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domingo, 19 de setembro de 2010

Desbloqueando

Recebi propaganda eletrônica para participar da Bloqueata, que é uma manifestação em favor da liberdade criativa e da espontaneidade do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro. Óbvio que não vou.


Na tarde deste domingo, diversos blocos de rua se concentram na Praça XV para o Bailão Pró Carnavalesco da Cidade. Os (des)organizadores afirmam: “a gente não quer promover bagunça, mas o excesso de normatização pode acabar com a espontaneidade dos blocos de carnaval do Rio de Janeiro. Queremos cair na folia com o povo no meio da rua, cantar hinos e marchinhas a plenos pulmões, criar nossos roteiros ao sabor do acaso e da vontade dos participantes, estimular o livre dançar e aproveitar a melhor época do ano na cidade do Rio”

Democraticamente, sinta-se à vontade para ler o Manifesto Momesco:

http://desligadosblocos.blogspot.com/2010/09/manifesto-momesco.html

Democraticamente, eu me sinto à vontade para ser contra. Vocês sabem, eu sou um sujeito antipático, rabugento, anti-social e odeio a zona que os blocos impõem como se todos na cidade tivessem que se submeter ao caos que o Carnaval traz. Os blocos de rua pleiteiam o seu livre direito de ir e vir, cerceando o mesmo direito daqueles que não estão a fim de se enturmar. Eu quero saber quando e onde será a folia para poder ir em direção oposta. Já que sou o incomodado, eu que me mude.

Sou a favor da máxima normatização dos blocos para que a sua festa seja ótima. Inclusive para os que não querem participar dela.

Sim, a praça é do povo. E eu sou tão povo quanto você, folião. Não quero bloquear o bloco, mas não quero que sua marchinha me bloqueie.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Legumes e verduras baratos

Quando eu tinha 18 anos, a gente não beijava 18 bocas numa mesma noite. A gente se esforçava pra beijar uma e se empenhava mais ainda para levar aquela uma pra cama. Com engenho, arte e alguma sorte, às vezes, rolava.

Quando eu tinha 18, o carnaval de rua no Rio de Janeiro estava derrubado. O Bola Preta, a Banda de Ipanema, o Simpatia e o Suvaco não arrastavam as multidões de hoje. Era a época dos bailes baixaria tipo Vermelho e Preto e Baile do Havaí e havia o carnaval nos clubes - Monte Líbano, Sírio Libanês, América, Municipal. Depois teve a fase dos bailes no Scala. A gente via as fotos da mulherada nas revistas Manchete e Fatos & Fotos e babava.

Quando eu tinha 18, a gente ia pular carnaval no Campestre, em Araruama, no Iúcas, em Teresópolis, e no Country, em Friburgo. Era onde a molecada bebia cerveja, cheirava aquela porcaria de lança-perfume e tentava conseguir o nobre objetivo descrito no primeiro parágrafo.

Deixo claro que não se trata de uma nostalgia chatíssima na linha “no meu tempo era melhor...”. Era bem ruim também. A diferença é que eu tinha 18 anos, explodia em hormônios e tinha quase nenhum senso crítico.

Talvez hoje eu não goste de carnaval justamente porque não sou solteiro e não tenho mais 18. Se ainda tivesse, talvez eu conseguisse entender porque o cara coloca um colar de flores tipo havaiano, pega uma lata de cerveja em uma das mãos, levanta o indicador da outra e sai saracoteando sob um sol de rachar, tomado de uma euforia súbita e inexplicável, enquanto cata 18 bocas para beijar e um muro para se aliviar.

No fim das contas, essa é uma variante musicalmente deteriorada do trinômio sexo, drogas e rock’n’roll, que só muda um pouco de geração para geração. No caso, é sexo, álcool e samba.

É fato que envelheci. Conforme a gente envelhece, vai caindo para a xepa da feira sexual. Mesmo assim, eu não queria voltar a ter 18 e estar em um bloco correndo atrás daquele nobre objetivo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Domingo de índio


Hoje, peguei a bike cedinho e pedalei rumo à praia. Logo, dei de cara com um bando de marmanjos vestidos de pantera cor de rosa. Como já estavam entornando latinhas de cerveja, em breve mijariam em mais postes do que o meu cachorro. Metros adiante, uma galerinha pintada de azul. Avatares e não Smurffs. Mas poderiam ser todos índios, considerando o ridículo da fantasia e a natureza do programa matutino sob um sol de rachar.


