domingo, 8 de março de 2009

Mulheres na pressão, por Martha Medeiros


“... Ainda desejamos provar para o mundo que yes, we can.

Claro que as mulheres podem tudo, está sacramentado. Mas será que devemos querer tudo? Onde foi parar nosso critério de seleção? Já não sabemos distinguir o que é prioridade e o que pode ficar em segundo plano: tudo virou prioridade. E só uma mulher supersônica consegue ter eficiência absoluta em todos os quesitos: melhor mãe, melhor amiga, melhor filha, melhor namorada, melhor esposa, melhor profissional, melhor dona-de-casa e melhor bunda. É morte por exaustão na certa.

Eu proponho, nesse Dia Internacional das Mulheres, que a gente dê uma folga para nós mesmas. Vamos mudar de assunto. Que se pare de falar de mulheres que conseguiram engravidar aos 57 anos, que perderam 30 quilos em duas semanas, que beijaram 28 caras em duas noites de carnaval, que aprenderam a ganhar dinheiro sem sair de casa, que visitaram 46 países nos últimos dez anos, que sobreviveram a tragédias, que conseguiram domar as melenas, que são executivas completas, que possuem duas centenas de sapatos, que três semanas depois de separar já estão felizes nos braços de outro, que preparam um risoto de funghi em dez minutos, que têm disposição para rolar no chão com os filhos, que assistiram todos os filmes em cartaz, que aparentam ter 15 anos menos, que exibem uma barriga de tanquinho um mês depois de parir, que lembram trechos dos clássicos que leram na época da faculdade, que superaram traumas, que arranjam tempo para fazer pilates, ioga, musculação e drenagem linfática. Dá orgulho, eu sei, mas é uma competência e uma autopromoção que beira o irreal.

Estou com saudade de ler e ouvir sobre as adoráveis qualidades dos homens. Eles merecem voltar a ser valorizados. Isso ajudaria a reduzir nosso estresse e a nos dar uma situada. Com menos holofotes, deixaremos de nos cobrar tanto e recuperaremos um pouco da paz de nossas avós.”

Martha Medeiros, 8 de março de 2009.

Excomunhão

Causou comoção e polêmica o caso da menina de 9 anos estuprada pelo padastro e que engravidou de gêmeos. Nesta semana, ela realizou um aborto, autorizada pela Justiça.

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho excomungou toda a equipe médica que fez o aborto lícito e a mãe da menina, que autorizou o procedimento.

Confrontado com o fato de que o estuprador não estava sendo punido pela Igreja, o Arcebispo deu mais uma demonstração de insensibilidade afirmando que o crime de estupro é “menos grave” do que “tirar a vida de um inocente” por meio de um aborto.

A comparação absurda torna inevitável a lembrança da frase de Paulo Maluf, que ficou eternizada no mundo político, quando deixou escapar, em um debate sobre violência urbana, um comentário que definia bem seus valores morais: “Estupra, mas não mata”.

Deve ser seguindo essa linha torta de pensamento que tantos padres perversos cometem o injustificável crime de pedofilia.

Eu nunca vi ninguém fazer um aborto feliz da vida, enquanto o estuprador se regozija com o sofrimento da vítima.

Que religião é essa que coloca a barbárie do estupro e os direitos da menina vítima, que precisa de paz e amparo emocional, em segundo plano?!

A menina tinha amparo legal duplo para fazer o aborto (vítima de estupro e risco de morte para a mãe). Supostamente em nome da vida, o Arcebispo queria obrigar a menina a correr o risco da morte.

A posição do Arcebispo foi coerente com a sua Igreja. Foi defendida e ratificada por outras autoridades eclesiásticas, que disseram: “Nem sempre se pode identificar o que está amparado por leis com princípios éticos e valores morais. Para nós, sempre terá procedência o mandamento do Senhor: não matarás”.

Esta é a opinião da Igreja Católica, legítima e que deve ser respeitada, embora dela eu discorde frontalmente.

