto vendedor. Na rodada de hoje, dois livros me chamaram a atenção.

“São Diabo” tem uma foto de capa linda e perturbadora. É inquietante ver os pés femininos elevando-se sobre o que parece ser um muro. A impressão é que ela está naquele momento limite em que, puxada por uma corda presa ao seu pescoço, seus pés deixarão de tocar a base e ela será enforcada. A antítese do título também é provocadora, destrói o maniqueísmo e as fronteiras entre bem e mal.

"São Diabo" reúne uma coleção de personagens insólitos e intensos, mergulhados em situações tragicômicas, que oscilam entre a razão e o devaneio, o bem e o mal. Com ele, Manfredo Kempff nos mostra um mundo cheio de contrastes mágicos e, ao mesmo tempo, terrivelmente real." (sinopse extraída do site da livraria Siciliano)

O outro livro (edição em dois tomos) me atraiu pela inversão do título: “A volta ao dia em 80 mundos”, de Júlio Cortazar. A edição é bem feia, mas pela sinopse (confira a seguir), a leitura é bem interessante. O conteúdo tem várias semelhanças com os de um blog miscelânea.

Pela primeira vez publicado no Brasil, A volta ao dia em 80 mundos representa uma nova forma de fazer literatura na América Latina. Dividido em dois volumes, rompe com o modelo clássico de narrativa e apresentam ao leitor uma coletânea de citações, recortes de jornais, ensaios, contos, poemas e comentários alternados com ilustrações e fotografias que tratam de temas diversos como boxe, política, novas técnicas culinárias, Paris, sadismo, entre outros. Os textos, valorizados pela primorosa tradução de Ari Roitman, foram reunidos numa edição que respeitam os formatos originais dos livros, tal como foram pensados pelo autor. Certamente irão se tornar obras fundamentais na coleção de qualquer admirador de literatura.” (sinopse extraída do site da livraria Siciliano)