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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A presente

Eu tenho uma prima chamada Laura.


Era véspera de Natal, por volta de 11 horas da manhã. Sol em Brasília, escaldando a Asa Norte. Minha então mulher, duas de suas irmãs e o irmão ainda dormiam. Tinham vindo passar as festas conosco e a conversa estendera-se até tarde na noite anterior.

O porteiro toca o interfone e anuncia que Laura quer subir. Minha prima mora no Rio, seus pais em Brasília, mas como é aeromoça, nunca se sabe em que cidade ela está. Laura e eu somos próximos, e ela veio fazer uma visita surpresa, já que é Natal etc e tal.

Quando atendo a porta, não é Laura. É outra loura. Também bonita. Bem bonita.

- Leo? - ela pergunta.

Vocês sabem que eu sou Leandro. Como o finado da dupla. Mas tenho vários amigos que me chamam de Leo, talvez para contornar a eterna confusão que fazem entre nós e os leonardos.

- Bem, na verdade, eu sou Leandro. Mas posso ser Leo. Muita gente me chama assim.

- Eu sou Laura.

- E?

- Foi você que chamou a massagista?

Olhei bem para o corpo dela, marcado pela roupa justa, e quase voltei a acreditar em Papai Noel. Mas lembrei de todos os que estavam dormindo em casa.

Gentilmente, esclareci que deveria ter havido alguma confusão, o porteiro deveria ter me confundido com outro felizardo, digo, morador, e assim, lamentavelmente, eu me via obrigado a declinar do presente, da presente, sei lá, àquela altura eu já estava em dúvida até sobre qual é o meu nome.

Laura sorriu simpática e desculpou-se, ligeiramente envergonhada pelo engano. Uma vergonha charmosa, que só as putas são capazes de sentir.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Exageros à parte


Como não tenho religião, o Natal é apenas um feriado no verão, quando trocamos presentes, comemos peru e rabanada, revisitamos parentes (esses estranhos íntimos...) e ficamos bêbados. Aliás, parece que o mundo inteiro fica bêbado. E fica como aqueles bêbados chatos que grudam em você com bafo de pinga e dizem: - “Te considero a pampa. Te amo muito. Te adoro pra cara....” e outras bobagens deflagradas pelo álcool, antes de vomitarem panetone no seu colo.

Os bêbados do mundo também enviam cartões virtuais e apresentações em power point com imagens e trilha sonora cafonérrimas, e fazem ligações fora de hora para desejar boas festas aos berros. – “Obrigado, pra você e sua mãe também”, respondo.

A galera surta no Natal. Pira geral. Os bêbados do mundo pedem “desculpa aí por qualquer coisa” supostamente feita ao longo do ano e insinuam um encontro futuro, com direito a irritante erro de português: - “Vamos marcar de se ver”. Nunca, meu caro, nunca.

Recebi uma mensagem de uma simpática corretora de imóveis com a qual não troquei ao longo do ano mais do que meia dúzia de e-mails, todos estritamente profissionais. Ao final de uma sequência de clichês, ela escreveu: “Conte sempre comigo. Abraços de uma pessoa que te gosta muito.”

Você pode dizer que a moça só estava tentando ser agradável e eu sou um velho rabugento que merecia passar o Natal sozinho. É verdade. Mas eu nunca a vi pessoalmente, acho que nem falamos por telefone. Também não fechei negócio com ela, o que talvez pudesse justificar tamanho apreço pela minha pessoa. Agora me diz se sou eu que estou exagerando?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Então é Natal


Não vou alugar vcs com cantilenas anti-consumistas e clamores pelo verdadeiro espírito do Natal perdido em algum lugar do passado. Sua caixa de e-mails vai ficar entupida de apresentações em power point com musiquinhas ridículas te lembrando que vc é um desnaturado materialista. E que há mais de dois mil anos, um homem morreu para te salvar etc etc etc. Longe de mim ser anti-Cristo, Jesus foi um cara incrível que mudou a história da humanidade, mas essa catequese é sacal.

Pois bem, chega essa época de final de ano e junto com o espírito arrebatador de confraternização, vem também o desejo por aquelas orgias gastronômicas e a motivação para as compras desenfreadas.

É também um período de pragas. A primeira, claro, é o verão em si. Com um calor literalmente infernal nos trópicos a gente se aglomera para comprar lembrancinhas (o termo é repugnante) para todo mundo. Dá-lhe lojinha de R$ 1,99, produtos piratas e trocentas porcariadas nas áreas de comércio popular como a Saara, no Centro do Rio, ou a Feirinha do Paraguai, em Brasília.

O sol rachando a moleira do caboclo e a gente fica vendo em todos os lugares aquela propaganda toda de Bom Velhinho, neve branquinha, pinheiros, renas, trenó, vinho, nozes e o cara@#$%! a quatro.

Daí a gente se refugia num shopping center, porque a modernidade é o inferno com ar refrigerado. Um caos para estacionar. Congestionamento na garagem, todo mundo respirando monóxido de carbono e buzinando. Um esbarra daqui, esbarra dali em corredores, escadas rolantes e lojas lotadas como se fosse final de campeonato no Maraca.

