quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Boas palavras

Eu sou um apaixonado pelas palavras. Em minhas andanças urbanas, gosto de clicá-las em muros, placas, anúncios, cartazes. A seguir, algumas delas, que eu espero que te acompanhem em 2010.










Fotos: Leandro Wirz

Mantença

Foto: Fernanda Siqueira

Hoje é dia de retrospectiva e de esperança, essa palavra linda em forma e conteúdo. Planos, promessas, projetos. É dia de acreditar – ou de se iludir – de que as coisas vão mudar no próximo ano. Ao menos algumas coisas, especialmente as que dependem só de você, podem mesmo mudar.

Eu já passei réveillons desejando muitas mudanças. Mas agora eu ando, no que diz respeito ao meu pequeno universo, querendo manutenção. Eu quero manter o meu casamento, com amor e harmonia; manter o meu emprego, porque gosto do que faço, onde faço, com quem faço; manter a minha saúde, porque mesmo meus maus hábitos não conseguiram detoná-la; manter a minha família e os meus amigos por perto; manter a minha casa gostosa; manter este blog interessante e divertido.

Conjugo o verbo manter, no sentido de conservar, preservar, cuidar, zelar. Manter não significa estagnar, nem deixar de evoluir ou de ambicionar. Sempre é possível melhorar. Mas eu estou no caminho em que quero dar os próximos passos. Como a mulher desta foto inspiradora, que segue decidida ao encontro do mar.

Manter é minha primeira e mais importante conquista.




ps.: um mar de coisas boas para você em 2010. Volte sempre.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Bon vivant

Em seu cinquentenário, eu trocava novidades, ideias e filosofia barata com um grande amigo, fotógrafo, bom de prosa e de copo, na melhor tradição mineira.

Como me conhece há tempos, ele sabe que não tenho a intenção de ser pai nesta vida. Não vem ao caso agora se é por opção, preguiça, egoísmo, imaturidade, desinteresse, falta de saco para crianças ou qualquer outra razão. (Difícil mesmo é encontrar uma razão para ter filhos. Razão e não emoção).

Lá pelas tantas, meu amigo, pai de duas adolescentes, disse: “-É, camarada, não tenha filhos mesmo, não. Isso não combina com você. Você é muito livre e é um bon vivant.”

Bon vivant?! Eu?! Só porque admiro o modus vivendi do finado Jorginho Guinle ou de Hugh Heffner? Por que tenho pendores e despudores hedonistas?

Ah, meu caro, quem me dera ter todo esse savoir-vivre. Quem me dera saber fazer poesia dos dias e atravessar a vida com a elegância dos verdadeiros sábios.

Este ano acaba e logo outro começa. E ainda tenho tanto por aprender. Preciso aprender a dar importância ao que realmente importa, descartar as culpas improdutivas, ser mais paciente, principalmente com quem fala na velocidade de um monge budista contemplando as montanhas do Tibete.

Também preciso aprender a ser mais humilde. Mas aí, toda vez que eu tento, me faltam argumentos.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Flash vintage

Flash Mobs são aglomerações instantâneas de pessoas em um local público para realizar determinada ação inusitada previamente combinada. Tudo começa e se dissipa velozmente.

No último dia 23, a TAP, companhia aérea portuguesa e a ANA, órgão regulador da aviação naquele país, fizeram uma flash mob no aeroporto de Lisboa para desejar boas festas aos passageiros de uma maneira mais divertida e original, ao som de “Dancing Queen”, “Rock around the clock”, “Mas que nada” e “All I want for Christmas you.”

Fosse por aqui, ia ser ao som de samba, que é tudo como acaba. Mas aí não ia acabar. Logo teria alguém vendendo uma cervejinha no isopor, uns cambistas vendendo ingressos falsos para assistir à performance de uma suposta área vip com open bar, uns guardadores de carrinhos de bagagens e por aí vai, posto que somos um povo criativo e original na tal da economia informal.

Enfim, esqueça o Brasil e vá para o aeroporto lisboeta, ao menos por sete minutinhos, tempo de duração do vídeo.

