domingo, 9 de outubro de 2011

O homem da maçã

criação de Jonathan Mark em homengaem a Steve Jobs


A morte de Steve Jobs, o popstar da tecnologia, criador da Apple e da Pixar, causou comoção mundial. Considerado gênio por muitos que não temem banalizar o termo, Jobs deixou uma legião de órfãos e admiradores. Quase devotos. Morto, virou iGod.


Não entendo de tecnologia para sequer entrar no mérito se as alcunhas de gênio e de revolucionário eram merecidas ou exageradas. Sou um reles usuário de produtos da Apple. Gosto da beleza, da usabilidade, da facilidade, da interface, mas estou longe de utilizá-los em toda a sua potencialidade. O que penso é que Jobs detinha um talento absurdo para, sim, tecnologia, design e marketing. Ele foi capaz de fazer com que milhões de pessoas se perguntassem como puderam viver até então sem um produto Apple, o qual, antes de sua invenção, sequer imaginavam precisar. Gerou milhões de “escravos de Jobs”, como bem disse Arnaldo Bloch. Pessoas histéricas em filas gigantescas madrugadas afora em um exemplo extremo de consumismo frenético. Jobs foi, portanto, uma espécie de Eva contemporânea. Devo dizer que não vejo, moralmente, nada de errado nisso.

Jobs nunca foi – nem pretendeu ser – santo. Foi um homem que teve uma vida difícil pela rejeição familiar na infância, e depois pelo câncer que o destruiu lentamente. No entanto, foi extremamente bem sucedido nos negócios e ganhou rios de dinheiro. Era um personagem controverso e fascinante. Cheio de contradições. Vigoroso nos negócios. Nem sempre ético. Budista, mas explosivo por motivos fúteis. Intolerante como muitas vezes são as mentes mais brilhantes. Eu estava entre seus admiradores. Lamentei sua morte. Fiquei um pouco iSad, bem sacado nome de um trend topic nas redes sociais.

Jobs também se celebrizou pelas palavras. Foi ácido, doce, mordaz, irônico, sábio, inteligentíssimo. E são algumas dessas frases geniais ou nem tanto, que compartilho aqui.

Não sem antes reproduzir uma frase precisa do publicitário Marcos Bassini, no Facebook, logo após a morte de Jobs: “Desde a descoberta da lei da gravidade um gênio e uma maçã não eram tão importantes.”

"Eu trocaria toda a minha tecnologia por uma tarde com Sócrates"
( E eu, e não Jobs, indico a leitura de “Café da manhã com Sócrates”, de Robert Rowland Smith)

"Você quer passar o resto da sua vida vendendo água com açúcar ou você quer uma chance de mudar o mundo?"

"Ser o homem mais rico do cemitério não me importa... Ir para a cama à noite dizendo que fizemos algo maravilhoso... Isso é o que importa para mim"

"Esse tem sido um de meus mantras - foco e simplicidade. O simples pode ser mais difícil que o complexo: você tem de trabalhar duro para deixar o seu pensamento limpo e manter a simplicidade. Mas vale a pena no fim das contas porque, quando você chega lá, você pode mover montanhas"

"Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não fique preso pelo dogma - que é viver pelos resultados do que outras pessoas pensam. Não deixe o ruído da opinião dos outros afogar a sua voz interior. E o mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário"

"Você não consegue ligar os pontos olhando em frente; você apenas consegue conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos irão, de alguma forma, se conectar no futuro. Você tem de acreditar em algo - nas suas vísceras, no destino, na vida, no karma, que seja. Essa abordagem nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença na minha vida"

"Lembrar que morrerei em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões na vida. Porque quase tudo - todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo do constrangimento e da falha -, essas coisas simplesmente desabam na face da morte, deixando apenas o que realmente é importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor forma que conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir o seu coração... Continue faminto. Continue tolo"





sábado, 8 de outubro de 2011

Eu não fui. E não vou mais.

Perdi o timing jornalístico e escrevo sobre coisas que aconteceram há uma ou duas semanas. Ou seja, velhíssimas. Como eu estou ficando, já que capitulei e comecei a usar óculos para vista cansada. Tornei-me assim, inapelavelmente, um tiozão.


Por outro lado, algum distanciamento temporal pode nos permitir maior lucidez ao comentar assuntos fora do calor da hora.

