sábado, 30 de junho de 2012

Onde era céu

foto: Leandro Wirz



Eu trabalho em um prédio modernoso de gosto arquitetônico pra lá de duvidoso. Desses com vidros espelhados.  Volta e meia, ouvimos um baque surdo contra a inquebrantável vidraça. E é menos um pássaro no mundo.

Na condição quase marginal de fumante, eu estava lá embaixo  fazendo fumaça e olhando o movimento da rua quando um passarinho se chocou contra o prédio. Caiu bem perto de mim.

Caído meio de lado, permaneceu por instantes com a cabeça enfiada no chão e a asa esquerda aberta.  Como se sentisse aquela dor aguda de quem leva um chute no saco. (Não sei qual seria exatamente o equivalente feminino para a dor de um chute no saco. Então, mulheres, perdoem a minha ignorância e imaginem a dor mais intensa que podem sentir). Saca aquela cena manjada de jogador de futebol valorizando a falta que levou? Rosto chafurdado na grama, expressão de choro, mão no local onde levou a pancada e o outro braço erguido chamando atendimento médico e maca? Pois é. O passarinho era bom nisso. Mas não estava encenando.

Aos poucos, foi recolhendo a asa, tirando a cabeça do chão e pondo-se em pé. Ou em patas. Evacuou. Perdoem a escatologia, mas foi o susto.  Então, dirigiu os olhos para o prédio gigante diante de si e foi levantando gradualmente o pescoço até o limite, tentando entender em seu minúsculo cérebro que porra era aquela que parecia céu azul, mas era um aríete.

E ficou ali alguns minutos, atordoado. Longos minutos.

Até que um homem se aproximou dele, na intenção de ajudá-lo. Assustou-se, porque já sabe que humanos  - e agora, também prédios envidraçados – são uma ameaça. Felizmente, abriu asas e saiu voando ligeiro na direção oposta ao edifício assassino.

Na hora do almoço, em trágica coincidência, me deparei com outro passarinho tombado na calçada, em frente ao colosso impassível. Este não teve a mesma sorte.

Fiquei pensando, não em leões, mas em quantos pássaros matamos por dia. Pássaros enganados por ilusões de céu com seus voos violentamente interrompidos. E como será à noite, quando os vidros se tornam espelho negro e opaco? Onde era céu, súbito é muro.





ps.: Este texto é dedicado à querida Selma Pereira que, ao me ouvir contar esta história, pediu que eu a escrevesse.

E o vento...




Alguém reproduziu no Facebook este gráfico que ranqueia os dez livros mais lidos de todos os tempos. Não me dei ao trabalho de checar a fonte primária ou a seriedade da apuração estatística. Se ela não for verdadeira, é, ao menos, verossímil.

Em primeiro lugar, disparado, está a Bíblia.  Sagrada para católicos e evangélicos. Em segundo, socorro, está o  livro do Mao Tsé-Tung. Afinal, foi – ainda é? - leitura obrigatória para bilhões de chineses.  Depois, vêm, pela ordem: Harry Potter; O Senhor dos Anéis; O Alquimista, de Paulo Coelho;  O Código Da Vinci; a saga Crepúsculo; E o Vento Levou...; um tal de Think and Grow Rich (o povo todo quer enricar, né?); e O Diário de Anne Frank, que provavelmente preferiria não ter passado pelo sofrimento que a fez escrever aquelas páginas.

Salvo honrosa exceção, fica evidente que a quantidade de exemplares vendidos/lidos não guarda nenhuma relação com a qualidade literária das obras. De modo geral, eu achei a lista compreensível, porém lamentável. E o vento poderia levá-la embora...  

