domingo, 29 de março de 2009

O tubo é minha suíte


Eu considero o surf um dos melhores esportes. Quisera eu ser valente e habilidoso o bastante para encarar as grandes ondas. Na adolescência, sequer consegui ficar em pé sobre uma prancha e o máximo que fiz foi descer umas marolas lulescas com uma prancha de body board. Também acho bacana o estilo de vida associado ao esporte, aquela coisa de acordar cedo para ver se o mar está flat ou se tem ondas quebrando, passar o dia n’água, o contato intenso com a natureza, a mistura de prazer e receio, o desafio, a adrenalina etc. Além disso, o surf sempre rendeu boa parceria com a música.

Dito isso, comprei um combo mega duplo de pipoca e Coca-cola e fui para a minha sessão da tarde: o documentário Surf Adventures 2. Cinema cheio, com platéia visivelmente formada por iniciados, iniciantes e marias prancha.

No filme, um grupo de surfistas brasileiros, em sua maioria da nova geração, percorre continentes em busca dos melhores picos: vão ao Peru, ao México, ao Chile, à Austrália e ao Taiti. E também surfam no Rio de Janeiro e na pororoca do Rio Araguaia, no Amapá, ao mesmo tempo fascinante com sua longa duração e assustadora com seu ruído e sua água escura. A onda perfeita quando se está sobre ela olhando o rio liso a sua frente. E apavorante quando se cai da prancha e não se vê mais nada.

O documentário era para ser assistido como um grande vídeo-clipe ou um programa do National Geographic ou Discovery Channel. As tomadas aquáticas e as paisagens mostradas são belíssimas. Lugares incríveis, ondas excepcionais. Mas neste segundo filme, erraram a mão. A trilha sonora não é das melhores, salvando-se uns solos de guitarra e duas do Bob Marley. Tem muita música nacional ruim, exceção feita a uma boa versão de Maracatu Atômico.

Rechearam as cenas que realmente interessam com muita conversa entre os surfistas. Aí, vira praticamente uma comédia. Ao descrever a performance de dois colegas, um surfista expressa-se de maneira rudimentar e onomatopéica: “Ele desce a onda assim, buom-buom-buom e o outro já faz assim, tim-tim-tim”. Entendeu?

Noutra cena, o cara manda essa: “O tubo é minha suíte presidencial”. Surreal. E tem o surfista que elogia o bairro carioca onde ele pega onda e emenda dizendo que, por isso, perdeu o medo de espíritos. Hã? Desculpa, mas acho que tomei um caldo e não acompanhei o raciocino.
Saí do filme com a impressão de que ele reforça o preconceito contra os surfistas. O mesmo do qual padecem as louras. Eles parecem bem melhores enfrentando com bravura as maiores ondas do que tentando estabelecer um diálogo “irado”. E eu daqui da areia sigo invejando-os exclusivamente pelo que são capazes de fazer dentro d´água.

sábado, 28 de março de 2009

Loura crise louca



Ai, ai, ai, e lá vem o Lula fazer vergonha de novo com a pérola “...é uma crise causada, fomentada por comportamentos irracionais de gente branca, e de olhos azuis.”

Lula soltou a asneira diante do primeiro ministro inglês, Gordon Brown, que ouvia boquiaberto. Como escreveu o Gerald Thomas, o constrangimento pela grosseria não foi maior porque ele não se chama Gordon White.

Recebi e-mails e mensagens com gozações de amigos estrangeiros. Eles riam. Eu chorava. O presidente é do meu país, não do deles.

Lula enfim achou um louro expiatório. Já que a tal da marolinha virou ondão, o presidente culpou os parafinados surfistas do caos.

O fato é que as louras entraram em crise, ao saberem que a crise é culpa delas. “Como assim?!”, perguntaram-se aflitas.

No O Globo, edição de hoje, a página móvel Logo, intitulada “Lula e os branqueiros” traz uma série de piadas e trocadilhos a respeito de mais esta bola fora. “E os banqueiros do mercado negro, como é que ficam?” ou “Há brancos e brancos, negros e negros. Sávio não é Tita, Obama não é Celso Pitta”.

Enfim, bem informado como é, Lula deve achar que não existem na China, na Índia ou na África nem problemas, nem bancos fazendo operações impróprias com derivativos na ciranda do mercado financeiro.

Lula quis dizer que a crise foi originada no Primeiro Mundo. OK, é verdade. Mas é igualmente verdade que há um milhão de maneiras mais inteligentes de se fazer essa afirmação do que a escolhida pelo presidente.

