terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Solidão atualizada

Almocei na companhia do meu smartphone, que não me acompanhou no chopp. Joguei paciência (que em inglês, chama-se, mui apropriadamente, solitaire), fiz um selfie para postar como estava me divertindo na rede social, onde li notícias suas, tão melhores, de algum lugar distante.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Namoro novo

Dez e quarenta e cinco de uma terça comum. Ele a deixa no trabalho, provavelmente atrasada. Dentro do carro, beijam-se longamente. Ela desce e caminha em direção à entrada do prédio. Vira-se, talvez ele a tenha chamado. Volta até o carro e, na ponta dos pés, estica o corpo pra dentro, pela janela aberta do carona.  Outra vez, beijam-se demoradamente.

Ela então retoma o prumo e o rumo à portaria, levemente corada, sorridente e olhando para trás. Ele permanece parado até que ela suma completamente de seu campo de visão. Quem sabe torcendo para que ela decida jogar tudo para o alto e voltar para o carro porque o desejo não pode esperar.
Felizes são os namoros novos.


Fosse namoro antigo, ela não voltaria para beijá-lo uma vez mais. Fosse namoro antigo, o beijo de despedida no carro seria mero selinho. Fosse namoro antigo, ele não a levaria ao trabalho. Fosse namoro antigo, eles não perderiam a hora do serviço. Fosse namoro antigo, seria hora de acabar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Bons hábitos

Cioso de sua saúde, a cada hora de trabalho, desgrudava os olhos da tela do computador, levantava da cadeira, alongava o corpo, esticava as pernas e descia para fumar.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O silêncio de cada um

Mal se sentam à mesa ao lado e os dois jovens casais pedem à garçonete que fotografe seus sorrisos congelados em momento de euforia fabricada para consumo externo.  Click feito, foto postada nas redes sociais imediatamente.  Os quatro então se voltam para seus smartphones por vários minutos. O silêncio é interrompido quando uma das mulheres comenta que já tinha cinco curtidas na foto. E voltam a mergulhar no cristal líquido das telas. A interação é essa, virtual.

Não difere muito da nossa, real. Permanecemos calados observando o movimento ao redor e cortando o silêncio com pontuais comentários ácidos.

Ao mirar o espelho, eu faria um sobre a melancolia dos casais antigos.


Mas preferi calar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Homenagem

No dia que seria aniversário do finado marido, a viúva transou febrilmente com o atual.
Ciente da simbologia da data, ele não sentia o orgulho dos vencedores. Incomodava-se por ela lembrar-se do falecido, da forma que fosse, em qualquer ocasião.
Se era pra ser uma espécie de homenagem, era do tipo que não agradava plenamente a ninguém. Nem à própria viúva, que preferia mesmo um ménage com os dois, o morto e o vivo, se ainda o fosse.
No passado, sonhara secretamente com isso, mas sabia que se lhes houvesse proposto o sexo a três, hoje haveria um viúvo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Marmanjos melados

Eu estava na porta do clube esperando chegar o táxi que chamei.  Outro carro vem.  Cinco marmanjos tentam convencer o taxista a levar os cinco em uma corrida só, espremidos em um sedã pequeno.

Oferecem pagar a mais do que o taxímetro marcar. Oferecem o dobro. Oferecem pagar a multa se, por ventura, ela vier. O taxista permanece irredutível ante as propostas turbinadas pelo – neste caso, muito – vil metal.   Educadamente, explica que transportar cinco passageiros é ilegal e sobrecarrega o carro.

O taxista aciona pelo rádio outro carro da cooperativa, provavelmente esperançoso de que, com dois carros à disposição, o grupo aceitasse se dividir.

Os marmanjos, todos bem acima dos quarenta anos, insistem.  Um dos babacas senta-se no meio-fio, de birra infantilóide, e diz ao taxista que ou leva os cinco ou não leva nenhum.

Chega o outro táxi, igualmente um pequeno sedã, que, lamentavelmente aceita levar os cinco espremidos. O birrento faz cara de triunfo sobre o taxista que havia se recusado a transportá-los.

Eu, que ainda aguardava meu táxi, fiz questão de cumprimentar o primeiro taxista dizendo que ele agira corretamente. 


Mas não consegui entender a razão de cinco marmanjos suados, saindo da pelada de domingo no clube, fazerem questão de andarem grudados, melados e apertados, se roçando no carro. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Aéreas termais

No voo entre São Paulo e Goiânia, minha poltrona está cercada por uma dúzia de senhoras frenéticas com o passeio que farão à Caldas Novas e suas piscinas de águas termais.  Eu tentando ler poesia, os originais de um livro que uma amiga me enviara, pedindo minha modesta opinião, despida  de qualquer autoridade de expert.

A senhora ao meu lado estica o olhar sobre o que estou lendo. Simpática, tenta puxar conversa. Correspondo dentro do estreito limite da boa educação apenas.  Ela pergunta se fui eu que escrevi, se vai virar livro, se sou o editor e comenta que os poemas são “complexos”. Assumi como elogio, embora tenha me parecido que ela não entendeu bem o que havia lido de esguelha.

