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sábado, 29 de maio de 2010

Os busão


Recentemente, a Fifa divulgou as frases que estarão nos ônibus das 32 seleções que disputarão a Copa da África do Sul. Nem todas são boas, mas é interessante observar que algumas delas, escolhidas pela internet, combinam perfeitamente com os respectivos países e, de certa forma, os traduzem.


Alemanha: “No caminho de ganhar a Copa!” Direta e reta, objetiva, como o país e seu futebol.

Argentina: “Última parada, a glória!”. Dramática como um tango. E presunçosa, bem, presunçosa como... um argentino.

Inglaterra: “Jogando com orgulho e glória”. Nada mais britânico, né? Parecem os cavaleiros indo para uma batalha defender a coroa de sua majestade.

França: “Todos juntos por um novo sonho azul”. Essa tem a cara dos Três Mosqueteiros.

Grécia: “A Grécia está em todos os lugares”. E não apenas nos 44 assentos do ônibus. Pretensiosa, mas é verdade. A Grécia é um dos pilares de todas as nações ocidentais. E a Grécia vive mesmo do passado. A crise atual por lá é que o diga. Aliás, os efeitos da crise na Grécia a mantém em todos os lugares ou, ao menos, em todas as Bolsas.

Nova Zelândia: “Chutando no estilo kiwi”. Confesso que não entendi. Eu só conhecia a “folha-seca” do Didi.

Suíça: “Vamos, Suíça!”. Neutra – pra não dizer sem emoção - como a Suíça. Mas corretíssima, como a Suíça, porque escrita nas quatro línguas oficiais do país.

Japão: “O espírito samurai nunca morre! Vitória para o Japão!” Ai, ainda essa história de samurai?!

Paraguai: “O leão guarani ruge na África do Sul”. Peraí. Leão guarani?! É a cara do Paraguai, até o leão é fake.

Várias outras são curiosas e reveladoras, como as de Espanha, EUA, África do Sul, Holanda, Itália, Austrália, Nigéria e México, mas não quero me estender demais por aqui. E ainda tenho que falar da frase do Brasil.

“Lotado! O Brasil inteiro está aqui dentro!” Engraçadinha, bem humorada. Patriota, ufanista – lembram do “90 milhões em ação”da Copa de 1970?. Redundante também. Se a frase está pintada no ônibus, basta o “aqui”. O “dentro” é dispensável.

Após o desembarque na África do Sul, a seleção foi transportada do aeroporto até o hotel-concentração por um discreto ônibus branco. Isso porque o ônibus oficial, esse pintado com a frase, chegou atrasado ao aeroporto. Isso não é a cara do Brasil?



ps.: No mais, tremenda babaquice a seleção brasileira ir beijar a mão do presidente antes de viajar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Coletivo carioca

O Rio de Janeiro cabe num ônibus. A princípio, pode parecer que isso não tem o menor cabimento. Mas eu explico.

Costumo ir à praia de bicicleta. Mas no último sábado, como tinha um almoço pós-praia e não teria onde guardar minha bike, encarei o 157, Central-Gávea.

De cara, peguei o ônibus errado. O que não tem graça nenhuma nem quando é de graça, ainda mais quando custa R$ 2,50. Enquanto sacolejava, espremido entre trocentos e cinquenta e três passageiros, à mercê da direção dolosa do motorista, percebi que o ar-condicionado não dava vazão, óbvio. Todos fechados ali, bufando no cangote alheio, criávamos um ambiente no mínimo insalubre. Eu deveria ter pego o 157 sem ar-condicionado, mas de janelas abertas. Nesse caso, o clássico slogan da empresa dedetizadora – “É um pouco mais caro, ah, mas é muito melhor”, não se aplica.

O ônibus estava cheio de estudantes do tradicional Colégio Santo Inácio, saindo da aula matutina de sábado, jovens dourados indo à praia e elas – Fatinha e Vanessa.

Se você tem um fiapo de curiosidade deve estar se perguntando quem são Fatinha e Vanessa. Mas antes, eu preciso contar sobre a moradora da Lagoa.

Uma senhora sentada lá na frente do ônibus resolve descer em seu ponto. Lá vem ela, tentando ser tão gentil quanto é possível a uma pessoa que carrega três sacolas em um ônibus lotado. Esbarrando em todos, ela se desculpa: - “Gente, eu preciso descer, eu não posso mudar de casa”.

Fatinha e Vanessa tornaram meu calvário naquele busão suportável. Muito antes de chegar ao meu ponto, eu já estava completamente entretido pela conversa delas e do amigo Adailton, cujo nome elas invariavelmente pronunciavam sem a consoante final.

Os traseiros de Fatinha e Vanessa, condensados em justíssimos shorts jeans, não fariam feio num baile funk e aposto que não fizeram no Terreirão do Samba, onde haviam passado a noite anterior bebendo cerveja até às 6h. Por conta do exagero etílico da madrugada, Fatinha garantia que naquele sábado só “beberia muito líquido”.

No ônibus elas estavam aflitas para encontrar o “broco” carnavalesco que, conforme prometido pelo Adailto, desfilaria ali na Lagoa. Traziam uns tabuleiros de madeira e mochilas cheias, de forma que deduzi que venderiam alguma coisa aos foliões da Zona Sul.

O que me fez mesmo debruçar de modo invasivo sobre as duas e sua conversa foi a história da amiga Cristiane.

Cristiane havia comido, em um churrasco na laje oferecido por uma rival amorosa, um espetinho de coração. Foi tiro e queda. No dia seguinte, amanheceu paralisada das pernas. O namorado, pivô da desavença, chegou a sentir um aperto no peito e alertar: não coma isso. Mas os olhos de Cristiane foram maiores do que a barriga e ela acreditara nas boas intenções da outra.

Vanessa vaticinou: “Foi macumba do mal.” E Fatinha, malandra escolada, completou: “É por isso que eu não como nada que me oferecem. Eu, hem, sei lá!”

Levaram Cristiane a um centro espírita na tentativa de reverter aquele trabalho terrível. Mas não adiantou. Ela continuou a definhar e agora já não fala coisa com coisa. Fatinha nem gosta mais de visitá-la. Ver essas coisas lhe parte o coração.

Àquela altura, eu viajava, não naquele ônibus, mas na idéia de que o Rio, metonimicamente, estava todo ali: o carnaval de rua, o samba no Terreirão, a cerveja, as ambulantes, os alunos da escola de bacanas, os moradores da Zona Sul, as louras e as negras, a religiosidade, a praia, o calor, a pouca roupa, a descontração. Faltou o futebol, mas esse, literalmente, não anda bem das pernas.

Enfim, Fatinha e Vanessa avistaram, pela janela do coletivo, os playboys, as gatinhas, os vendedores de cerveja. E levantaram, nada discretas, gritando ao motorista:
- “Ô coisinha, pára aí pra mim descer, olha o broco!!”