Estavam todos indo para o Suvaco do Cristo. Que, em função do calor, deveria estar encharcado do Seu suor sagrado e, portanto, bastante desagradável.

Falta uma semana para o carnaval no calendário, mas, na prática, ele já começou. Rio, Salvador, Olinda, Ouro Preto estão entre as cidades que ficam reféns da folia. Para circular, só no sentido anti-blocos (ou trios).

A praia estava perfeita, ainda vazia, com um mar gentil: calmo, limpo e gelado. Por volta das 11h, antes que a praia virasse o costumeiro inferno dos domingos de verão, montei na magrela e voltei para o seio do ar-condicionado.

No caminho, vi muitos fiéis saindo da igreja, a missa estava cheia. Bem, talvez haja coisas piores para se fazer num domingo de extremo calor.

Qual a sua escolha, a comunhão ou a festa pagã?

Considere votar nulo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

É Carnaval!!!!! UUUhhhhuuuuuu!!!!!!

"5 dias de folia não compensam os outros 360". Em muro no Humaitá, Rio. Foto: Leandro Wirz

Outra noite, fui ao aniversário de um grande amigo, praticamente um irmão caçula, numa boate moderninha. Eu e minha mulher fomos recebidos pela hostess, também amiga do aniversariante. Quando soube do motivo de nossa ida ao local, ela se transformou como se tivéssemos apertado um botão. Ficou eufórica, esfuziante, tresloucada, excitadíssima numa vibe exagerada e totalmente diferente da nossa, mais serena. Nos entreolhamos e ficamos parados com cara de paisagem diante da moça que, minutos depois, sossegou a periquita.

Uso esse exemplo extemporâneo para falar do carnaval.

Quando eu era jovem (o que não faz tanto tempo assim) e solteiro (o que faz muito tempo, já que venho emendando longos relacionamentos) eu gostava de carnaval. Naquela época, os hormônios à flor da pele mandavam em mim mais do que mandam hoje e os dias de folia tinham basicamente dois objetivos: ficar doidão, usando aditivos diversos, e beijar na boca até a língua ter cãibra.

Eram outros tempos e não precisava beijar dez, doze, dezenove parceiras numa noite, como a garotada busca fazer hoje, sem sequer saber o nome da dona da língua. Bastava beijar uma mulher por noite porque a meta era trocar amassos fogosos e, com algum talento e sorte, terminar fazendo sexo com aquele amor eterno de uma noite só.

Hoje em dia, os blocos superlotam as ruas e dão um nó no trânsito. Detesto. Não tenho mais vinte anos. Sou ruim da cabeça e doente do pé. Não gosto de samba e bom sujeito não sou.

O que sempre me intrigou no Carnaval carioca e suas variantes baiana ou pernambucana é a euforia despropositada, exagerada, desmedida.

Toca uma musiquinha qualquer, ruim na maioria das vezes, e as pessoas, do nada, começam a quicar e a gritar numa alegria infundada, extrema, sem motivo algum. Como se simplesmente virassem uma chave e agora fosse a hora de celebrar entusiasticamente qualquer coisa super importante da vida.

Vejam bem, não faço apologia da melancolia blasé, que, na pretensão de ser cool, revela, na verdade, afetação. E é igualmente irritante e incoerente. Mas eu nunca consegui – nem nos etílicos carnavais da minha juventude – transformar-me subitamente nesse hiper animado Gremlin às avessas.

Dito isso, meus caros leitores, divirtam-se na folia momesca. Viajo. A gente se fala nas cinzas.
Ashes to ashes. Dust to dust.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Coletivo carioca

O Rio de Janeiro cabe num ônibus. A princípio, pode parecer que isso não tem o menor cabimento. Mas eu explico.

Costumo ir à praia de bicicleta. Mas no último sábado, como tinha um almoço pós-praia e não teria onde guardar minha bike, encarei o 157, Central-Gávea.

De cara, peguei o ônibus errado. O que não tem graça nenhuma nem quando é de graça, ainda mais quando custa R$ 2,50. Enquanto sacolejava, espremido entre trocentos e cinquenta e três passageiros, à mercê da direção dolosa do motorista, percebi que o ar-condicionado não dava vazão, óbvio. Todos fechados ali, bufando no cangote alheio, criávamos um ambiente no mínimo insalubre. Eu deveria ter pego o 157 sem ar-condicionado, mas de janelas abertas. Nesse caso, o clássico slogan da empresa dedetizadora – “É um pouco mais caro, ah, mas é muito melhor”, não se aplica.

