domingo, 27 de setembro de 2009

Barraco chic

Dave Carroll, músico profissional, viajou de Halifax, Canadá, para o estado americano de Nebraska, com conexão em Chicago. No trajeto, feito pela United Airlines, seu violão foi quebrado.

Depois de muito reclamar em vão, Carroll compôs uma canção, “United Breaks Guitars”, fez um vídeo de orçamento barato e postou no You Tube.

Resultado: milhões de pessoas viram. Teve 30 mil avaliações cinco estrelas no You Tube e virou um hit na internet. A United então o procurou oferecendo uma grana para que ele retirasse o vídeo do ar. Ele postou um depoimento agradecendo a “generosidade” tardia da companhia aérea, recusando a compensação financeira e sugerindo que a United doasse o dinheiro para a caridade. E fez mais: outra música “United Breaks Guitars - song 2” e respectivo vídeo no You Tube.

Aproveitando a carona, a fabricante do violão, Taylor, também postou um vídeo oferecendo-lhe um novo e explicando a qualidade de seus produtos.

Duas lições podem ser tiradas do episódio: por uma sucessão de equívocos (de operação, de relacionamento com cliente, de marketing, de gestão), além de subestimar o poder da internet, a United arranhou sua imagem. Ou seja, quebrou muito mais do que um violão, cujo valor do ressarcimento seria infinitamente menor.

A segunda lição é que isso tudo é uma aula de barraco. Ao invés de rodar a baiana, descer do salto, gritar, espernear, xingar, fazer escândalo, pense melhor e seja mais criativo e estratégico. Faça um barraco chic quando tiver que reclamar os seus direitos. A Justiça e a internet estão a seu favor. E lembre-se que a vingança é um prato que se come frio.

Assista ao clipe, com legendas em português, de “United Breaks Guitars”. O som é legal e a letra, muito bem humorada. É música country e quem me conhece sabe que adoro o estilo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

No voto



O governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, afirmou nesta semana, referindo-se ao Ministro do Meioambiente (e dos coletes), Carlos Minc: “Se ele viesse aqui, eu ia correr atrás dele e estuprar em praça pública.” Isso após ter chamado o ministro de “veado”.

Minc respondeu bem: “Ele tem uma visão muito interessante sobre homossexualismo: eu é que sou veado e ele é quem quer me estuprar em praça pública?!”

Pois é, uma baixaria vergonhosa. Esse governador bronco com seus preconceitos, sua homofobia (que, por sinal, é crime) e a concepção equivocada e arcaica, contida na sua declaração destemperada, de que ativo não é gay, só quem é passivo é gay. Acorda!

Enquanto isso, no mundo civilizado, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, e o de Berlim, Klaus Wowereit são gays assumidos. Assim foram eleitos democraticamente e sustentam altos índices de aprovação em seus mandatos.

Mas o nível dos políticos brasileiros - que já é péssimo - não tende a melhorar. Pelo menos, a julgar pelas figuras que se filiaram a partidos políticos recentemente visando candidaturas a deputado no ano que vem: Kleber Bambam (o ex-BBB), Simony (ex-cantora infantil), Rita Cadillac (ex-chacrete, pioneira de todas as mulheres-frutas), Romário (ex-craque), Edmundo (ex-jogador de futebol), e Acelino de Freitas, o Popó (ex-pugilista).

Mesmo considerando que suas intenções sejam as melhores, nenhum deles me parece muito preparado para exercer a legislatura. No entanto, graças à fama obtida em outras atividades, talvez consigam ser eleitos. E vão se juntar ao “extraordinário” elenco que já se encontra nas Câmaras estaduais, na Federal e no Senado.

Depende de nós. No voto.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mesquinharia coletiva



A nada simpática moça do caixa do estacionamento do shopping repete automaticamente diante de todo cliente que lhe entrega uma cédula: “Não tem menor, não?”.

Seu emprego é ruim. Oito horas diárias em um cubículo envidraçado, lidando com dinheiro sujo, e aturando o barulho dos carros na garagem.

Ela não disse bom dia.