Fui batizado em Igreja Luterana, estudei a vida inteira em Colégio Marista, recebi a Primeira Eucaristia e a primeira das três vezes em que me casei, o fiz na Igreja Católica. No entanto, não me considero católico. Cada vez mais me causa repulsa a sua doutrina. Cada vez fico mais inconformado com a limitação do pensamento católico.

Eu não tenho religião. Eu não tenho certeza se Deus existe. Mas se Ele existir espero que seja bem diferente desse deus do Arcebispo.

E, Dom, se quiser me excomungar também, fique à vontade.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Romantismo



Depois de uma semana daquelas, hoje eu estou romântico.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Vik Muniz no MAM


A exposição de Vik Muniz que está em cartaz até 8 de março no Museu de Arte Moderna - MAM Rio é simplesmente imperdível.

Mais impressionantes até do que os resultados dos trabalhos, são as formas como as obras são elaboradas. Criadas a partir de materiais inusitados (de diamantes a lixo, de linhas de costura a pasta de amendoim), Vik Muniz dá uma demonstração vigorosa de criatividade e técnica, impregnada de siginificados.
Eu já tinha visto algumas obras de Vik Muniz isoladamente, em diferentes exposições, nunca reunidas em um conjunto tão expressivo. Saí de lá embasbacado.

Reproduzo a seguir o texto de apresentação da mostra:

"Olhe à sua volta: há um mundo de coisas para as quais você não dá a menor importância. Poeira? Você já considerou a poeira como algo possível de ter outro significado? E o lixo, pode ser algo além de ser, simplesmente, lixo? Pois bem, um artista brasileiro – seu nome é Vik Muniz – foi capaz de olhar essas coisas cotidianas e, com elas, recriar possibilidades de apresentar e perceber o mundo.

Em suas obras, materiais inusitados para a arte, como calda de chocolate, pasta de amendoim, caviar ou diamantes são utilizados para recriar grandes ícones da fotografia e da pintura. O resultado são quadros surpreendentes, que nos parecem a um só tempo familiares e estranhos. Lançando nova luz sobre o passado, as fotos de Muniz não deixam de provocar uma reflexão bem humorada e divertida sobre a nossa forma de ver e compreender as imagens.

Com mais de 120 trabalhos que abarcam do início de sua carreira, no fim dos anos 1980, até os dias de hoje, Vik – realizada por Aprazível Edições e Arte – é a maior exposição já dedicada ao artista. Depois de passar pelos Estados Unidos, Canadá e México, ela chega ao Brasil no momento em que Vik atinge o ápice de seu reconhecimento, tornando-se um dos artistas brasileiros mais consagrados no cenário internacional.

Para Vik Muniz, o artista faz a metade do trabalho; a outra parte é feita pelo espectador, que exerce um papel ativo. Agora é a sua vez. Entre nessa aventura, que é ver a exposição: ouse e reivente seu olhar.


Curadoria Vik Muniz
Realização e Organização Aprazível Edições e Arte - Leonel Kaz e Nigge Loddi
Exposição Direção Emilio Kalil
Patrocínio Bradesco Seguros
Ministério da Cultura Lei de Incentivo à Cultura, Governo Federal Brasil um país de todos

imagem: Vik Muniz São Paulo SP, Brasil/EUA, 1961Self Portrait (Front) (Pictures of Magazines), 2003Auto-retrato (frente) (Imagens de revistas)chromogenic print 233,7 x 182,9 cmSelf Portrait (Back) (Pictures of Magazines), 2003Auto-retrato (verso) (Imagens de revistas)chromogenic print 233,7 X 26462 cmCortesia Sikkema Jenkins & Co., New York

Fonte: MAM-Rio"


A exposição pode ser visitada de terça a sexta, das 12h às 18h; Sáb/dom, das 12h às 19. R$ 8 (inteira) / R$ 4 (meia). Programão para uma tarde. Aproveite a visita e passeie pelos jardins do MAM e curta o visual da Marina. Se tiver uma folga no orçamento, leve para casa o belo catálogo da exposição, vendido por R$ 90 na lojinha do Museu.