E o tema é Rock in Rio. Ou Pop in Rio, como preferem alguns detratores puristas inconformados com a miscelânea nem sempre de bom gosto da escalação das atrações. Eu mesmo continuo achando inconcebível um festival que leva esse nome ter Cláudia Leite e Ivete Sangalo na programação. A Cláudia pelo menos é gostosa, embora, reconheço, este também não seja um critério musical. “Rock” com Ivete é tão esquisito como o “in Rio” em Lisboa ou Madri.

Toda honra e toda glória ao Sr.Medina que com a megalomania do Rock in Rio inseriu o Brasil no circuito internacional. Minha carreira de espectador de shows começou em 1982, com Peter Frampton, no Maracanãzinho. No ano seguinte, Kiss no Maraca. Naquela época as opções não eram tantas. E na maioria das vezes o Brasil só entrava no roteiro de astros decadentes.

Por justificáveis razões mercadológicas, estranhos no ninho do Rock fazem parte da escalação desde o primeiro festival. Naquele longínquo 1985, havia Al Jarreau, o açucarado e insosso James Taylor, Elba Ramalho. Em outras edições, teve New Kids On The Block, A-ha e Carlinhos Brown entre outros disparates. Enfim, são exemplos de que o festival nunca foi exclusivo dos roqueiros.

Como lhes disse, envelheci. E não tenho mais saco para muitas coisas. A gente se torna mais seletivo. Eu não fui ao Rock in Rio deste ano. E desisti antes mesmo de conhecer a escalação, com o perrengue para comprar ingressos. Eu até (re)veria com prazer algumas das atrações, como Red Hot Chilli Peppers, Metallica, Capital Inicial, Skank, e até mesmo as deliciosas Shakira e Rihanna que fazem pop e pole dance com irrefutável apelo estético. Joss Stone é a mais linda de todas, ma já a vi descalça no palco, e prefiro ouvir seus discos.

Eu veria essas atrações se fossem shows isolados. Ter que ficar horas lá assistindo a um bando de porcarias lamentáveis como Ke$ha, para depois sim ver alguma coisa que preste, quando já morto de cansaço, não dá mais pra mim. Passei da idade. Arthur Dapieve, veterano roqueiro, escreveu que assistiria ao System of a Down se tivessem inventado o teletransporte. “Não curto mais interagir com cem mil pessoas. Só em pensar em me deslocar até a Barra Profunda noites a fio, dou tapinhas no tatame.” É por aí. Eu ainda interajo com muita gente. Fui ao U2 neste ano e irei ao Eric Clapton nesta semana e ao Pearl Jam no mês que vem. E iria todas as vezes que o recém finado R.E.M. retornasse ao Brasil. Mas, definitvamente, tem coisas que aos 43 você não encara mais, como se tivesse 18 anos.

Não tenho nenhuma nostalgia da noite dos metaleiros em 19/01/1985 (Whitesnake, Scorpions, Ozzy e AC/DC), quando os shows foram maravilhosos, mas a gente chafurdava na lama e no cheiro de bosta. Meu amigo Celso Cavalcanti (do blog olho de prosa), outro roqueiro das antigas, bem definiu a Cidade do Rock como uma Disneylândia do Rock, com sua cenografia artificial, sua assepsia, sua grama sintética bonitinha e sua população flutuante que pouco tinha a ver com o estilo musical que está na marca mais que no palco. Mesmo que o festival tenha sido bem organizado em sua logística.

Eu não fui e nem vou mais. Mas pelo Facebook (também sei ser moderninho) acompanhei meu primo Victor, 20 anos mais jovem, se divertir por lá.

Outra evidência de minha senilidade galopante está no fato de que mesmo pela TV eu não consegui assistir a nenhum dos últimos shows de cada noite ao vivo. Capotei, chapei, dormi e ronquei ao final do penúltimo show. Falando nisso, eram constrangedoras as atuações dos comentaristas do Multishow. Até mesmo Beto Lee, que entende de rock e apresenta bem outros programas, foi um fiasco na telinha.

O que ficou deste Rock in Rio foi o tragicômico bordão que a atriz Cristiane Torloni, incorporando o estilo de sua personagem em uma telenovela, disse em uma entrevista: “Hoje é dia de rock, bebê!”. Pois é, eu não sou um bebê. E não gosto de criancices.

Tendo a concordar mais com o Lobão que há muito anos, em trocadilho tão infame quanto acertado, batizou um disco seu de “O Rock errou”.



sábado, 10 de setembro de 2011

Temos nosso próprio tempo

Quando garoto, eu adorava assistir ao seriado “Túnel do Tempo”, no qual, a cada episódio, dois caras eram transportados aleatoriamente para momentos relevantes da História.


