quinta-feira, 11 de junho de 2009

Comentando comentários

Vez ou outra, vou a seção de comentários sobre notícias em jornais e revistas, para ter um termômetro de como as pessoas vêem determinados fatos e qual sua opinião. Claro que não há nenhum valor estatístico nisso, não é uma pesquisa com metodologia séria, é apenas um olhar.

Na maior parte das vezes, o que vejo me assusta. Outro dia, fui bisbilhotar quando vi que havia 494 comentários de leitores de um jornal para a notícia de que os primeiros 17 corpos foram resgatados do vôo 447 da Air France. Não li mais do que vinte comentários. Foi o bastante.

A maior parte deles elogiava a competência e a dedicação da Marinha e da Aeronáutica brasileiras nas buscas, a despeito das condições adversas e suposta limitação tecnológica. Até aí, tudo certo. As Forças Armadas têm realmente se empenhado e feito um ótimo trabalho.

Mas tinha um cara que vociferava que “deveriam prender o presidente desta Air France.” Por quê?! Vão prender os presidentes de todas companhias aéreas que perdem aviões? Na seqüência, ele dá “viva ao meu país, ao meu presidente e às forças armas em ajudar a limpar toda esta sujeira criada por uma cia francesa”.

Ele ainda se proclamava orgulhoso de ser brasileiro e escrevia que odeia quando menosprezam o seu país e seus dirigentes. Nossa, isso fede a fascismo e xenofobia. Que medo...

Uma mulher dizia que acredita em milagres e que espera que encontrem a caixa preta, “até porque o próprio Lula disse: encontramos petróleo em altas profundidades, por que não encontraríamos uma caixa preta que inclusive emite sons?” Este comentário prova que mesmo quando o presidente São Lula fala imensas bobagens, ainda assim, tem gente que acredita. Isso explica muito sobre o Brasil. No mais, alguém me esclarece o que são “altas profundidades”?

Outra moça, curiosa mórbida, perguntava “qual o estado dos corpos quando foram achados, como eles estavam?”

Finalmente, um sujeito fez seus comentários e encerrou dizendo que ia trabalhar e que desejava bom dia a todos. Devia pensar que estava num chat, numa sala de bate-papo.

Minutos depois, o sujeito solitário voltou só para desejar bom dia a todos de novo.

Parei de ler. Se ele continuasse, ia acabar estragando o meu dia...

domingo, 7 de junho de 2009

Orgia


Quando adolescente, lembro-me de ter um lido uma tira do Hagar, o Horrível. Perguntado por Eddie Sortudo porque ele carregava o apelido de O Horrível, Hagar responde que é porque ele gosta de calda de chocolate. Surpreso, Eddie questiona o que isso tem demais, e então Hagar esclarece: “Na pizza”.

Hoje, essa excentricidade gastronômica não choca ninguém. As esquisitices que proliferam nos rodízios de pizza são prova disso. Noite dessas, encarei com meu padrasto um rodízio. Apesar de seus 82 anos, meu padrasto só gosta de comer tudo aquilo que o médico não recomendaria. Para ele, tem que ser salgado, pesado e gorduroso. Quanto mais trash melhor.

Eu ia bem, fiel às clássicas calabresa, portuguesa, marguerita até que lá pelo quarto ou nono chopp, não me lembro bem, comecei a trilhar o caminho do experimentalismo.

Meu padrasto já há muito havia caído em cima da pizza com camarão, com atum, com sardinha, com batata frita, com ovo de codorna, quando veio então a pizza de churrasco!

Sim, a tal pizza de churrasco consiste de uns pedaços de carne com molho vinagrete sobre a pizza. Eu comi. E devo confessar que mais de um pedaço. Santo Deus, eu gostei!!!

Não satisfeito com a heresia, ataquei as doces. Não só as deliciosas de banana com canela ou de morango com calda de chocolate (dica do Hagar), mas uma pizza com mousse de abacaxi!!!

Estou passando mal até hoje.

E pela primeira vez questionei a veracidade da frase: “Pizza é como sexo. Mesmo quando é ruim, é bom”.

Vai trabalhar, flanelinha!



Lançamento da t-shirteria Q-Vizu. estampa a frase "Vai trabalhar, flanelinha!" Em um primeiro momento, a idéia parece arrebatadora e a vontade é aderir de imediato, após tantos anos sendo abordado pelos flanelinhas.

A proprietária da grife disse que a camiseta fez sucesso em Sampa e agora chega às lojas do Rio, cuja população também sofre com o assédio (pra dizer o mínimo) dos flanelinhas, esses simpáticos que praticamente extorquem seu dinheiro para que vc possa estacionar o seu carro em um local público e livre.

Mas tem uma coisa aí que me incomoda, especialmente na frase que vem embaixo em tamanho menor: "Até tenho dinheiro, mas prefiro gastar em cerveja". É uma frase agressiva, que despreza o outro, torna-o inferior. Ainda que, muitas vezes, seja verdadeira. Talvez o incômodo resida justamente no fato da camiseta desnudar um pensamento comum.