Trampo



No pitoresco calendário nacional, hoje é primeiro de janeiro. Para valer mesmo, o ano só começa na segunda-feira seguinte ao Carnaval. E já que, obviamente, nem você – porque está me lendo agora – nem eu – porque estou escrevendo este blog – ganhamos na Mega-sena, vamos ao trabalho. Essa falaciosa invenção que, juram, dignifica o homem.

Já que temos que trabalhar – e que bom que temos emprego, especialmente em tempos de crise – é melhor fazer o trabalho bem feito.

Para ajudar, está aí esta simpática - e de fato, sábia - lista que circula pela Internet com dez atitudes para trabalhar melhor. (A qual eu não vou me dar ao trabalho de traduzir, ok?)

Feliz Ano Novo. No mais, rala que rola.

domingo, 1 de março de 2009

Milk



Está em cartaz “Milk”, o filme que proporcionou a Sean Penn o merecidíssimo Oscar de melhor ator. Dirigido por Gus Van Sant, conta a história real de Harvey Milk, primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos.

Até os quarenta anos, Milk pedia sigilo aos seus namorados, com medo de perder o bom emprego em Nova York. Sentindo que precisava de mudança em sua vida, parte para San Francisco com o namorado Scott Smith, sai do armário e inicia a militância em favor dos direitos civis dos homossexuais.

Após três tentativas frustradas, Milk é eleito supervisor de San Francisco, cargo similar ao de vereador no Brasil. Sua principal cruzada passa a ser contra a chamada Proposição nº6, do senador Briggs, que estabelecia que professores homossexuais – e quem os defendesse – deveriam ser demitidos das escolas públicas. A justificativa, absurda, era a de que os professores “ensinariam homossexualidade”, assediariam aos alunos e os recrutariam para as hostes gays, destruindo as famílias.

Milk consegue vencer e a proposição é vetada em San Francisco. Mas a alegria pela vitória dura pouco. Sua carreira promissora, em franca ascensão, é interrompida brutalmente a balas. Em 1978, Milk foi assassinado, junto com o então prefeito de San Francisco, por um outro supervisor, Dan White, seu rival político.

Em linhas gerais, esta é a história. O filme é muito mais que isso e vale a pena ser visto não apenas pela magistral interpretação de Penn. É assustador pensar que tanta ignorância, tanto preconceito, tanta hostilidade contra os gays aconteceu há apenas 30 anos.

E, a despeito do muito que se evoluiu nas últimas décadas, ainda há um longo caminho pela frente para vencer a homofobia.

Eu tenho muitos amigos gays. Notem que eu não escrevi conhecidos ou colegas, mas amigos. Alguns dos melhores. Um destes foi para mim um irmão no momento mais difícil da minha vida. Com ele, aprendi o valor das amizades sinceras e a precisar de menos coisas materiais para ser feliz.

Certa vez, saímos para almoçar em um grupo de oito homens, no qual eu era o único hetero. Ele então me perguntou se eu não me incomodava em sair com “tanta bicha junta, dando pinta”. Eu respondi que não. Que, ao contrário, eu me orgulhava. Porque ali, o diferente era eu. E a minha presença não os constrangia, não os continha, não os incomodava. Eu era aceito por eles. E ficava feliz porque eles se sentiam plenamente à vontade comigo ali.

Relações de amizade são construídas com admiração e respeito mútuos. Torço para que um dia, somewhere over the rainbow, as pessoas convivam harmoniosamente, sem rotularem umas às outras em função da sua orientação sexual.

Ilustra este texto o selo que o governo de Pernambuco fez para mostrar que é receptivo aos turistas gays. A iniciativa é boa, principalmente se for além do mero discurso.