Fui assistir à comédia “O Homem do Futuro”, filme escrito e dirigido por Cláudio Torres e protagonizado por Wagner Moura e Alinne Moraes. Bem realizado, divertido, e, claro, bebe de outras fontes como o já clássico “Back to the future”.

Meu ponto não é crítica cinematográfica, mas sim o fato de que um filme tipo sessão da tarde me inspirou umas reflexões baratas.

A questão central é voltar ou não para dar uma photoshopada no passado e as implicações disso. É ficção (ainda), óbvio, mas se pudéssemos voltar ao passado, talvez fosse a morte do futuro, como assinala o personagem. Ficaríamos em um eterno retorno, querendo apagar, consertar, refazer, melhorar as coisas. E como estamos todos interligados, uma mexidinha que eu fizesse na minha vida mudaria também a de outras pessoas e vice-versa.

Claro que eu faria muitas coisas diferentes do que fiz. Mas se o fizesse eu seria um homem diferente do que sou hoje. E eu não quero isso. Sou causa e conseqüência de tudo que fiz. Gosto de quem sou. Estou quite com o meu passado, o que inclui pequenos erros e cagadas monumentais.

Outro ponto é que a vida não é editável. Ela é ao vivo. E é única. Então, o que você está fazendo com o seu tempo? É tão somente o presente que está em suas mãos.

O filme me trouxe alguma nostalgia na empolgação juvenil dos universitários em 1991 cantando, não por acaso, “Tempo perdido”, da Legião Urbana. Eu me graduei em 1990 e sempre ouvi muito Legião. Renato Russo foi um dos porta-vozes daquela geração. Quando jovens, acreditamos que temos todo o tempo do mundo.

A nostalgia soprou em mim outra vez na cena em que Alinne Moraes diz “eu te amo” ao Wagner Moura, com a vitalidade própria das paixões jovens (as paixões jovens, não necessariamente apaixonados jovens). Paixão não envelhece. Morre. Aqui cabe tomar emprestado o título do ótimo romance de Marçal Aquino: “Eu ouviria as piores notícias dos teus lindos lábios”. Ouvir um enfático “eu te amo” dos lábios da belíssima Alinne é benção que confere a toda paixão o status de verdade incontestável e longevidade possível.

É preciso saber viver

Não tenho vindo muito ao mar. Na verdade, nunca fui muito praiano. Prefiro a montanha. O clima é ameno e eu não gosto de calor. No alto, você tem a sensação de liberdade, e não há nada de que eu goste mais. No mar, você está inserido, está dentro, há a sensação de pertencimento. E eu não sou de mergulhar, exceto nas paixões. Sou do vento e não d’água.


A montanha também me parece mais solitária. Eu sou só. Intrinsicamente. E vez em quando gosto de me isolar, em fases anti-sociais. Música incidental: “... por que temer viver só, já que morremos sozinhos? ...” (Hojerizah)

Perguntaram-me se ando ausente daqui por que o mar está flat ou por que está em fúria, levantando lodo do fundo. Talvez seja esta segunda opção, embora eu quase preferisse a primeira.

Águas paradas são profundas. Eu sou?

É fato que estou escrevendo menos. E o pouco que tenho escrito é impublicável. Não estou a fim de brincar de querido diário em público. Carne exposta no mercado digital. Ninguém tem nada a ver com a vida de ninguém. Que cada um se ocupe da sua.

Eu ando com apetite pela vida e com preguiça da vida, alternadamente. Quero sempre mais e melhor. Mas estou mais cético, ácido, desesperançado.

É preciso coragem para vida. Coragem para os excessos e para as carências. Coragem para as escolhas e as renúncias. Coragem para o grandioso e para o cotidiano. Para a rotina e para o extraordinário.

É preciso coragem para o gozo e para a brochada. É preciso coragem para destruir (há destruições positivas) e para preservar. Coragem para dar valor e para abrir mão. É preciso coragem para ser verdadeiro, sem deixar de ser diplomático e gentil. Coragem para ser autêntico. Ser básico e múltiplo.

É preciso coragem para abrir o peito e meter os pés na vida. Hay que tener cujones. Mas uma amiga diz que somos uma geração de cuzões.

A vida não é curta, mas é rápida. Somos todos cada vez mais imediatistas e refratários aos sentimentos que não exalam a felicidade aparente dos anúncios. Frustração, tristeza, desilusão, injustiça, perda, fracasso também fazem parte do repertório da vida. “Fail. Try again. Fail better” (Samuel Beckett). O único caminho é o do aprendizado contínuo.