Não, eu não defendo os flanelinhas. Preferia que eles não existissem. Acho ingenuidade demais o papo de que "coitado, o sujeito está lá por falta de opção, por não encontrar emprego, por ter família pra sustentar, culpa do neoliberalismo etc etc etc." Menos, né? Muitas e muitas vezes, está ali bancando o dono da rua para faturar uma grana fácil. É verdade que a maior parte dos desempregados está nessa condição por falta de opção, mas também há vagabundos que não “querem nada com a hora do Brasil”.

Quem determina onde se pode ou não estacionar são as placas de é permitido ou não é permitido. São as leis do trânsito. A civilidade. Ninguém pode se auto-proclamar dono do espaço, dono da praça, da rua e cobrar por estacionar (desde que, repito, o estacionamento no local seja permitido).

Pior, ninguém pode extorquir dinheiro para pretensamente garantir a segurança do carro. Já fui cercado literalmente em alguns locais, por pessoas sem nenhuma autoridade ou legitimidade para tal, que exigiram R$5, R$10, R$15 para que eu pudesse parar o carro naquela área da qual alguém simplesmente decidiu apropriar-se.

Muitas vezes quando a gente volta o “guardador” não está mais lá. Embora tenha cobrado a grana na chegada. Sem falar das incontáveis vezes em que estacionei e quando estava indo embora apareceu do nada, correndo, um sujeito para cobrar uns trocados.

O sindicato da categoria que me perdoe, mas os guardadores autônomos são uma evolução legalizada dos flanelinhas. São uma tentativa de tornar licito algo que em essência começou como atividade ilegal. Um sujeito cobrar para não roubar ou para fingir que não deixa o seu carro ser roubado. Com o tempo, a atividade prosperou e se tornou uma indústria lucrativa. Para todos, exceto, claro, para o motorista pagante. Daí, o governo loteou e licitou áreas que poderiam ser exploradas, regulamentou a atividade, criaram-se empresas e máfias etc etc

E muitas vezes, os guardadores autônomos também agem de maneira imprópria, alegando estar sem o tíquete para colocar no pára-brisa, simplesmente embolsam os regulamentares R$2, sem registrar o estacionamento e tchau.

Ainda assim, apesar do absurdo e do abuso dos flanelinhas, a camiseta me parece agressiva e preconceituosa como, mesmo sem admitir, nós burgueses classe média muitas vezes somos.

ps.: uma boa trilha sonora para este texto é “Até quando esperar?”, da Plebe Rude.

sábado, 6 de junho de 2009

Injustiça divina

Um amigo me disse: "O que me espanta em Deus é que não cai um avião lotado com 200 deputados ou senadores a bordo."

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Eu precisava saber



Andei vendo pela cidade uns outdoors com a frase “Síndrome de Burnout,você precisa saber!”. Na seqüência, indicava o site saudedoprofessor.com.br e a assinatura do sindicato da categoria.

O dicionário Michaelis traz três definições possíveis para burnout, a saber: destruição total pelo fogo; cauterização; e defeito em circuito elétrico por excesso de calor.

Na minha cabeça, a tradução da síndrome era algo como síndrome de estresse total ou do surto. Diante da minha santa ignorância e da pressão intimidatória do outdoor, eu, que já fui professor, já estava ficando pilhado no maior estresse e precisava desesperadamente saber:

- Que porra é essa de Síndrome de Burnout?

Vai que tive ou tenho a tal? Vai que é contagiosa? Então fui ao site indicado e meus problemas acabaram:

“A síndrome de Burnout se caracteriza pelo estresse crônico vivenciado por profissionais que lidam de forma intensa e constante com as dificuldades e problemas alheios, nas diversas situações de atendimento.

A síndrome se efetiva e se estabelece no estágio mais avançado do estresse, sendo notada primeiramente pelos colegas de trabalho, depois pelas pessoas atendidas pelo profissional e, em seu estágio mais avançado, pela própria pessoa quando então decide buscar ajuda profissional especializada.

Inicia-se com o desânimo e a desmotivação com o trabalho e pode culminar em doenças psicossomáticas, levando o profissional a faltas frequentes, afastamento temporário das funções e até à aposentadoria, por invalidez.”

Ufa, que alívio! Como pude viver até hoje sem saber disso?

Mas pera lá! Essa tal de Burnout não é exclusividade dos professores. Quase todo mundo hoje anda estressadão. Cronicamente.

Onde foi que erramos?

Kung Foi



David Carradine, o ultra cool ator que estrelou a série de TV Kung Fu no início dos anos 1970 e interpretou o Bill, na saga Kill Bill I e II, de Quentin Tarantino, em 2003, foi encontrado morto ontem em seu quarto no hotel Nai Lert Park, em Bangkok. Carradine, que participou de mais de 100 filmes ao longo da carreira, estava na Tailândia para as filmagens de seu novo trabalho, Strecht.