Aquele abraço

Praia de Ipanema, Rio. Foto: Leandro Wirz



Hoje, primeiro de março, o Rio de Janeiro completa 444 anos. Fundada por Estácio de Sá em meio à guerra entre portugueses versus franceses e seus aliados índios, entre os morros Pão de Açúcar e Cara de Cão, a cidade perdeu muito do açúcar e está mais com a cara do Cão.

Ainda assim, apesar dos maus-tratos, do descaso, da deseducação, da ausência de planejamento, da sujeira, da violência, o Rio de Janeiro continua, sim, lindo, como canta a música. Lindo, porém “selvalizado”.

A beleza, mesmo imensa, atenua, mas não elimina as mazelas desta cidade. Sem dúvida, uma das mais bonitas e bárbaras (no mau sentido) do mundo.

Primeiro de março é também o endereço de uma ilha de civilidade no Rio. Fica na Rua Primeiro de Março, 66, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que desde 1989 oferece aos milhões de visitantes anuais uma programação de altíssima qualidade, diversificada, gratuita ou a preços acessíveis. É um dos lugares que os cariocas devem freqüentar e recomendar aos turistas, e dos quais podem se orgulhar.

Feliz aniversáRio. Ainda há esperança.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

La Marra

La Bombonera. Foto: Leandro Wirz


Sou carioca e flamenguista, dois atributos – ou melhor, duas virtudes – que me tornam marrento. Mas mesmo marrento, sei reconhecer meu lugar. Sou mero aprendiz. Existem marrentos muito mais adoráveis do que eu: Romário, Liam Gallagher, Prince e até o marrento-bufão Túlio Maravilha. E outros mais marrentos, mas nem tão adoráveis: Ed Motta, Nelson Piquet, Edmundo.

Recentemente, fiz a peregrinação à Catedral da Marra. Claro, fica na Argentina. Você conhece povo mais marrento? Se você comprar na Bolsa um argentino por quanto ele vale e conseguir revender pelo valor que ele acha que vale, não há crise econômica mundial. Não há Dow Jones ou Ibovespa que segure. É investimento de lucro certo.

Use seu Google Maps e vá aproximando a imagem. Argentina, Buenos Aires, La Boca, La Bombonera. Chegamos. Ninguém é mais marrento nesse mundo do que um argentino residente no bairro de La Boca e torcedor do Boca Juniors. La Boca é como Belém para os católicos. Deus veio de lá. Pelo menos, o deus deles.

La Bombonera, o estádio do Boca, faz nossos alçapões parecerem hospitaleiros campos neutros. O time visitante já começa perdendo. Enquanto o time da casa entra em campo por uma – com trocadilho – boca grande, o túnel do time de fora é um corredor estreito e opressivo. O gramado tem as menores dimensões oficiais possíveis e as arquibancadas são extremamente verticalizadas, de forma que a torcida fica assustadoramente próxima dos jogadores adversários. E pode ser bastante “amistosa” com os visitantes. É pressão pura. Bafo quente no cangote.

Os boquenses, claro, arrotam que La Bombonera é a catedral do futebol. Visão tão míope e limitada que soa ridícula, ainda que afirmem que Deus se criou lá. Mas a gente alivia porque sabe como esses argentinos são marrentos. La Bombonera é, na verdade, a catedral da marra.

Camisetas à venda nas lojas de souvenires ao redor dão a dimensão da marra: Numa, lia-se “La Republica Popular de La Boca”, elevando o bairro de origem proletária a uma nação. Ora, amigos, nação, para mim, é a rubro-negra. Que tem mais torcedores do que toda a população da Argentina. (Circulando por Buenos Aires, vi uma mulher com uma similar nacional, embora bairrista e não futebolística. Estava escrito: “Nacionalidade:carioca”). Outro exemplo, ainda mais contundente são camisas na linha “Yo vi D10s”, em um trocadilho visual do número 10, de Maradona, com a palavra Díos. Tem uns malucos fundamentalistas que até fundaram uma religião, o Maradonismo, na qual o marrento-mór Diego Armando é O Próprio. Não dá para levar a sério. Eu nunca vi Deus (nem estou com pressa para isso), mas tenho certeza de que ele não tem a cara do Maradona. Pelas imagens que já vi, Deus parece mais com o Zico.