Bah, embora esteja sóbrio, estou filosófico pacas para uma manhã ensolarada. Será que dá pra simplificar? É só ir tocando em frente. Sem problematizar. ‘Bora?

domingo, 14 de agosto de 2011

Paternidade e pegabilidade

Angelina Jolie já declarou que nunca Brad Pitt é tão lindo como quando está cuidando dos filhos. Bem, eu duvido que a recíproca seja verdadeira, na opinião do Brad.


Outro dia li declaração da Angélica sobre o marido Mauricinho, digo Luciano, Huck: “Admiro a disposição, o carinho e a paixão com que ele vive a paternidade” .

Uma amiga me confidenciou que acha atraentes homens com seus filhos no supermercado.

No jornal mural da empresa, fizeram uma exposição de fotos de pais com seus filhos, em homenagem ao Dia dos Pais. E as mulheres paravam diante de cada foto, embevecidas e enternecidas.

Ouvi de várias mulheres que a paternidade torna os homens mais desejáveis. Elas se comovem com o cuidado e com o afeto que eles têm com a prole. Ou seja, a paternidade aumenta a pegabilidade. Neste sentido, estou em baixa. Três casamentos, zero filho. Talvez eu tenha que aprender a fazer paella e a tocar violão para compensar.

Há exceção: as namoradas que George Clooney enfileira sabem que, para ele, existem duas palavras proibidas: “casamento” e “crianças”. Nem por isso, sua pegabilidade anda em baixa.

Por outro lado, a maternidade muitas vezes torna as mulheres menos desejáveis. Elas se dedicam com tal afinco à missão que esquecem de continuarem sendo amantes. Essa queixa é muito recorrente entre os homens. Mas isso é assunto para outro texto. Hoje falamos de pais.

É Dia dos Pais. Para mim, sempre foi um dia de ausência, nos dois sentidos da árvore genealógica. Perdi meu pai quando eu era pequeno e dele não guardo nenhuma memória. Sou bem resolvido quanto à minha escolha de não ter filhos, o que não impede que de vez em quando eu sinta uma ponta de inveja - passageira e benigna - de alguns pais que encontram nos filhos motivo de justificado orgulho, e vice-versa. Para os meus amigos que são pais, um abraço e boa sorte.

A revista da entrevista

Nunca pensei que fosse dizer isso de verdade, e não apenas como justificativa cínica por comprar a revista, mas o melhor da Playboy com a Adriane Galisteu é mesmo a entrevista da Sandy.


Entrevista honesta, lúcida, ponderada, de uma mulher adulta e discreta sobre sua vida íntima aos 28 anos. Ela não tenta ser vista como devassa – a campanha que protagonizou para a cerveja homônima foi uma ironia – mas tenta desconstruir a mitologia de “a virgem do Brasil”.

Fez-se muito barulho por nada na mídia acerca de sua resposta sobre a possibilidade de se sentir prazer com o sexo anal. Considerando sua imagem recatada, a resposta poderia até servir como argumento para parceiras reticentes em explorar essa forma de sexo: “Pô, se até a Sandy, por que você não?”. Mas não é nada disso. Contextualizada, não há nada de mais na resposta, sobretudo quando descolada da tal mitologia falsa.

Além do mais, ninguém tem nada a ver com o sexo que cada um pratica. Ao invés de se importar com a vida alheia, se quiser falar sobre sexo anal, experimente introduzir o assunto em seu pudico lar. Como bem sugeriu o jornalista Zeca Camargo, em ótimo texto publicado em seu blog sobre a entrevista da cantora.
Sobre o ensaio fotográfico da Galisteu, bem, o cenário é lindo. A louríssima apresentadora não é nenhuma baranga, mas também não é de embasbacar.

A mignon Sandy, em seu 1,58 m, não é nenhuma opulência de gostosura, mas é campeã de pedidos dos leitores para fazer ensaios sensuais na Vip e na Playboy.

Na atual edição que circula nas bancas e nas rodas de comentários, eu preferia o inverso: ver um ensaio da Sandy nua e uma entrevista da Galisteu. Pensando melhor, nesse caso, eu preferiria uma edição sem entrevista. Afinal, sem hipocrisia, compramos a revista só mesmo por causa das garotas da capa.



terça-feira, 26 de julho de 2011

Um dia




Concluí a leitura de “Um dia”, de David Nicholls, romance que conta a vida de Emma Morley e Dexter Mayhew entre 1988 e 2007, sempre narrada no dia 15 de julho de cada ano.