Fazendo contraste com esse jeito moderninho, registro minha satisfação por ter recebido de uma amiga que vive em Cheshire, cidade bem pequena em Connecticut - EUA, um cartão de Natal impresso, entregue pelos Correios à moda antiga. Não que ela seja pré-histórica ou viva desconectada. Foi apenas a sua escolha, cheia de charme vintage.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Outra pessoa



Teve cueca, teve meia, e do indefectível triunvirato de presentes de tia, faltou a gravata, que nestes dias de calor converte-se em instrumento de tortura.

Já não teve CD, posto que é objeto que caminha célere rumo a obsolescência. Mas teve livro. E não poderia ser melhor. Lancei-me a ele logo na madrugada do Natal.

Uma antologia de Fernando Pessoa, publicada pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva, em 2006. “Um livro para apaixonados”, nas palavras do escritor e organizador Luiz Ruffato.

A caprichada antologia abre com meu poema favorito – se é que possível ter apenas um favorito quando falamos de Pessoa – “Tabacaria”:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

E por aí vai, na sucessão de lirismo, sabedoria, ironia, sensibilidade e porrada.

O título da antologia é “Quando fui outro”. Eu sou outro. Eu sempre sou outro. Especialmente quando leio Fernando Pessoa.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Have yourself...

No Natal, você pode ouvir pela enésima vez aquelas músicas que se tornaram clássicos natalinos. Você pode encontrar facilmente centenas de versões de "Silent night" ("Noite feliz"), por exemplo. E algumas delas ainda serão pungentes, emocionantes. Você também pode encontrar outras tantas versões de "Have Yourself a Merry Little Christmas", gravada pela primeira vez em 1944, por Judy Garland e maravilhosa tanto na voz de Frank Sinatra, como na de Chrissie Hynde, do The Pretenders.

Faça você mesmo um Natal melhor para si. A partir de pequenas coisas. Comece clicando no link a seguir, para assistir a uma cena bem legal de um filme chamado "Love, actually" ("Simplesmente amor"). É uma comédia romântica inglesa, de 2003, escrita e dirigida por Richard Curtis, com elenco estelar.

Ela está em casa, assistindo TV com o namorado, quando o amigo toca a campainha, põe "Silent Night" para tocar e...

"Enough. Enough now."

http://www.youtube.com/watch?v=5m2T5yfgsZ0&feature=related

Exageros à parte


Como não tenho religião, o Natal é apenas um feriado no verão, quando trocamos presentes, comemos peru e rabanada, revisitamos parentes (esses estranhos íntimos...) e ficamos bêbados. Aliás, parece que o mundo inteiro fica bêbado. E fica como aqueles bêbados chatos que grudam em você com bafo de pinga e dizem: - “Te considero a pampa. Te amo muito. Te adoro pra cara....” e outras bobagens deflagradas pelo álcool, antes de vomitarem panetone no seu colo.

Os bêbados do mundo também enviam cartões virtuais e apresentações em power point com imagens e trilha sonora cafonérrimas, e fazem ligações fora de hora para desejar boas festas aos berros. – “Obrigado, pra você e sua mãe também”, respondo.

A galera surta no Natal. Pira geral. Os bêbados do mundo pedem “desculpa aí por qualquer coisa” supostamente feita ao longo do ano e insinuam um encontro futuro, com direito a irritante erro de português: - “Vamos marcar de se ver”. Nunca, meu caro, nunca.

Recebi uma mensagem de uma simpática corretora de imóveis com a qual não troquei ao longo do ano mais do que meia dúzia de e-mails, todos estritamente profissionais. Ao final de uma sequência de clichês, ela escreveu: “Conte sempre comigo. Abraços de uma pessoa que te gosta muito.”

Você pode dizer que a moça só estava tentando ser agradável e eu sou um velho rabugento que merecia passar o Natal sozinho. É verdade. Mas eu nunca a vi pessoalmente, acho que nem falamos por telefone. Também não fechei negócio com ela, o que talvez pudesse justificar tamanho apreço pela minha pessoa. Agora me diz se sou eu que estou exagerando?

Caixinha do blog



Dezembro é o mês das caixinhas: dos porteiros, do entregador de jornal, do carteiro, da moça do cafezinho e de todo mundo que resolve te lembrar que eles existem e fazem alguma coisa por você durante o ano.

Eu não sei se faço alguma coisa útil por você, mas como lavo o rosto todas as manhãs com o seu sorriso e o meu pós-barba é óleo de peroba, eu estou aqui para pedir também. Veja bem, eu poderia estar roubando, eu poderia estar comendo panetone, eu poderia estar no governo. Mas tô aqui, humildemente, pedindo para você cair na minha rede.