A solidariedade marrenta me faz simpatizar com o Boca Juniors, o time mais popular (nos dois sentidos) de lá, assim como o Flamengo é o daqui. Além disso, seria impossível eu torcer pelo time da elite de lá, o River Plate, apesar do patrocínio da brasileira Petrobras. É que o uniforme do River traz uma faixa diagonal que sobe da direita para a esquerda. As cores são diferentes, mas já pensou se alguém me vê usando isso e pensa que eu sou torcedor de um time cruz-maltino que vai disputar a Segunda Divisão este ano?! Deus me livre. Além disso, a camisa do River traz nas costas, ali bem juntinho da nuca, a frase “El más grande”. Eu, hem! Esses argentinos...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

É Carnaval!!!!! UUUhhhhuuuuuu!!!!!!

"5 dias de folia não compensam os outros 360". Em muro no Humaitá, Rio. Foto: Leandro Wirz

Outra noite, fui ao aniversário de um grande amigo, praticamente um irmão caçula, numa boate moderninha. Eu e minha mulher fomos recebidos pela hostess, também amiga do aniversariante. Quando soube do motivo de nossa ida ao local, ela se transformou como se tivéssemos apertado um botão. Ficou eufórica, esfuziante, tresloucada, excitadíssima numa vibe exagerada e totalmente diferente da nossa, mais serena. Nos entreolhamos e ficamos parados com cara de paisagem diante da moça que, minutos depois, sossegou a periquita.

Uso esse exemplo extemporâneo para falar do carnaval.

Quando eu era jovem (o que não faz tanto tempo assim) e solteiro (o que faz muito tempo, já que venho emendando longos relacionamentos) eu gostava de carnaval. Naquela época, os hormônios à flor da pele mandavam em mim mais do que mandam hoje e os dias de folia tinham basicamente dois objetivos: ficar doidão, usando aditivos diversos, e beijar na boca até a língua ter cãibra.

Eram outros tempos e não precisava beijar dez, doze, dezenove parceiras numa noite, como a garotada busca fazer hoje, sem sequer saber o nome da dona da língua. Bastava beijar uma mulher por noite porque a meta era trocar amassos fogosos e, com algum talento e sorte, terminar fazendo sexo com aquele amor eterno de uma noite só.

Hoje em dia, os blocos superlotam as ruas e dão um nó no trânsito. Detesto. Não tenho mais vinte anos. Sou ruim da cabeça e doente do pé. Não gosto de samba e bom sujeito não sou.

O que sempre me intrigou no Carnaval carioca e suas variantes baiana ou pernambucana é a euforia despropositada, exagerada, desmedida.

Toca uma musiquinha qualquer, ruim na maioria das vezes, e as pessoas, do nada, começam a quicar e a gritar numa alegria infundada, extrema, sem motivo algum. Como se simplesmente virassem uma chave e agora fosse a hora de celebrar entusiasticamente qualquer coisa super importante da vida.

Vejam bem, não faço apologia da melancolia blasé, que, na pretensão de ser cool, revela, na verdade, afetação. E é igualmente irritante e incoerente. Mas eu nunca consegui – nem nos etílicos carnavais da minha juventude – transformar-me subitamente nesse hiper animado Gremlin às avessas.

Dito isso, meus caros leitores, divirtam-se na folia momesca. Viajo. A gente se fala nas cinzas.
Ashes to ashes. Dust to dust.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Coletivo carioca

O Rio de Janeiro cabe num ônibus. A princípio, pode parecer que isso não tem o menor cabimento. Mas eu explico.

Costumo ir à praia de bicicleta. Mas no último sábado, como tinha um almoço pós-praia e não teria onde guardar minha bike, encarei o 157, Central-Gávea.