O cliente lhe entregou uma nota de R$50 para pagar R$5. O caixa eletrônico do banco é programado para fornecer o menor número de cédulas para a quantia sacada.

Ele não disse bom dia.

Ele respondeu então que não tinha nota menor. Mas como sou alto, pude ver sobre seus ombros que na carteira havia outras notas.

A moça fez uma expressão de incredulidade. Fechou a cara e então deu o troco, literal e metaforicamente. Deu-lhe duas notas de R$20 e para os R$5 restantes devolveu tudo em moedas de R$0,50 e R$0,25.

Nem ele nem ela fizeram nada de ilegal. Ambos estavam dentro do seu direito. Ele de pagar como quisesse e ela de dar o troco como quisesse.

Mas os dois perderam boa oportunidade de, simplesmente, serem gentis. Ao invés disso, preferiram ficar emburrados um com o outro.

“Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só ficaram no muro tristeza e tinta fresca...” (Gentileza – Marisa Monte)

sábado, 19 de setembro de 2009

Simplesmente



Assisti no CCBB à “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, monólogo em que Beth Goulart interpreta a escritora, a partir de fragmentos de textos dela. Não foi a primeira vez. Em Brasília, 2005, assisti outro espetáculo com proposta similar, daquela vez protagonizado por Aracy Balabanian. A razão de ser dessas produções pode residir no fato de que, como escrito no programa da atual montagem, talvez seja a própria autora a personagem mais enigmática do universo de Clarice.

Tudo na peça é bem feito, azeitado. Beth Goulart tem o talento e o physique du rôle, os figurinos são lindos e funcionais, o cenário é clean e prático e a luz também atua para que o conjunto forme um belo espetáculo. Bem, o texto é de Clarice Lispector, então é ótimo. Com direito às muitas frases de efeito que frequentam sua excelente prosa.

Mas ainda assim, apesar de tudo ser tão perfeitinho, a peça é chata. Talvez porque falte ação, talvez porque eu simplesmente não estivesse no clima. Talvez porque esteja me tornando menos sensível. Talvez porque eu tenha aceitado a sugestão de Cazuza e já tenha pago a conta do analista para nunca mais ter que saber quem eu sou. O fato é que ando muito sem paciência para essas questões existencialistas. Quem sou? Por que faço? O que sinto? Por que escrevo? Escrevo o que sou? Sou autor ou personagem? Por que respiro? Ah, não, cansei. Quero tudo mais simples, simplesmente.

Já fui de Shakespeare, mas agora eu quero Shakesbeers. É, “Two beers or not two beers?”. É mais divertido que o tal do “to be”.

Um amigo, que também sentiu vergonha de admitir que não gostou da peça diante da patrulha intelectual, definiu-a assim: "É muito mulher. Ela fica lá andando de um lado para outro, falando um monte de coisa, se questionando o tempo todo...Enfim, ela é uma maluca" . Eu garanto que meu amigo não é nenhum bronco, muito pelo contrário. Seu comentário tem menos preconceito de gênero do que constatação sobre como muitas se comportam.

E eu gosto muito de ler os livros de Clarice, que fizeram parte da minha “descoberta do mundo”.

Poder de síntese

“Muito trabalho na semana, ainda bem que é domingo. Amanhã preciso demitir dois. A chuva não para. Estou pregado.”

Que livro é este?

Leia o resumo novamente, com mais atenção.

E agora, descobriu?

A Bíblia.

Em sua versão twitter.

Isso é que é poder de síntese. Praticamente um milagre, eu diria.

O nome do santo eu não sei, mas o colunista Alfredo N. diz, na revista VIP deste mês, que uma rede de cursinhos está usando esses resumos no twitter para ensinar literatura.

Não dá para aprender literatura desse jeito, mas a iniciativa é criativa e engenhosa.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Zé Maior



Eu não vejo novela. Juro. Não estou bancando o intelectual pedante, não. Mas sei que começou nesta semana a novela das nove da Globo, “Viver a vida”, de Manoel Carlos. E na trama, para variar, o José Mayer é o galã, o pegador oficial. De cara, ele já está escalado para pegar a bela Giovanna Antonelli e a maravilhosa Taís Araújo. E só poupa a Alinne Moraes, tenho certeza, porque é filha dele na novela.