Linhas acima eu fiz uma generalização, brincando com as louras. Aqui cabe humor desse tipo. Em um discurso presidencial, não. Essa metáfora ou simplificação ou generalização que o presidente fez usando uma frase de efeito e apelo popular é, na verdade, um comentário racista. Sim, também há racismo contra aqueles que não são afro-descendentes.

Tenho certeza que o presidente se ofenderia se alguém dissesse que a culpa da crise é dos “paraíbas” ou dos “baianos”, como cariocas e paulistas, respectivamente, referem-se de modo pejorativo aos nordestinos como ele. Da mesma forma seria um absurdo racista se alguém afirmasse que a violência urbana é “coisa de crioulo”, “culpa dos pretos e pobres”.

Lula realmente deveria pensar um pouco antes de cuspir frases para cair no gosto do povo. Recentemente, ao experimentar uma mortadela, declarou que ela iria bem com uma cachaça. Totalmente desnecessário, ainda mais vindo de um presidente da república. Poderia ter elogiado a mortadela. E ponto. Aliás, se Lula mantivesse a boca mais ocupada com mortadela, não falaria essas bobagens, nem sobre a cachaça (que é branquinha), nem sobre a crise (que não tem apenas olhos azuis).

Mas não é só o Lula que faz vergonha. Luciana Cardoso, filha do ex-presidente FHC, e funcionária do gabinete do senador Heráclito Fortes, disse à Folha de S.Paulo que trabalha em casa, que “aquele Senado é uma bagunça” e que não sabe dizer se recebeu ou não horas extras em janeiro, quando o Senado estava em recesso.

Enfim, a gente tem duas opções. Ou age como avestruz e enfia a cara num buraco de tanta vergonha ou a gente bota a boca no mundo e grita para que as coisas nesse País melhorem.

Apague a luz pra eu te ver melhor

Precisamente há dois meses, publiquei um texto sobre A Hora do Planeta, movimento organizado pela WWF.

É hoje.

Das 20h30 às 21h30, apague a luz.

Acenda uma vela.

(Mas não segure vela para ninguém.)

O meio-ambiente e os meio românticos agradecem.

Ainda sobre banheiros...




















Este tema não é nenhuma obsessão, embora todo homem decente precise de algumas, posso garantir que esta não é a minha.

Mas essas duas imagens merecem comentários. A primeira, bem antipática na porta de um bar em Roma, avisa que ali é um pub e não um banheiro público. Em outros países, é mais comum que os banheiros dos bares e restaurantes sejam usados exclusivamente por clientes. Ainda assim, ninguém sai fazendo xixi na rua.

O cartunista Ziraldo criou um “urinódromo” ou “mijódromo” que iria apresentar à Prefeitura do Rio de Janeiro para tentar educar os foliões mijões. Trata-se de uma tapadeira e um muro de azulejo, com uma caneleta, por onde correm água e creolina o tempo todo. Disse que se inspirou em algo semelhante que viu em Bruxelas.

Aqui, temos mais estabelecimentos comerciais que são “pipi friendly” (êta, expressão ridícula!). Eu mesmo já corri da praia e recorri diversas vezes aos préstimos do Garota de Ipanema.

Já para o xixi dos cachorros (do meu inclusive), haja canteiro, poste, árvore, pneu de carro, quina de muro. As fezes a gente coleta, mas a urina fica lá mesmo, pegando sol e levantando cheiro.

Daí que uma florista em Copacabana colocou a outra placa que ilustra este texto, em português claríssimo e pouco sutil. Está certa. Quem vai comprar uma planta que já vem “batizada?”
Em tempo: fotografar palavras em placas, letreiros e grafites é uma das minhas obsessões.

terça-feira, 24 de março de 2009

Onde é o banheiro?


“Onde é o banheiro?” é a pergunta mais feita na Disney, identificada por pesquisa. Não é “Onde está o Mickey?”. Não é “Por que o Mickey e o Donald têm sobrinhos, mas não filhos?”. Ou filhotes, já que são, respectivamente, camundongo e pato.
“Onde é o banheiro?”, pergunte à Esfinge do Egito. Ou melhor, não pergunte, porque periga ela te devorar se não você não decifrar a resposta enigmática. Melhor mesmo é você fazer logo atrás de um montinho de areia do deserto, como fazem os bem educados foliões cariocas durante o Carnaval.