De cara, peguei o ônibus errado. O que não tem graça nenhuma nem quando é de graça, ainda mais quando custa R$ 2,50. Enquanto sacolejava, espremido entre trocentos e cinquenta e três passageiros, à mercê da direção dolosa do motorista, percebi que o ar-condicionado não dava vazão, óbvio. Todos fechados ali, bufando no cangote alheio, criávamos um ambiente no mínimo insalubre. Eu deveria ter pego o 157 sem ar-condicionado, mas de janelas abertas. Nesse caso, o clássico slogan da empresa dedetizadora – “É um pouco mais caro, ah, mas é muito melhor”, não se aplica.

O ônibus estava cheio de estudantes do tradicional Colégio Santo Inácio, saindo da aula matutina de sábado, jovens dourados indo à praia e elas – Fatinha e Vanessa.

Se você tem um fiapo de curiosidade deve estar se perguntando quem são Fatinha e Vanessa. Mas antes, eu preciso contar sobre a moradora da Lagoa.

Uma senhora sentada lá na frente do ônibus resolve descer em seu ponto. Lá vem ela, tentando ser tão gentil quanto é possível a uma pessoa que carrega três sacolas em um ônibus lotado. Esbarrando em todos, ela se desculpa: - “Gente, eu preciso descer, eu não posso mudar de casa”.

Fatinha e Vanessa tornaram meu calvário naquele busão suportável. Muito antes de chegar ao meu ponto, eu já estava completamente entretido pela conversa delas e do amigo Adailton, cujo nome elas invariavelmente pronunciavam sem a consoante final.

Os traseiros de Fatinha e Vanessa, condensados em justíssimos shorts jeans, não fariam feio num baile funk e aposto que não fizeram no Terreirão do Samba, onde haviam passado a noite anterior bebendo cerveja até às 6h. Por conta do exagero etílico da madrugada, Fatinha garantia que naquele sábado só “beberia muito líquido”.

No ônibus elas estavam aflitas para encontrar o “broco” carnavalesco que, conforme prometido pelo Adailto, desfilaria ali na Lagoa. Traziam uns tabuleiros de madeira e mochilas cheias, de forma que deduzi que venderiam alguma coisa aos foliões da Zona Sul.

O que me fez mesmo debruçar de modo invasivo sobre as duas e sua conversa foi a história da amiga Cristiane.

Cristiane havia comido, em um churrasco na laje oferecido por uma rival amorosa, um espetinho de coração. Foi tiro e queda. No dia seguinte, amanheceu paralisada das pernas. O namorado, pivô da desavença, chegou a sentir um aperto no peito e alertar: não coma isso. Mas os olhos de Cristiane foram maiores do que a barriga e ela acreditara nas boas intenções da outra.

Vanessa vaticinou: “Foi macumba do mal.” E Fatinha, malandra escolada, completou: “É por isso que eu não como nada que me oferecem. Eu, hem, sei lá!”

Levaram Cristiane a um centro espírita na tentativa de reverter aquele trabalho terrível. Mas não adiantou. Ela continuou a definhar e agora já não fala coisa com coisa. Fatinha nem gosta mais de visitá-la. Ver essas coisas lhe parte o coração.

Àquela altura, eu viajava, não naquele ônibus, mas na idéia de que o Rio, metonimicamente, estava todo ali: o carnaval de rua, o samba no Terreirão, a cerveja, as ambulantes, os alunos da escola de bacanas, os moradores da Zona Sul, as louras e as negras, a religiosidade, a praia, o calor, a pouca roupa, a descontração. Faltou o futebol, mas esse, literalmente, não anda bem das pernas.

Enfim, Fatinha e Vanessa avistaram, pela janela do coletivo, os playboys, as gatinhas, os vendedores de cerveja. E levantaram, nada discretas, gritando ao motorista:
- “Ô coisinha, pára aí pra mim descer, olha o broco!!”