Consultei o UOL Celebridades e eles prepararam uma listinha básica de quem ele já pegou em outros carnavais, digo, folhetins: Malu Mader, Deborah Secco, Helena Ranaldi, Vera Fisher, Carolina Kasting, Christiane Torloni, Ângela Vieira, Mel Lisboa, Letícia Spiller, Camila Pitanga, Danielle Winits, Giulia Gam, Cláudia Raia e – ufa! -Juliana Paes.

Bem, tem também a Regina Duarte, mas, pelo menos, não tem a Suzana Vieira. Ninguém tem um currículo imaculado, ainda mais sendo um currículo extenso assim. O cara passa o rodo geral!

Quanto mais envelhece (tem 59) mais garanhão fica. É o Richard Gere dos trópicos. Na boa, qual é o segredo do José Mayer? A voz grave, a cara marcada, o jeitão de cafa que tem pegada, o estilo tosco e másculo, os cabelos grisalhos?

Claro que eu estou com inveja. Eu queria viver a vida como o José Mayer. Mas isso, claro, só se eu fosse solteiro. Porque não troco a minha mulher nem por esse elenco todo.

Também ao UOL, o Zé declarou que está “muito confortável voltando ao velho personagem”. Claro, né? Ele ainda disse que mais uma vez “vai convergir para uma esquina, uma confluência onde vêm inúmeras mulheres".

O cara é tão fenomenal que, na madrugada de 16/09/2009, o publicitário Wagner Martins criou o Zé Mayer Facts (http://www.zemayerfacts.com.br) , nos moldes do que já existe com o Chuck Norris. A coisa rapidamente se alastrou pela internet. Confira e ria com alguns dos fatos sobre o Zé. O seu Zé.

Zé Mayer uma vez espirrou em um auditório lotado. Foram registrados 42 orgasmos.

15% das usuárias do twitter tiveram um orgasmo fulminante só por ler a tag #zemayerfacts

Zé Mayer não conta carneirinhos pra dormir. Ele conta helenas

Novela é igual a micareta pro Zé Mayer!

Não foi à toa que a revolução sexual aconteceu nos anos 60, quando Zé Mayer atingiu a puberdade.

Zé Mayer já fez uma mulher gozar com uma piscadela. E ela era cega.

Duas coisas contribuíram para a explosão demográfica humana: a revolução industrial e o nascimento do Zé Mayer.

Zé Mayer broxou uma única vez. Por respeito a sua mãe. Na hora do parto.

A Virgem Maria após conhecer o Zé Mayer passou a atender só por Maria.

Zé Mayer comeu o Mário atrás do armário.

Will Chamberlain disse ter dormido com mais de 20.000 mulheres na sua vida. Zé Mayer chama isso de uma "terça-feira monótona".

Se você digitar "ereção eterna" no Google, aparece "Você quis dizer: Zé Mayer".

O exame de DNA só dá certeza de 99,8%. Seria 100% se Zé Mayer não existisse.

Zé Mayer tira extrato no banco de esperma.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Saco!

Estou de péssimo humor. Estive no médico hoje e me foram impostas restrições alimentares e etílicas, além da expressa recomendação de fazer exercícios, os quais detesto com todas as forças.

Já não basta o sacrifício diário de resistir à vontade de fumar?! Como ficar sem meus venenos diários, se a felicidade é uma coleção de pequenos prazeres?

Meu corpo não é mosteiro, é parque de diversões.

Saco! A vida é uma renúncia.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Balaio de ghosts

Morreu ontem o simpático ator Patrick Swayze, aos 57, após quase dois anos de luta contra um câncer no pâncreas. Swayze alcançou a fama por filmes como “Dirty Dancing” , “Road House” e “Ghost”, aquele romântico e choroso em que contracena com Demi Moore.

Rosa Mouta, do blog O Reino da Alegria, logo sapecou que o ghost havia virado ghost de verdade.

