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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Longo prazo de dias curtos

Foto: Leandro Wirz


Eu poupo livros. É uma poupança forçada, é verdade. Ou melhor, é um fundo de previdência. Espero sacá-los da estante quando me aposentar. Creio, realista, que só depois que eu pendurar as chuteiras no trabalho terei tempo para ler todos os volumes que se acumulam. Por certo, na companhia dos livros, meus dias de il dolce far niente não serão tediosos.


Visitando as prateleiras, constato que já há mais livros por ler do que lidos. O que desconheço é muito mais vasto do que aquilo que conheço. E eu continuo comprando aqueles que me interessam e recebendo presentes generosos. Claro que leio alguns, mas é como enxugar gelo ou empurrar pedra morro acima.

Não é o tipo de poupança que tranquiliza à medida que o saldo aumenta. Ao contrário, gera angústia. Não gosto de postergar a vida. Ela é imprevisível. Mas os dias, esses sim, são curtos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Da minha estante

Foto: Leandro Wirz



Esta noite eu sonhei com você. Não, não foi erótico. Mas havia no ar um desejo inconfesso. De minha parte, confesso agora também no mundo real. (Mas se estamos falando de um sonho, e no ambiente virtual deste blog, onde está a realidade?)

Eu estava no seu apartamento, mas tudo que estava lá dentro, reconheci como sendo as minhas coisas. Eu acabara de ler e me emocionar com um texto seu – e daria tudo para me lembrar dele agora, acordado. O texto era muito bom! (Bem, como o sonho era meu, então o seu texto era na verdade, meu. E, sendo eu o autor, o publicaria aqui).

Então você chegou em casa e ficou surpresa com a minha presença no seu apartamento e por eu ter lido o que talvez não devesse. Começamos a conversar sobre eu estar ali, sobre o texto, sobre o que gostamos e queremos, amores, cinema, literatura, canções... Àquela altura, era intenso o clima de sedução entre nós. Depois, chegou uma ex-aluna, também escritora, e participou da conversa, como coadjuvante.

Na sequência, você animadamente retirava e comentava os livros da minha estante. E eu te presenteava com todos os que te agradavam. Ríamos muito.

Odiei quando o despertador tocou às 6h10. E você continua onde sempre esteve. Muito, muito longe daqui.

Exceto por estas linhas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Eu tenho medo de casas sem livros



Cresci numa casa com grandes estantes, livros em abundância, consumidos vorazmente pela minha mãe e pelo meu irmão, mais do que por mim. Eu era mais da música do que da literatura. Se eu tivesse lido mais, certamente escreveria melhor hoje. Sorry, leitores.

Hoje, tenho uma estante razoavelmente farta, mas me desespero com a fila de livros aguardando para serem lidos crescendo sem que eu tenha tempo de dar cabo dela. Ir às livrarias, a cada vez, se torna mais angustiante. Olho, folheio, leio trechos, quero levar pra casa. Mas aí lembro da fila. E da fatura do cartão no mês passado. E deixo os volumes por lá até, quem sabe, qualquer dia. “Me espera, amor, que um dia, eu volto”.

Quando visito a casa de alguém e não vejo livros, eu estranho. Parece que os moradores são inertes intelectualmente. Eu tenho medo de casas sem livros.

No entanto, li outro dia uma frase de Paulo Coelho em que ele dizia dar todos os livros que lê, assim que acaba a leitura. Justificava o comportamento afirmando que os livros na estante só serviam para envaidecer o dono, como demonstração de presumida erudição.

Faz sentido.

Parênteses para outras considerações: 1. Alguém pode dizer que Paulo Coelho não tem livros, porque, na verdade, não os lê. Discordo e acho preconceituoso. 2. Antes de jogar pedra em Paulo Coelho, leia-o. Até para poder criticar. 3. Eu queria vender livros como vende Paulo Coelho. Eu não queria escrever como escreve Paulo Coelho. Eu o respeito. 4. Paulo Coelho presta um serviço à literatura nacional. Seus livros podem ser porta de entrada para que, após tomar gosto e hábito de leitura, a pessoa escolha outros textos mais sofisticados. 5. Definitivamente, é melhor ler Paulo Coelho do que não ler coisa alguma. Fecha parênteses. Abre polêmica.

Eu ainda não consegui exercer esse desapego de passar adiante os livros que leio. Ainda os mantenho mais ou menos organizados na estante, ilustrando minha suposta cultura. Mas eu acho que deveria repassá-los. Em minha defesa, devo dizer que, ao menos, eu empresto meus livros, sem medo. E também faço algumas indicações bibliográficas para os amigos.

Se eu doar os meus livros, terei medo de ficar sozinho em casa.

Por outro lado, os livros que lemos nos tornam solitários, porque nos fazem únicos.

Ih, viajei.

É árduo e longo o caminho.