sexta-feira, 2 de março de 2012

Big Cucaracha

Chego de viagem e a geladeira é uma instalação pós-moderna. Vazia. Sem nada para comer e a fome gritando, vou ao lugar mais perto de casa. Não que eu ame muito tudo isso. Pergunto se o tal do Big Tasty é maior do que o Big Mac. Ela diz que é “beeeem maior”. Este é meu único critério para escolher o sanduíche, com fritas e refri grande. Era uma noite quente no verão carioca, pós-carnaval, com as ruas ainda sujas e fedendo a mijo dos foliões mal-educados dos blocos. O ar-condicionado da birosca americana não funcionava. Pronto. Visualizou o inferno? Calma, ainda não chegamos lá. O sanduíche lembra remotamente o da foto no cartaz. E o molho é horroroso. Quantas camadas faltam, Dante? Enquanto como empurrando o bolo alimentar para dentro com fartos goles na Coca, uma super-hiper-ultra-mega-giga barata cascuda, daquelas voadoras, desfila lenta e garbosamente pela parede. Minha proposta de jantar era trash, mas nem tanto.


Chamo o faxineiro para matá-la. O jovem aquiesce com a cabeça, mas para minha surpresa, dirige-se ao depósito e se esconde lá dentro, mantendo a porta entreaberta enquanto observa a barata dona da parede.

Chamo o segurança, digo que pedi ao faxineiro para matá-la, mas zero atitude. O segurança vai falar com o gerente. O segurança volta e diz que o gerente disse que era para o faxineiro matar a barata. Faz sentido. Barata não é bandido, então é da alçada do faxineiro. É uma questão de governança corporativa. O segurança diz que o faxineiro tem medo de barata. Super qualificado para o cargo.

O faxineiro permanece escondido. Chega uma, e depois outra, funcionária para o trabalho. A ambas ele pede ajuda. As duas negam, mas sem nenhuma afetação ou temor excessivo em relação à visitante ilustre. Eu continuo comendo. Corajoso.

O gerente sai detrás do balcão, com vassoura em punho. Atinge a fera voadora e termina o serviço com um segundo golpe sobre a cambaleante besta assassina. O faxineiro, aliviado, sai então de seu bunker, varre o cadáver e sorri amarelo. Em tom desbotado, diferente do M do letreiro luminoso.





23/02/2012 - Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Cena contemporânea

Restaurante do shopping, desses em que se escolhem ingredientes e molho para montar a salada acompanhada de quiche. Executiva loura balzaquiana bonita de bolsa Louis Vuitton mexe ansiosamente em seu smartphone enquanto aguarda a comida. O prato chega, o telefone toca, ela atende. É uma amiga. Ela ouve enquanto mastiga e fala. Quem me conhece sabe o quanto sou curioso. Presto atenção na conversa, naquilo que posso ouvir por conta da distância entre nossas mesas. São palavras e frases picotadas que consigo pegar. Ela menciona o Facebook. Do carinha – namorado, ficante, pretendente, sei lá qual o status. Diz que isso – embora não dê para eu saber o que é “isso” exatamente - é demais para ela, demais para qualquer mulher suportar. Pelo jeito, viu ou leu algo que não gostou. Conversa longamente com a amiga. Pede opinião, conselho. Desabafa. Termina a conversa. Termina a comida. Terminará a relação? 

domingo, 18 de dezembro de 2011

A moto do Mauricinho

foto: Leandro Wirz


Recentemente, realizou-se o Rio Harley Days, evento que reúne proprietários e aficionados pelas motos, pela mítica e pelo estilo de vida da Harley-Davidson.

Na sexta-feira de manhã, dia da abertura do Encontro, encontrei um colega de trabalho vestido a caráter: calça e camisa jeans, bota de couro, cinto com fivela HD, jaqueta de couro preta e laranja com a marca estampada acintosamente nas costas. Um visual bem distante do seu costumeiro terno e gravata. Ele então me convidou para dar uma olhada em sua moto na garagem do escritório. Uma Heritage preta, ano 2010, em substituição à Fat Boy que possuía anteriormente. Montei, liguei, acelerei e ouvi o inconfundível ronco que só as Harleys têm.

Eu tenho alguns sonhos de consumo. Mas o único que me acompanha desde muito jovem e é o de ter uma Harley-Davidson. Ainda hei de satisfazê-lo.

