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segunda-feira, 11 de julho de 2011

carta de mãe


o escritor português valter hugo mãe só usa letras minúsculas. mas escreveu esta belíssima e sensível carta maiúscula, que leu em sua participação na flip, em paraty, na semana passada, e que tomo a liberdade de reproduzir aqui.

carta de mãe, de filho, de tio, de amigo, de escritor, de fã. eu sou seu fã.



"quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. o meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. a ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na gabriela.

a senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

a minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

as moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. as minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.

aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do brasil e ingressou na minha escola. eu instintivamente corri atrás dele. queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. ele mostrou-me titãs e legião urbana. eu achava que o renato russo ia salvar a minha vida com aquela canção do tempo perdido. quando o renato russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o tempo perdido. eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

o alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. nesse tempo, o alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. eu, não. fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. sonhei sempre em vir ao brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. pois aqui estou, a flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso."

- valter hugo mãe, 8 de julho de 2011, flip

domingo, 12 de outubro de 2008

Força sempre


Junto com a vontade, eu tinha certo pudor ou receio de assistir a “Renato Russo – a peça”. Porque Renato Russo é um dos meus deuses e enquanto esteve vivo compôs ou cantou muitas das canções que fizeram parte da trilha sonora da minha vida. E de mais um monte de gente da minha geração. Eu tenho tudo o que ele gravou e assisti a vários shows da Legião Urbana, em todas as suas fases. Então, pensava, para que ver o cover?

Mas a curiosidade falou mais alto e também os comentários elogiosos que ouvi desde que a peça estreou em 11 de outubro de 2006, data em que se completava 10 anos da morte de Russo. Esta já é a terceira passagem do espetáculo pelo Rio e ela foi sucesso também em várias cidades do País. Por pura coincidência, que só percebi depois, fui assistir em 10 de outubro de 2008.

A peça é realmente ótima. Bruce Gomlevsky incorpora muito bem as facetas do Renato Russo genial, sensível, inteligente, arrogante, solitário, sonhador, auto-destrutivo, líder, corajoso, temperamental, confuso, generoso, crítico, culto, dramático, messiânico, assustado, romântico, cético, criativo, empreendedor. Enfim, um Renato humano e pleno de energia e contradições. Como nós.

Esta foi sempre a grande virtude de Renato, que o tornou um dos mais importantes poetas da música brasileira. A capacidade de contar em suas canções a sua história. E a sua história era a nossa. Ao ouvi-lo, a gente pensava: “Porra, este sou eu!”

A peça tem roteiro bem costurado, embora no final dê uma acelerada e pule coisas & canções de alguns dos últimos discos. No final também, o texto dá uma resvalada no piegas, mas tudo bem, Renato era mesmo dramático. Bruce Gomlevsky dá um show de interpretação e eu não sei se, quando acabar a carreira do espetáculo, ele vai saber ser simplesmente Bruce de novo. A banda Arte Profana, que o acompanha ao vivo nas 22 canções, manda bem, a direção do espetáculo é precisa, o figurino é ok e a luz é excelente. E ainda há o contra-regras de cabelo moicano.

A platéia entra na onda e canta junto várias das canções. Em todos os encartes de seus discos, Renato escrevia Urbana Legio Omnia Vincit (A Legião Urbana a tudo vence) e Força Sempre. Foi ótimo constatar que suas canções continuam a ter a força de sempre. E continuam a vencer o tempo, o esquecimento, a morte.

Renato Russo foi embora muito cedo, aos 36. E eu dizia ainda é cedo também para a peça encerrar sua carreira. Se você ainda não viu, corra. Até 19 de outubro no Teatro João Caetano, no Rio. Saí de lá, alma lavada, renovado.

Se quiser saber mais sobre Renato, ouça seus discos. Todos. Muitas vezes. E leia “Renato Russo: o trovador solitário”, o livro que o jornalista Arthur Dapieve escreveu para a série perfis do Rio. A edição é da Relume-Dumará, 2000.