A trilha sonora daquele filme era puxada por “Unchained Melody”, na interpretação do The Righteous Brothers. Hoje, por coincidência, o amigo C., de Brasília, me indicou a versão dessa música na voz de deus. Ou melhor, na voz de Elvis Presley numa gravação feita no último show dele em Las Vegas, em junho de 1976, cerca de um mês e meio antes dele (não) morrer.

A versão é de arrepiar. Está tudo lá: o vozeirão, a interpretação vigorosa, magistral, o charme do sorriso, o olhar meio moleque. E, claro, a cafonice do figurino, a pose de star, o delírio das fãs, a decadência, a gordura, os efeitos do consumo excessivo de remédios e drogas lícitas que o abateram aos 42 anos.

Se não tivesse morrido, o Rei do Rock, teria tido Michael Jackson, o Rei do Pop, como genro por uns tempos, num casamento pra lá de esquisito com Lisa-Marie Presley. Segundo ela, Jackson tinha medo de acabar como Elvis. E, em certa medida, seu receio se concretizou com a overdose de analgésicos que o matou há alguns meses.

Bem, eu juntei todos os ghosts aqui neste balaio e na verdade a minha versão favorita de “Unchained Melody” é a do U2, que mistura desejo e aflição com muita intensidade.

domingo, 13 de setembro de 2009

Beba antes de casar



Fiquei com vontade de ligar para três amigos, encher a cara e fazer merda.

O que me deixou assim foi o hilário “Se beber, não case!”(The hangover, no original). Não se intimide com o título traduzido. O filme não tem nada a ver com a Lei Seca e também passa longe das bobagens adolescentes que a gente costuma ver nas comédias americanas.

Quatro amigos partem para Las Vegas para a despedida de solteiro de um deles. Na manhã seguinte à farra, acordam todos com amnésia alcoólica, numa suíte de hotel com elementos inusitados que eu não conto aqui para não estragar a surpresa. O noivo sumiu. E eles passam o dia tentando lembrar e entender o que aconteceu na noite anterior e procurando o noivo. Cada pista revela um fato sobre as confusões que aprontaram e uma nova surpresa de uma lista quase infindável.

Além de provocar muitas risadas, o filme ainda tem uma trilha sonora excelente. Não deixa de ser um filme sobre amizade, especialmente sobre o jeito masculino de construir e manter amizades.

Eu sou casado de papel passado e não quero me separar e nem casar de novo. Mas que o filme dá vontade de fazer uma despedida de solteiro muito louca e divertida com os melhores amigos, isso dá. Minha mulher, que também riu muito com o filme, disse que nós, homens, nunca crescemos. Verdade, só nossos brinquedos é que se tornam mais caros.

Cansado de gostar



Costumo ir à praia pedalando e não me canso de admirar a beleza da Lagoa e da orla Arpoador-Ipanema-Leblon. Sempre penso: o Rio é bonito pra cacete!

Hoje, na volta da praia, uns idiotas haviam estacionado dois carros bloqueando a ciclovia no Jardim de Alah. Tive vontade de deixar seus carros arranhados à chave com a palavra “ciclovia” para que aprendessem a respeitar. Mas respirei, contei até dez, xinguei-os e segui adiante, desviando. Mas outros ciclistas não foram tão tolerantes e fizeram pequenos arranhões e amassos nos veículos estacionados em local proibido.

Ao chegar na Lagoa, encontro uma adolescente aos prantos, recém-assaltada, sendo consolada por uma senhora.

Mais adiante, já próximo ao Rebouças, passa um ônibus lotado, com alguns rapazes com o torso estendido para fora das janelas. Um deles diverte-se apontado o braço para os pedestres e imitando o som e o movimento de tiros. Outro, fica “apenas” xingando as pessoas nas ruas.

Ai, ai. Civilização e barbárie. O Rio já não é mais tão bonito.

E para mim não funcionam os versos da música popular, gravada pelo grupo Calcinha Preta, sucesso na trilha da última novela das nove: “Você não vale nada, mas eu gosto de você!”.

Cansa gostar de quem não vale.