No final da tarde, encontro o colega novamente na porta do prédio. Estava acompanhado de outros dois e todos excitados para irem ao evento. Minutos depois, pára o carro com motorista, abre a porta e eles entram.  Eu perguntei: “Ué e a moto? Vai ficar aqui na garagem?!”

Ele então responde: “É, lá não ia ter lugar para eu estacionar.” 

Definitivamente, deus não dá Harley à cobra.

Doutor Coragem

foto: operamundi/UOL
No domingo em que seu time de coração, o Corinthians, sagrou-se campeão brasileiro de 2011, morreu Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o “Doutor” ou o “Magrão”, em decorrência de doenças hepáticas causadas pelo alcoolismo. Tinha 57 anos.
Para apresentar o ex-jogador, tomo emprestadas palavras de José Miguel Wisnik, extraídas da crônica “Sócrates Brasileiro”, publicada no jornal O Globo em 10.12.2011:

“Sócrates pertenceu a uma geração de jogadores brilhantes e excepcionalmente pensantes, sob a égide de Telê Santana, como Zico, Júnior e Falcão. Nada das numerologias regressivas e supersticiosas de Zagallo, do academicismo abstrato de Parreira, da cabeça dura de Dunga, nesse período feliz de uma derrota (Nota: a da Copa de 1982) que só honra a nossa memória. Entre eles, Sócrates é o que se jogou na vida, inconformado por ela não ser melhor, mas apaixonado por ela. A alegria e a liberdade eram para ele a prova dos nove para se jogar bem. Elas tinham a ver com a integridade de quem o faz. E, pare ele, eram inseparáveis dos prazeres que dão sentido a tudo. Um custo fatal, em forma da doença provocada pelo álcool, ele não negou em nenhum momento, sem a menor intenção de apagar seus próprios passos.”    

Graduado em medicina, cidadão politizado, um dos alicerces da então revolucionária Democracia Corintiana, Sócrates era um craque com a bola nos pés. Com corpo desproporcional (mais de 1,90m e pés tamanho 38), Sócrates, que gostava de beber e fumar, nunca teve fôlego nem físico de atleta. Compensava com inteligência, visão de jogo e habilidade, como nos toques precisos de calcanhar que ajudaram a torná-lo célebre, a desconcertar adversários e a driblar o tempo despendido para girar o corpo antes de tocar a bola. 

Este texto não pretende enaltecer suas qualidades como jogador de futebol e cidadão, embora reconhecê-lo também por isso fosse justo e necessário. Quero registrar sua coragem. Médico e esclarecido, sempre teve plena consciência dos malefícios causados pela bebida e pelo cigarro.  E aqui também não se trata de romancear o alcoolismo ou o tabagismo, sabidamente danosos à saúde.  Pouco antes de morrer, em entrevista ao canal SporTV, Sócrates declarou:  “Arrependimentos? De jeito nenhum! Eu vivi intensamente quase 60 anos. Como eu poderia viver careta?”

Sócrates morreu como viveu. Corajosamente. Sem apelar para lamúrias e conversões de última hora, tão comuns quando a coisa aperta e a morte se avizinha. Eu admiro gente assim.  Sócrates fez suas escolhas e não existem certas ou erradas. Cada escolha implica uma renúncia. Todas trazem ganhos e perdas. É muito mais nobre e digno do que, diante do medo, borrar-se nas calças e apelar de forma oportunista pra deus ou por outra chance. Arrepender-se pode ser tão fácil e covarde. Quando chegar a minha hora, eu também quero ter a hombridade de morrer em pé. Consciente do que fiz e das conseqüências das minhas escolhas.  Sou responsável até por minhas irresponsabilidades. “Os prazeres dão sentido a tudo.”

domingo, 9 de outubro de 2011

O homem da maçã

criação de Jonathan Mark em homengaem a Steve Jobs


A morte de Steve Jobs, o popstar da tecnologia, criador da Apple e da Pixar, causou comoção mundial. Considerado gênio por muitos que não temem banalizar o termo, Jobs deixou uma legião de órfãos e admiradores. Quase devotos. Morto, virou iGod.