Aí chegamos aos vendedores, esses jovens de interesseira gentileza que conseguem um emprego temporário nessa época do ano, quando sua chatice fica ainda mais aguçada.

Estou olhando a vitrina e sai a vendedora para perguntar se desejo alguma coisa. Não respondo e nem entro. Passo à loja seguinte.

Entro na loja, dois curtos passos apenas, e a vendedora vem perguntar, com o sorriso congelado:
- Quer alguma ajuda?
A resposta, advinhe, é a de sempre:
- Não, estou só olhando.
Daí, ela insiste:
- Procurando alguma coisa em especial?
- Não, só dando uma geral.
- É para vc mesmo ou é presente?
Já nem respondo mais.
- Como vc se chama?
- Leandro (com vontade de dizer “Porra, me deixa em paz!”).
- Se precisar de alguma coisa, meu nome é fulana, tá? É só me chamar.
- Tá. Obrigado (num esforço final de educação)

Passa um tempinho e lá vem ela de novo:
- E aí, gostou de alguma coisa? Se quiser, eu pego lá pra vc experimentar. Qual é o seu número?

Dá vontade de responder:
-“Porra, se eu quisesse alguma coisa, eu já teria te pedido. E claro que vc pegaria para eu experimentar. Afinal, vc é a vendedora, esta á a sua função, certo? Vc quer que eu olhe pouco, experimente rápido e compre logo para vc poder ir atender a outro cliente e aumentar sua produtividade e sua comissão. É justo e legítimo. Mas não me enche o saco. Eu não preciso de ninguém me seguindo pela loja, nem de babá. Me deixe olhar quietinho, se eu quiser alguma coisa, eu juro que te chamo.

Então, eu prefiro não dizer isso tudo. É melhor virar as costas em silêncio e ir embora. Aí, ela manda a infame:

- Não gostou de nada?

As respostas contidas na garganta podem ser:
- Não, não gostei de porra nenhuma, essa loja é uma merda e vc é chata pra c....
Ou
- Gostei de uma porrada de coisas, mas essa porra dessa loja é cara pra cacete, mete a mão, rouba muito...

Mas eu sou um lorde.

Outra mania chata é o amigo oculto. Se vc não participa é visto como sovina ou anti-social. Se participa, vai ter que comprar lembrancinha (aaargh!) para quem mal conhece e ganhar uma bobagem qualquer que nem merece o trabalho de vc ir trocar. Ainda mais com os shoppings lotados. Mais grave ainda é quando resolvem fazer a entrega dos presentes com alguma brincadeira do tipo “dê pistas para o grupo adivinhar quem vc tirou”.

E tem as festas corporativas! Lembre-se que festa da empresa é ambiente de trabalho, mesmo que finjam que não. Então, não encha a cara, não dance I will survive como se o mundo fosse acabar amanhã e vc quisesse sair do armário. E vc, tchutchuca, não desça rebolando até o chão, ok? E, a não ser que vc queira ser vista como a presa mais fácil para o abate, maneire os decotes e o comprimento das saias, certo? E, básico, vc, pegador, não azare todas. Melhor ainda, não azare ninguém. No dia seguinte, todo mundo vai comentar se vc pegou a fulana ou se vc levou um sonoro não. As duas opções são péssimas.

Na reunião da família, rola amigo oculto também. Ou então o discurso do “é só uma lembrancinha para cada um”, porque os tempos estão duros. Daí vc ganha cueca, meia, chaveiro, caneta, camisa cafona.

Ainda na seara familiar, rola o dilema para saber na casa de quem será a ceia. Os seus pais vão ficar chateados se for na casa dos seus sogros e vice-versa. Normalmente, ganham as mulheres. A tradição indica que a ceia fica sendo na casa dos pais da namorada/esposa.

Outro round é entre os filhos. Ou melhor, entre noras. Que entram em competição velada para ver quem prepara o prato mais gostoso e agrada mais a sogra. O tender de uma versus o chester da outra. O arroz versus a farofa. O lombo contra a rabanada. O salpicão versus a maionese. E as sobremesas, então....

No fim, depois de muita sidra, reina a paz. E todo mundo tem que demonstrar que gosta de todo mundo e perdoou as sacanagens e mágoas antigas. Assim são as famílias.

O Natal é uma época iluminada. Sim, por uma infinidade de luzinhas coloridas piscantes penduradas nas janelas e varandas, disputando o troféu decoração natalina mais cafona do ano.

O Natal é também uma época de generosidade. Distribuímos dinheiro: tem as “caixinhas”: dos porteiros, do balcão da padaria, do entregador do jornal, do cara que lava o teu carro, dos copeiros do escritório, da diarista, do blogueiro....

Na TV, tem especial do Roberto Carlos, e, na semana seguinte, retrospectiva do ano, show do “melhor” da música brasileira (que significa axé, pagode, sertanejo e funk), contagem regressiva. Uma novidade atrás da outra.

É também época de dar outra chance a dupla de canções do Lennon, “Give peace a chance” e “Happy Xmas”. Mas nada, nada, pode ser pior do que ter que ouvir exaustivamente a insuportável versão tupiniquim dessa última canção, na voz da Simone: “Então, é Natal!”

Que venha o Carnaval!