O ator tinha 72 anos e as primeiras notícias, divulgadas pela polícia tailandesa, informam que ele se enforcou. Esta versão é negada pelo agente e pela família do ator que optaram por comunicar que ele faleceu de causas naturais.

A lâmina da frieza no olhar, o modo impassível de ser cruel, não tem quem faça igual. A cena da morte de seu personagem, em Kill Bill II é memorável. Deveria ser com aquela altivez, com aquela consciência e com aquela serenidade que todos nós encarássemos a morte.

No mais, descanse em paz, "Gafanhoto".

Jobim, o "sensível"

É compreensível que os familiares da tragédia do vôo da Air France estejam ansiosos por informações sobre o acidente, sobre o resgate, e alguns ainda mantém-se agarrados a um fiapo de esperança.

Mas nem sempre ter as informações é benéfico. O Ministro Nelson Jobim deu ontem uma grande demonstração de que informação demais, informação desnecessária, pode ser pior do que a ignorância.

Disse o Ministro: “O que estamos tentando é a busca de sobreviventes. Ou melhor, de restos. É muito difícil encontrar corpos que afundam no mar.”

Em outro momento, Jobim esbanjou seus conhecimentos, provavelmente recém aprendidos, para explicar que o recolhimento de corpos depende da integridade do abdome. Se houver perfurações no abdome o corpo afunda de forma irreversível. Se o abdome estiver íntegro, há chances de o corpo boiar após 48 horas, tempo em que formam gases que o trazem de volta à tona.

Continuou o Ministro: “Mas há casos que os corpos só voltam seis dias depois. Serão recolhidos os que bóiam. Devemos lembrar que estamos na costa de Pernambuco. Todo mundo sabe o que estou dizendo” – disse o Ministro, tentando ser sutil, ao referir-se à presença de tubarões naquela área.

Tecnicamente, pode não haver nenhuma incorreção na fala do Ministro. Mas era preciso dizer isso? Ao mencionar abdomes íntegros ou perfurados, ao insinuar que os corpos podem ter sido devorados por tubarões, o Ministro faz com que os ouvintes, naturalmente, visualizem as terríveis cenas e tenham sua dor amplificada.

Qual a utilidade dessas informações, exceto para alguém que tenha planos homicidas e pretende livrar-se de um cadáver?

Francamente, o Ministro podia ter poupado os familiares das vítimas desses detalhes desnecessários. Certamente, o Ministro passou por um ou vários media training ao longo de sua carreira. Mas o treinamento não anulou a falta de sensibilidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Inadiável



A notícia da morte chega de avião numa manhã cinzenta de segunda-feira. Vem difusa, entre nuvens de tempestade e informações dispersas, à espera agoniada de uma confirmação. Ou melhor, vem com a vã esperança de que tudo não passe de um pesadelo.

Aos poucos, o número de mortos, antes abstração matemática, dado estatístico, se humaniza. A morte ganha contornos nítidos, feições. A morte tem nome. E é alguém próximo, querido. Alguém com história, trajetória, planos. Alguém que sorri. E aí dói mais, dói muito mais.

A morte quando chega perto nos deixa ver com mais clareza que a vida é inadiável.

Desapareceu na noite de ontem, quando sobrevoava o Atlântico o vôo AF 447 da Air France. Meu respeito pelas vítimas do acidente e minha solidariedade aos seus familiares. Que tenham paz.

Mulheres normais, simplesmente



Na capa da Marie Claire de maio, está Scarlett Johansson com a declaração: “Sou baixinha e cheia de curvas. Não faço dietas radicais”. Talentosa, linda e não é mulher-saladinha. Perfeita! Ou mais que perfeita se houver algo assim, além do pretérito.

Por outro lado, na capa da revista Boa Forma do mesmo mês, está a morena tropicana Cléo Pires, que motivou o jornalista André Forastieri a escrever em seu blog no UOL, em 11 de maio: “Cleo Pires, 6 kg mais magra e agora feia”. Pode crer, Cleo era mais gata com 6 kg a mais.

Já repararam como a pauta principal das revistas femininas é magreza? Quanta pressão!

Não vou ser hipócrita, e bancar o Botero que só pintava pessoas rechonchudas. Não acho que celulites e estrias sejam gostosuras em braile. Acho que as musas popozudas do funk já perderam, literalmente, as medidas. Também acho a melancia uma fruta grande demais, exagerada. Ou seja, a Garota homônima à fruta é, na minha concepção, gorda.

Mas entre as esquálidas modelos cabide que desfilam sem nenhuma graça nas passarelas e as portentosas calípigias que se exibem à frente das baterias, há toda uma escala de... gostosas.

Isso, simplesmente, mulheres gostosas. Nem magrelas, nem cheinhas. Normais. Gostosas. Homem gosta de carne. Não de osso. Não de gordura. Carne. Ter o que apertar.

E, no entanto, eu não conheço mulher que não cisme que “precisa” perder pelo menos dois quilinhos.

Patente