Não entendo de tecnologia para sequer entrar no mérito se as alcunhas de gênio e de revolucionário eram merecidas ou exageradas. Sou um reles usuário de produtos da Apple. Gosto da beleza, da usabilidade, da facilidade, da interface, mas estou longe de utilizá-los em toda a sua potencialidade. O que penso é que Jobs detinha um talento absurdo para, sim, tecnologia, design e marketing. Ele foi capaz de fazer com que milhões de pessoas se perguntassem como puderam viver até então sem um produto Apple, o qual, antes de sua invenção, sequer imaginavam precisar. Gerou milhões de “escravos de Jobs”, como bem disse Arnaldo Bloch. Pessoas histéricas em filas gigantescas madrugadas afora em um exemplo extremo de consumismo frenético. Jobs foi, portanto, uma espécie de Eva contemporânea. Devo dizer que não vejo, moralmente, nada de errado nisso.

Jobs nunca foi – nem pretendeu ser – santo. Foi um homem que teve uma vida difícil pela rejeição familiar na infância, e depois pelo câncer que o destruiu lentamente. No entanto, foi extremamente bem sucedido nos negócios e ganhou rios de dinheiro. Era um personagem controverso e fascinante. Cheio de contradições. Vigoroso nos negócios. Nem sempre ético. Budista, mas explosivo por motivos fúteis. Intolerante como muitas vezes são as mentes mais brilhantes. Eu estava entre seus admiradores. Lamentei sua morte. Fiquei um pouco iSad, bem sacado nome de um trend topic nas redes sociais.

Jobs também se celebrizou pelas palavras. Foi ácido, doce, mordaz, irônico, sábio, inteligentíssimo. E são algumas dessas frases geniais ou nem tanto, que compartilho aqui.

Não sem antes reproduzir uma frase precisa do publicitário Marcos Bassini, no Facebook, logo após a morte de Jobs: “Desde a descoberta da lei da gravidade um gênio e uma maçã não eram tão importantes.”

"Eu trocaria toda a minha tecnologia por uma tarde com Sócrates"
( E eu, e não Jobs, indico a leitura de “Café da manhã com Sócrates”, de Robert Rowland Smith)

"Você quer passar o resto da sua vida vendendo água com açúcar ou você quer uma chance de mudar o mundo?"

"Ser o homem mais rico do cemitério não me importa... Ir para a cama à noite dizendo que fizemos algo maravilhoso... Isso é o que importa para mim"

"Esse tem sido um de meus mantras - foco e simplicidade. O simples pode ser mais difícil que o complexo: você tem de trabalhar duro para deixar o seu pensamento limpo e manter a simplicidade. Mas vale a pena no fim das contas porque, quando você chega lá, você pode mover montanhas"

"Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não fique preso pelo dogma - que é viver pelos resultados do que outras pessoas pensam. Não deixe o ruído da opinião dos outros afogar a sua voz interior. E o mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário"

"Você não consegue ligar os pontos olhando em frente; você apenas consegue conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos irão, de alguma forma, se conectar no futuro. Você tem de acreditar em algo - nas suas vísceras, no destino, na vida, no karma, que seja. Essa abordagem nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença na minha vida"

"Lembrar que morrerei em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões na vida. Porque quase tudo - todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo do constrangimento e da falha -, essas coisas simplesmente desabam na face da morte, deixando apenas o que realmente é importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor forma que conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir o seu coração... Continue faminto. Continue tolo"





sábado, 8 de outubro de 2011

Eu não fui. E não vou mais.

Perdi o timing jornalístico e escrevo sobre coisas que aconteceram há uma ou duas semanas. Ou seja, velhíssimas. Como eu estou ficando, já que capitulei e comecei a usar óculos para vista cansada. Tornei-me assim, inapelavelmente, um tiozão.


Por outro lado, algum distanciamento temporal pode nos permitir maior lucidez ao comentar assuntos fora do calor da hora.