O ônibus estava cheio de estudantes do tradicional Colégio Santo Inácio, saindo da aula matutina de sábado, jovens dourados indo à praia e elas – Fatinha e Vanessa.

Se você tem um fiapo de curiosidade deve estar se perguntando quem são Fatinha e Vanessa. Mas antes, eu preciso contar sobre a moradora da Lagoa.

Uma senhora sentada lá na frente do ônibus resolve descer em seu ponto. Lá vem ela, tentando ser tão gentil quanto é possível a uma pessoa que carrega três sacolas em um ônibus lotado. Esbarrando em todos, ela se desculpa: - “Gente, eu preciso descer, eu não posso mudar de casa”.

Fatinha e Vanessa tornaram meu calvário naquele busão suportável. Muito antes de chegar ao meu ponto, eu já estava completamente entretido pela conversa delas e do amigo Adailton, cujo nome elas invariavelmente pronunciavam sem a consoante final.

Os traseiros de Fatinha e Vanessa, condensados em justíssimos shorts jeans, não fariam feio num baile funk e aposto que não fizeram no Terreirão do Samba, onde haviam passado a noite anterior bebendo cerveja até às 6h. Por conta do exagero etílico da madrugada, Fatinha garantia que naquele sábado só “beberia muito líquido”.

No ônibus elas estavam aflitas para encontrar o “broco” carnavalesco que, conforme prometido pelo Adailto, desfilaria ali na Lagoa. Traziam uns tabuleiros de madeira e mochilas cheias, de forma que deduzi que venderiam alguma coisa aos foliões da Zona Sul.

O que me fez mesmo debruçar de modo invasivo sobre as duas e sua conversa foi a história da amiga Cristiane.

Cristiane havia comido, em um churrasco na laje oferecido por uma rival amorosa, um espetinho de coração. Foi tiro e queda. No dia seguinte, amanheceu paralisada das pernas. O namorado, pivô da desavença, chegou a sentir um aperto no peito e alertar: não coma isso. Mas os olhos de Cristiane foram maiores do que a barriga e ela acreditara nas boas intenções da outra.

Vanessa vaticinou: “Foi macumba do mal.” E Fatinha, malandra escolada, completou: “É por isso que eu não como nada que me oferecem. Eu, hem, sei lá!”

Levaram Cristiane a um centro espírita na tentativa de reverter aquele trabalho terrível. Mas não adiantou. Ela continuou a definhar e agora já não fala coisa com coisa. Fatinha nem gosta mais de visitá-la. Ver essas coisas lhe parte o coração.

Àquela altura, eu viajava, não naquele ônibus, mas na idéia de que o Rio, metonimicamente, estava todo ali: o carnaval de rua, o samba no Terreirão, a cerveja, as ambulantes, os alunos da escola de bacanas, os moradores da Zona Sul, as louras e as negras, a religiosidade, a praia, o calor, a pouca roupa, a descontração. Faltou o futebol, mas esse, literalmente, não anda bem das pernas.

Enfim, Fatinha e Vanessa avistaram, pela janela do coletivo, os playboys, as gatinhas, os vendedores de cerveja. E levantaram, nada discretas, gritando ao motorista:
- “Ô coisinha, pára aí pra mim descer, olha o broco!!”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Tá aí

Corroborando o que escrevi no texto anterior ("Top Sacanagem"), qualquer musiquinha tupiniquim barra as gringas nesse quesito.

E como o Carnaval se aproxima, taí o link para o "mantra" que será entoado em cada grotão desse país, onde houver a mais pálida manifestação de carnaval, com uns pinguços correndo atrás de moçoilas frenéticas.

http://kibeloco.com.br/kibeloco/2009/01/12/cade-xoxo/

Trata-se de "Cadê Xoxó?", de Marcelo Quintanilha, lançamento da Kibe Loco Records.

Xoxó tá aí para destronar "Cada um no seu quadrado" e "Pó pára com o pó", outras duas pérolas do cancioneiro popular.

Sacanagens à parte, o clipe "all type" é bem realizado, a partir de uma idéia muito simples, mas que funciona.

É para fazer rir, claro. Mas vale conferir essa marchinha carnavalesca. Xoxó é uma delícia.