As senhoras da fila da frente matraqueiam sem parar. Falam mal da nora de uma delas, esporte favorito de muitas sogras por aí.  A senhora diz que não entende como o filho foi se casar com aquela moça porque ela isso, ela aquilo. Até que uma vaticina: “É o sexo. Ela deve ser boa nisso. Mulher tem que ser safada”.


Esqueço a poesia, contenho o riso e louvo a sabedoria da maturidade.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fofoca de vizinho

Segredo é algo que a gente conta para uma pessoa de cada vez. E fofoca talvez seja o segredo que saiu do armário e se descompromissou com a verdade.
Eu não conheço meus vizinhos. Nem quero.  Com vizinhos, nunca gostei de intimidade, nem de confusão.
Mas por essas vulgaridades das construções modernas, quando estou no banheiro escuto – mesmo sem querer - a conversa de outro apartamento. Não sei se ao lado, embaixo ou em cima.  Mas com alguma frequência, ouço um homem falar, quase sempre resmungando ou reclamando.  Pela voz, deve ter algo entre 55 e 60 anos.
Noite passada, meu vizinho rabugento se excedeu. Ele disse, presumo que para sua mulher:
“Você acha que eu vou comer tudo isso?! Não sou que nem você, você devia fazer dieta, está imensa de tanta porcaria que come.”
Concluí que a principal porcaria na vida da mulher dele é o seu marido, meu vizinho.  

sábado, 1 de junho de 2013

Nomadismo light

Bem, tirando a poeira do blog e retomando o fim do post anterior, eu me mudei de Copacabana.  Já faz uns meses. Sou animal inquieto. Por razões profissionais, casamentos, separações ou só porque deu vontade (este é o caso agora), fui para meu oitavo endereço em quinze anos, no Rio e em Brasília.

Eu gosto de desmontar e montar casas. Gosto dessa trabalheira insana.  Gosto dos ciclos. Dos fins e dos recomeços.

Está um pouco no DNA. Minha mãe morou em – não me lembro mais – cerca de uma dezena  endereços durante sua infância, já que meu avô era praticamente um nômade. Moraram em Zurich, Ubatuba, Friburgo, Teresópolis, Miguel Pereira e sei lá onde mais até fixarem residência no Rio de Janeiro.

Estou morando em uma rua tranquila, mais perto do trabalho e mais distante da praia, do caos e das pulgas de Copacabana.  

Mas tudo é por enquanto. 


domingo, 20 de janeiro de 2013

Já deu


Copacabana é mau agouro. Moro no bairro há pouco mais de dois anos e qualquer caminhada banal me lança ao futuro, esfregando no rosto a dura e cruel realidade que me espera. Que nos espera a todos, aliás, se não morrermos antes. É o bairro carioca com a maior população de idosos. E a velhice, vamos combinar, não tem nada de melhor idade. É uma merda, quando a saúde não se sustenta.

Quando saio com meu cachorro de manhã, invariavelmente me deparo com uma senhora cadeirante, macérrima, entrevada, gemendo ininterruptamente em voz alta, em companhia de sua enfermeira, na portaria do prédio ao lado. Uma existência precária, sem nenhum prazer aparente, só suplício.

No último ano, perdi minha mãe, que, aos 79, morreu em pé, subitamente e saudável. Felizmente, sem ter que encarar a decrepitude que ela tanto temia. E tenho acompanhado a decadência cada vez mais acentuada do meu padrasto que, aos 86, acumula limitações e dores.  

Nesta semana, o ator Walmor Chagas morreu. Polícia e família acreditam que tenha optado pelo suicídio aos 82 anos, já que vinha sofrendo com graduais privações em sua saúde e, consequentemente, em sua qualidade de vida. A mais recente, a catarata nos olhos que o impedia de ler, sua maior paixão.  O suicídio é a mais drástica e radical atitude frente à vida, para a qual não cabe julgamento e dispensa justificativas. Cada um sabe de si, onde o calo lhe aperta.  

Li notícia que,  em dezembro, dois gêmeos belgas, de 45 anos, surdos, decidiram pelo suicídio assistido (eutanásia), já que perderam também a visão, em função de doença degenerativa.  Surdos e cegos. Sem duas janelas de comunicação com o mundo, escolheram que era demais para suportarem. No outro extremo, está aí o físico Stephen Hawking se agarrando aos fiapos de vida que lhe restam, com bravura e tenacidade. E há muitos outros exemplos menos célebres, porém igualmente nobres.

Já escrevi antes que penso que a vida vale a pena, sim, desde que sob condições mínimas de proveito. Como disse certa vez outro grande ator, Chico Anysio, “eu não tenho medo da morte, tenho pena de morrer.” Mas eu tenho muito medo de certo tipo de (não) vida.

Acho que vou me mudar de Copacabana.  Não preciso de tanta visão de futuro.