“Onde é o banheiro?”. Esta sim é a pergunta crucial e não apenas na hora do aperto, quando você se arrepende de ter almoçado feijão com omelete de repolho ou sua bexiga parece querer explodir depois do 15º chopp. Aliás, por que, quando a gente está bebendo cerveja, consegue segurar tanto a primeira ida ao banheiro, mas depois tem que voltar em intervalos curtíssimos?

“Onde é o banheiro?” é a grande questão recorrente. Neste momento exato, milhões - quiçá bilhões - de pessoas estão por aí indagando. Independentemente do fato de terem, ou não, só m... na cabeça.

“Onde é o banheiro?” está mais na boca do povo do que qualquer outra, embora não conste de nenhuma relação de Perguntas Mais Freqüentes (FAQ, na sigla em inglês) que a gente encontra nos sites das empresas.

Esqueça as questões que te atormentavam antes: “Deus existe?”, “Qual o sentido da vida?”, “Quais os números da Mega-sena?”, "Quanto custa?", “Quer casar comigo?”, “Será que ele gosta de mim?”, "Você me ama?" "Estou gorda?", “Foi bom pra você?” (Até porque, se foi mesmo bom, é bom que você tenha percebido e não faça jamais esta pergunta infame!).

Você já perguntou “onde é o banheiro?” hoje?

sábado, 21 de março de 2009

Telecatch



Nos últimos tempos, dois casos de barracos entre celebridades invadiram a mídia. Primeiro, Dado Dolabella agrediu Luana Piovani e uma assessora dela. Neste ano, na véspera da entrega do Grammy, o rapper Chris Brown agrediu sua namorada, a cantora Rihanna.

Homem bater em mulher é uma atitude injustificável. A recíproca é verdadeira, meninas. Por mais que o(a) outro(a) vacile, pise na bola, provoque, irrite, não é para você resolver as diferenças com seu(sua) namorado(a) na base da porrada.

Deu no New York Times que, em recente pesquisa feita pela Comissão de Saúde Pública de Boston, com 200 jovens, 46% disseram que Rihanna foi culpada e 52% que ambos foram.

Caramba! O que é essa molecada tem na cabeça?! Que distorção! A culpa é da agredida!!? Isso sim é preocupante! A responsabilidade passa a ser da vítima e não do criminoso??!! Esta é uma perigosa inversão de valores.

Hematomas curados, dizem os jornais que Rihanna reconciliou-se com Brown, o que considero decepcionante. É não dar-se ao respeito.

Nunca admirei Dado, nem como artista (sic), muito menos como pessoa. Admiro bastante a Luana Piovani, mas não exatamente por seus dotes artísticos ou intelectuais, se é que me entendem.

Ainda assim, achei um exagero a prisão de Dado nesta semana, porque ele esteve no camarote da cervejaria no Carnaval, desrespeitando a distância regulamentar que a Justiça o obriga a ficar longe de Luana. Ora, se a coisa fosse séria, que o prendessem lá, naquela noite, quando presumidamente, ele poderia oferecer algum perigo. Mas fazer isso semanas depois, beira o ridículo.

Mas o ridículo maior veio depois. Na noite da prisão, vi o apresentador João Gordo, da MTV, antigo desafeto de Dado, rir e perguntar se Dado não estaria “dando o rabinho” na prisão. Que postura mais agressiva, preconceituosa, grotesca. Muito escroto.

Na seqüência do circo dos horrores, estão à venda na internet camisetas que polarizam a questão entre Dado e Luana. Numa, a imagem de Dado fazendo com as mãos o símbolo da pomba da paz, traz escrito, em inglês (!!?), “Not guilty. Dado rocks”. Na camiseta que se posiciona do outro lado do ringue, aparece Luana de coroa de rainha, com o texto também em nossa língua nativa, o inglês: “Be Luana. Be glam...”

Eu encerro por aqui, porque preciso ir correndo vomitar...

E então, fez-se luz...



Uma amiga, na casa dos 50, me confidenciou, dia desses, que começa a se sentir feia, velha, desinteressante, embora eu lhes assegure que ela não é nada disso.

Talvez o caminho para ela seja encontrar Jesus. Não a luz. Mas o Luz. Seguindo o exemplo da cinquentona Madonna, ela deveria se divertir com um jovem rapaz, para perceber que ainda está com tudo em cima e é uma mulher atraente. Deve fazer isso, claro, sem cometer os mesmos equívocos da atriz, auto-proclamada estrela, Suzana Vieira, que fica com homens mais jovens e acha que é mais jovem do que eles.