Aproveitando todas as brechas na agenda levei dez dias para ler o livro. Mas a vontade era ler no tempo do título: um dia.

Desde o início tive a sensação de estar acompanhando uma novela – sem querer soar com um rabugento saudosista, uma novela da época em que as telenovelas eram irresistíveis. Terminei cada capítulo – ou cada ano – ansioso pelas cenas do próximo, curioso para saber o que viria a seguir e desfrutando cada página.

“Um dia” é envolvente, divertido, emocionante, sutilmente profundo. Agora é recomendar aos amigos e esperar pelo filme, que teve roteiro adaptado pelo próprio Nicholls.

E admito publicamente que chorei.

sábado, 23 de julho de 2011

And I go back to black

Em 6 de setembro de 2008, escrevi sobre uma exposição em Londres - "Forever 27"- em homenagem aos roqueiros que morreram precocemente nessa idade. Publiquei também um post intitulado "Será que Amy chega aos 27?", em que comentava a sua via crúcis pública.

Pois é, Amy chegou aos 27. E foi tudo. Hoje ela ratificou a maldição do 27 para a música e morreu de overdose. Uma perda enorme. Amy, integrava junto com Adele, Joss Stone e Duffy uma geração de cantoras britânicas que faz soul music da melhor qualidade neste início de século.

Não há muito o que escrever. Há muito o que lamentar. Era previsível, claro, mas quem há de condená-la? Só ela sabia a intensidade de sua dor. As drogas a corroeram. Pena mesmo que ela não tenha segurado o rojão que é esta vida.

Vamos apenas ouvi-la. Por muitos e muitos anos. Obrigado, Amy, pela boa música que você nos deu.




ps.: leiam também no blog Olho de Prosa, o que Celso Cavalcanti escreveu sobre Amy.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Mixnuts

Enquanto o avião ganhava altitude, o som da turbina parecia o de uma velha Harley-Davidson.


A lua cheia estava ainda baixa e me senti um romântico cosmonauta. Parecia que a aeronave voava em torno dela. Não sou astrônomo, nem vampiro ou lobisomem, e “eu não devia te dizer, mas essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo”(Drummond).

Bebi Sol, a cerveja, e comi o horroroso mixnuts que serviram a bordo. Saudade da barrinha de cereal da companhia aérea concorrente. Na telinha, passava um documentário suuuuuuper interessante sobre escargots.

Eu via as imagens sem áudio. Mostraram também haras e cavalos e havia uma placa numa baia com o nome da égua. Ursula, mesmo nome da minha tia, que, naturalmente, não é égua e foi, quando jovem, mulher muito bonita, de pela alva e olhos claros, suíça que se casou com iugoslavo e teve três filhos, um dos quais é tatuador na Califórnia. A vida é grande em possibilidades, o mundo é pequeno e cada vez menor. Nós podemos ser o que quisermos.

Depois, mergulhei na leitura de “Um dia”, de David Nicholls, que a Simone e a Iara tinham elogiado no Facebook, despertando minha curiosidade. Envolvente, não dá vontade de parar de ler. Às vezes me parece literatura um pouco feminina, mesmo sem saber exatamente o que isso significa. Não importa. O feminino é irresistível para mim.

Desembarco em Brasília com saudade de quem está noutra cidade.

Brasília sempre me emociona de um jeito estranho. Como se a vida estivesse à espreita, prestes a acontecer numa entrequadra. Gosto da cidade onde morei quase oito anos. Os mais intensos que vivi, para o bem e para o mal. Mas agora parece que não me encaixo mais aqui.

Qual é o meu lugar? O meu tempo é um dia.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

carta de mãe


o escritor português valter hugo mãe só usa letras minúsculas. mas escreveu esta belíssima e sensível carta maiúscula, que leu em sua participação na flip, em paraty, na semana passada, e que tomo a liberdade de reproduzir aqui.

carta de mãe, de filho, de tio, de amigo, de escritor, de fã. eu sou seu fã.



"quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. o meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. a ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na gabriela.

a senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

a minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

as moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. as minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.

aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do brasil e ingressou na minha escola. eu instintivamente corri atrás dele. queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. ele mostrou-me titãs e legião urbana. eu achava que o renato russo ia salvar a minha vida com aquela canção do tempo perdido. quando o renato russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o tempo perdido. eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

o alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. nesse tempo, o alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. eu, não. fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. sonhei sempre em vir ao brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. pois aqui estou, a flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso."

- valter hugo mãe, 8 de julho de 2011, flip