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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Aéreas termais

No voo entre São Paulo e Goiânia, minha poltrona está cercada por uma dúzia de senhoras frenéticas com o passeio que farão à Caldas Novas e suas piscinas de águas termais.  Eu tentando ler poesia, os originais de um livro que uma amiga me enviara, pedindo minha modesta opinião, despida  de qualquer autoridade de expert.

A senhora ao meu lado estica o olhar sobre o que estou lendo. Simpática, tenta puxar conversa. Correspondo dentro do estreito limite da boa educação apenas.  Ela pergunta se fui eu que escrevi, se vai virar livro, se sou o editor e comenta que os poemas são “complexos”. Assumi como elogio, embora tenha me parecido que ela não entendeu bem o que havia lido de esguelha.

As senhoras da fila da frente matraqueiam sem parar. Falam mal da nora de uma delas, esporte favorito de muitas sogras por aí.  A senhora diz que não entende como o filho foi se casar com aquela moça porque ela isso, ela aquilo. Até que uma vaticina: “É o sexo. Ela deve ser boa nisso. Mulher tem que ser safada”.


Esqueço a poesia, contenho o riso e louvo a sabedoria da maturidade.

sábado, 1 de janeiro de 2011

um do um de um um

Foto: Tereza Wirz



"Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive."

Fernando Pessoa
 
 
É isso, caros e caras, pão e poesia pra vocês em 2011.
Ou melhor, croissant. Leiam o belo texto em que Carol Nogueira saúda o novo ano.
http://le-croissant.blogspot.com/2010/12/viva-2011.html
 
 
E já que ontem é passado e o futuro a ninguém pertence, faça o melhor que puder. Seja feliz hoje. E tente colecionar hojes felizes.

terça-feira, 10 de março de 2009

Faíscas de beleza

foto: Klara Wirz


O escritor moçambicano Mia Couto concedeu entrevista ao jornal O Globo, publicada no Segundo Caderno em 8 de março. Nela, o escritor brasileiro Milton Hatoum pergunta a Couto se a poesia é inseparável da prosa. A resposta é uma belíssima demonstração de sensibilidade, sabedoria e delicadeza.

Mia Couto: “Sim, é inseparável. Talvez por deficiência, talvez porque eu não saiba fazer de outro modo. Poesia, para mim, não é algo que apenas se escreva. Mas que se vive. Parece uma “grande” declaração, mas a verdade é que, se não fosse escritor, creio que manteria uma relação poética com o mundo como condição para ser feliz. O meu pai é poeta e, mais do que entre livros, cresci num ambiente em que se valorizavam as pequenas coisas, a descoberta de beleza à moda de Manoel de Barros: brilhos entre cinzas e lixos. Lembro-me de meu pai me conduzir entre as velhas linhas do trem para descobrir pequenas pedrinhas brilhantes tombadas dos vagões de minério. Ao redor havia a guerra colonial, um mundo inteiro que se despedaçava. Mas meu pai se entretinha como um menino a colecionar pedrinhas. Essa foi a minha primeira lição de poesia. Ainda hoje, vivo assim, com olhos na terra ciscando por faíscas de beleza.”

domingo, 23 de novembro de 2008

MSN

Poesia em fuga. Instalação no MAC-Niterói. Claudiopartes




Noite dessas, não faz muito tempo, eu estava recebendo casais de amigos e uísque vai, vinho vem, falamos de poesia. Nove entre os onze presentes têm preconceito contra a poesia. Do tipo, se o cara diz que é poeta na noite em que vocês se conhecem, fortíssima probabilidade do cara ser mala.

Sou poeta, todos sabiam, e não tinham a intenção de me agredir. Não creio que precise trocar de amigos. Não os culpo. Ouso dizer que concordo com eles. Para a maioria das pessoas a poesia ou é hermética e incompreensível ou é de um romantismo barato, brega, cafona. E o pior é a empáfia pseudo-intelectual. O sujeito julgar-se cabeça. E avançando na cruel sinceridade, grande parte da poesia produzida é um lixo. O que inclui grande parte da minha própria produção literária. Faço uns gols vez em quando, mas chuto muita bola fora.

Acho ainda que a poesia demanda do leitor mais do que a prosa. Isso torna seu consumo mais árduo. E o fato é que quase todo mundo que lê poesia se arrisca a escrever também, o que torna a poesia uma tremenda ação entre amigos. Nem todos chatos. Por isso, eu valorizo imensamente os meus leitores que eu não conheço. Aqueles que não compraram meus livros por educação.

Minha mãe comprou por uns trocados um livro artesanal de poesia vendido no metrô por um jovem de, segundo ela, “uns dezoito ou dezenove anos”. Ela, que tem coração grande, como convém às mães, comprou o livro por misericórdia. Ela se lembrou de quando eu tinha aquela idade e também fui mala a ponto de vender meus livros de bar em bar, junto com hare krishnas vendendo incenso, senhores vendendo rosas murchas e fotografias em polaróide.Vê-se, que os tempos eram completamente diferentes. Naquela época, não era tão ridículo assim.

Ontem, depois do almoço, minha mãe me mostrou o livro do rapaz. Não apenas por questões éticas é que omito o título do livro e o nome do autor. Não os guardei mesmo.
Folheei as páginas, li alguns poemas e, como minha mãe alertara, é péssimo. Não dá mesmo para ler.

Mas a introdução me chamou muita atenção. O jovem poeta escreveu um curto texto de apresentação no qual afirma que é muito bom o seu trabalho estar recebendo elogios (pergunto-me de quem). E que ele acha que de fato os merece. Porque, palavras dele, escreve “com muita profundidade sobre o amor e a natureza”. A presunção não pára aí. Nos agradecimentos, ele diz obrigado a Deus, a mamãe, a vovó, e a um certo alguém que o incentiva em seu “talento”. Ah, os jovens! MSN: muito sem noção.

Salve Rimbaud, o jovem poeta, o gênio precoce, que chutou o balde da poesia e se mandou para a África.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pequena crônica sobre amizade e amor

Eu tenho um amigo, também escritor, 21 anos (uma maioridade!) mais velho do que eu. Eu o chamo, afetuosamente, de Bwana. Nesses 13 anos de amizade, ele me ensinou tanto quanto um pai. Com ele, aprendi sobre a vida, sobre a aventura de ser humano, sobre relacionamentos, sobre literatura.

Um fato ilustra bem a figura. Certa vez, fomos ao Maracanã assistir a um jogo do Flamengo e, para forrar o pedaço da arquibancada em que ele iria sentar-se, sacou uma edição do Le Monde Diplomatique.

Almoçamos juntos nessa semana e, como de hábito, bebemos vinho e falamos sobre mulheres, livros, planos, política (aqui sempre discordamos: ele cisma que eu sou de direita), viagens, trabalho, dinheiro, futebol, “sei lá, mil coisas”. Então ele me perguntou se estou escrevendo poesia.

Respondi que quase nada. Pedi licença para me valer de um clichê, mas a verdade é que ando feliz demais para escrever.

Ele me disse que é, sim, um clichê. Mas dispensou minhas desculpas. Uma verdade não chega à toa a clichê, afirmou.

Eu estou serenamente feliz. Eu (quase) não escrevo mais poesia. A culpa é da minha mulher.

E eu lhe sou eternamente grato.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Quando a poesia realmente fez folia em minha vida...


estes são meus livros, por enquanto....



Conheça meu outro blog, onde publico poemas.
www.leandrowirz.blogspot.com