Li que o bonitão Jesus Luz disse que agora que está no Brasil e seus passos mais irrelevantes estão nas colunas, tem muita gente querendo se promover às custas dele. Fala sério, merece comentário?!

Ele foi flagrado passeando com uma morenaça essa semana, a foto saiu publicada no jornal inglês The Sun, e o Ancelmo Góis temeu que o rapaz estivesse colocando o emprego em risco.

Não creio. Acho que é esperto mesmo. A Madonna deve ter se cansado de seu brinquedo novo e despachou o toy boy de volta ao Brasil. Daí ele sai com uma morena, deixa-se fotografar, e a mídia marrom internacional especula que o affair com a Madonna terminou por conta dessa pulada de cerca do moço.

Para não ficar por baixo, o malandro dá a entender que é, não só o cara que comeu a Madonna, mas também o cara que corneou a Madonna. Sabe tudo de auto-promoção.

A cantora Ana Carolina, que sonha só comer a Madonna, deve se rasgar de inveja. Eu te entendo, Ana.



ps.: Claro que a imagem que ilustra este post é da Madonna. Você não esperava mesmo que eu fosse colocar uma foto dele, né?

Duas estações

Praça Paris, Rio de Janeiro. Foto: Renato José Mayer

O verão 2009 se foi, oficialmente, ontem. Para mim, já foi tarde, como vão quase todos os verões. Não é que eu não goste de sol, praia, férias, chopp gelado, gatas de biquíni pequenininho, vida ao ar livre. Gosto de tudo isso. Mas é que aqui no balneário onde vivo, faz calor demais.

Foi um verão bem xôxo mesmo, sem grandes modismos, novidades, eventos. Em dezembro, o tempo ainda estava agradável; em janeiro, choveu direto. Pleno mesmo o verão foi em fevereiro e início de março. Suficiente.

Bem vindo seja o outono que traz temperaturas mais amenas e humanas, céus azuis absurdos, uma luminosidade linda à cidade e forra as calçadas com as folhas alaranjadas que as árvores deixam cair, ali na Praça Paris, e em outros cantos do Rio.

A cidade não muda tanto assim, é verdade. Aqui, só temos duas estações: muito quente e quente.

Enquanto isso, é primavera em Paris. Não a praça carioca, mas a Cidade Luz. Sugiro a leitura de "Quase primavera", belo texto de Carol Nogueira, publicado no Le Croissant. (link no meu blogroll, aí ao lado).


sexta-feira, 20 de março de 2009

Dois sonos e um som

Thom Yorke, voz e guitarra do Radiohead.


Hoje tem o aguardado show do Radiohead na Praça da Apoteose, Rio.

Como antes tem Los Hermanos e Kraftwerk, a dica é fazer um esquenta nalgum boteco das redondezas, embora o som do Radiohead combine mais com bebidas destiladas do que com cervas geladas.

Outra possibilidade é aproveitar os shows de abertura para tirar um cochilo bacana, enquanto o Radiohead não entra no palco. Aí, então, será a hora de curtir o som.

sábado, 14 de março de 2009

Silenciosa decadência

Eu e o Tio Patinhas sabemos que a música mais linda é aquela tocada pelo dinheiro entrando no caixa, que casa de espetáculos é um negócio como outro qualquer – precisa dar lucro – e não pode se dar ao luxo de ter bom gosto musical.

Ainda assim, não deixa de doer quando a gente abre o jornal e vê a programação de março do Canecão, a mais tradicional sala de shows do Rio, inaugurada em 1967.

Hoje, tem Ricky Vallen, gravando DVD ao vivo (Santo Deus! O que é este ser?); depois tem Groundation, que segundo o anúncio é um dos maiores grupos de reggae da nova geração (então, tá, eu finjo que acredito, afinal, eu sou velho desinformado das novidades); na sequencia, teremos Alexandre Pires (o ex pagodeiro do Só Pra Contrariar que virou cantor romântico e cantou na Casa Branca para Bush); Zé Renato (veterano da MPB, respeito) e Tango-a-Tierra. (?!?!).

Para uma casa que está indissoluvelmente ligada à história da MPB, é muito pouco. E pensar que, além dos feitos por artistas nacionais, lá já rolaram shows internacionais antológicos, inesquecíveis, como Echo & The Bunnymen, no auge da forma em 1987, e Ramones (com direito a bomba de gás lacrimogênio, quem se lembra?).

É uma silenciosa decadência. Ou seria ruidosa, uma vez que a (boa) música mudou de endereço?