Para ilustrar este texto e pedir este presente, coloquei até uma foto desse cachorro com gorro de Papai Noel para te lembrar da generosidade do espírito natalino. Usar cachorro e criança em propaganda é golpe baixo, mas eu tenho que apelar. Afinal, não sou nenhum modelo de bom comportamento e, por isso, é bem provável que eu não receba a visita de um gorducho barbudo vestido de vermelho que vai chegar aqui em casa em um trenó puxado por renas e vai entrar pela chaminé.

Caixinha de blogueiro são os comentários deixados pelos navegantes – por isso, não se acanhem! – e são os leitores fiéis que se cadastram como seguidores. É simples, rápido e grátis. Vai lá na coluna da direita, onde estão a palavra “cardume”, um grafite de peixes e as fotos de uma galera que já teve coragem de assumir que é leitora assídua deste mar de coisa. Clica em “Seguir” e se identifica. Só isso.

Neste Natal, faça um blogueiro feliz. Eu sei que, no fundo, você tem um bom coração. Capaz até de perdoar este texto descaradamente piegas.

Será?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um dia com ela




Eu e minha mulher fazemos questão (ainda, e espero que sempre) de comemorarmos a data em que começamos a namorar, a data em que, dez meses depois, deixei Brasília para morarmos juntos e a data em que, mais catorze meses, oficializamos o casamento e ela passou a me dar a honra e a alegria de usar o meu sobrenome.

Recentemente, fizemos mais um aniversário de casamento e ela havia me dito que queria passar um dia bem romântico.

Começamos com um café da manhã quase a uma da tarde numa delicatessen do Leblon. Ótimo. Mas daí em diante, foi uma sucessão de programas de índio.

Sob um sol de rachar, procuramos um produto específico numa feira hippie, encaramos um shopping lotado às vésperas do Natal, comemos pizza estilão “de padaria” na praça de alimentação e fizemos compras no supermercado.

Como se vê, uma programação completamente sem glamour.

Mas quer saber? Curtimos juntos cada momento do dia. Desta vez, não sentimos falta do jantar a luz de velas em um restaurante charmoso. Claro que é fundamental e delicioso fugir da rotina e viver momentos especiais. Mas neste ano não rolou.

Ainda assim, pela companhia, o dia foi gostoso e divertido.

Esta crônica é uma declaração de amor e uma maneira de celebrar a delícia da convivência. A rotina destrói um casamento. A ausência de rotina destrói mais ainda.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Abraços partidos



Allen e Almodóvar podem não ser os melhores cineastas do mundo (até porque essa história de “melhor do mundo” em qualquer área é uma bobagem), mas são os que hoje me fazem ir ao cinema assim que lançam seus filmes. Não sou um super cinéfilo. Apenas gosto de boas histórias e da maneira como elas são contadas.

“Los Abrazos Rotos” (“Abraços Partidos”, na tradução brasileira), o novo do espanhol Pedro Almodóvar, traz aquela latinidade toda: amor, paixão, desejo, sofrimento, sofreguidão, drama, tragédia, comédia, poesia, traição, culpa, segredos, sexo (logo na primeira cena), sacrifício, superação, fatalidade, família. Tudo junto e misturado.

Tudo com a dose certa do exagero, se é que isso é possível. Tudo intenso, vibrante, colorido. Mesmo com o roteiro previsível, é uma delícia acompanhar o desenrolar do novelão protagonizado pelo escritor Mateo Blanco, que adota o pseudônimo de Harry Caine. Por sinal, óbvio trocadilho com hurricaine (furacão) e sua força transformadora. O ator Lluís Homar, que vive na tela o escritor cego, guarda impressionante semelhança física com o finado Patrick Swayze. Seu cigarro entre dedos me deu uma nostalgia dos meus. Curioso observar que nas cenas de décadas anteriores os personagens fumam e nas cenas passadas no tempo presente da narrativa, eles já não fumam mais.

Penélope Cruz está em ótima forma no filme, em todos os sentidos. A fotografia é belíssima e a trilha sonora sublinha a carga dramática de algumas cenas deste filme que se vende só pela força e poesia do título. E que vale ser visto.