E o tema é Rock in Rio. Ou Pop in Rio, como preferem alguns detratores puristas inconformados com a miscelânea nem sempre de bom gosto da escalação das atrações. Eu mesmo continuo achando inconcebível um festival que leva esse nome ter Cláudia Leite e Ivete Sangalo na programação. A Cláudia pelo menos é gostosa, embora, reconheço, este também não seja um critério musical. “Rock” com Ivete é tão esquisito como o “in Rio” em Lisboa ou Madri.

Toda honra e toda glória ao Sr.Medina que com a megalomania do Rock in Rio inseriu o Brasil no circuito internacional. Minha carreira de espectador de shows começou em 1982, com Peter Frampton, no Maracanãzinho. No ano seguinte, Kiss no Maraca. Naquela época as opções não eram tantas. E na maioria das vezes o Brasil só entrava no roteiro de astros decadentes.

Por justificáveis razões mercadológicas, estranhos no ninho do Rock fazem parte da escalação desde o primeiro festival. Naquele longínquo 1985, havia Al Jarreau, o açucarado e insosso James Taylor, Elba Ramalho. Em outras edições, teve New Kids On The Block, A-ha e Carlinhos Brown entre outros disparates. Enfim, são exemplos de que o festival nunca foi exclusivo dos roqueiros.

Como lhes disse, envelheci. E não tenho mais saco para muitas coisas. A gente se torna mais seletivo. Eu não fui ao Rock in Rio deste ano. E desisti antes mesmo de conhecer a escalação, com o perrengue para comprar ingressos. Eu até (re)veria com prazer algumas das atrações, como Red Hot Chilli Peppers, Metallica, Capital Inicial, Skank, e até mesmo as deliciosas Shakira e Rihanna que fazem pop e pole dance com irrefutável apelo estético. Joss Stone é a mais linda de todas, ma já a vi descalça no palco, e prefiro ouvir seus discos.

Eu veria essas atrações se fossem shows isolados. Ter que ficar horas lá assistindo a um bando de porcarias lamentáveis como Ke$ha, para depois sim ver alguma coisa que preste, quando já morto de cansaço, não dá mais pra mim. Passei da idade. Arthur Dapieve, veterano roqueiro, escreveu que assistiria ao System of a Down se tivessem inventado o teletransporte. “Não curto mais interagir com cem mil pessoas. Só em pensar em me deslocar até a Barra Profunda noites a fio, dou tapinhas no tatame.” É por aí. Eu ainda interajo com muita gente. Fui ao U2 neste ano e irei ao Eric Clapton nesta semana e ao Pearl Jam no mês que vem. E iria todas as vezes que o recém finado R.E.M. retornasse ao Brasil. Mas, definitvamente, tem coisas que aos 43 você não encara mais, como se tivesse 18 anos.

Não tenho nenhuma nostalgia da noite dos metaleiros em 19/01/1985 (Whitesnake, Scorpions, Ozzy e AC/DC), quando os shows foram maravilhosos, mas a gente chafurdava na lama e no cheiro de bosta. Meu amigo Celso Cavalcanti (do blog olho de prosa), outro roqueiro das antigas, bem definiu a Cidade do Rock como uma Disneylândia do Rock, com sua cenografia artificial, sua assepsia, sua grama sintética bonitinha e sua população flutuante que pouco tinha a ver com o estilo musical que está na marca mais que no palco. Mesmo que o festival tenha sido bem organizado em sua logística.

Eu não fui e nem vou mais. Mas pelo Facebook (também sei ser moderninho) acompanhei meu primo Victor, 20 anos mais jovem, se divertir por lá.

Outra evidência de minha senilidade galopante está no fato de que mesmo pela TV eu não consegui assistir a nenhum dos últimos shows de cada noite ao vivo. Capotei, chapei, dormi e ronquei ao final do penúltimo show. Falando nisso, eram constrangedoras as atuações dos comentaristas do Multishow. Até mesmo Beto Lee, que entende de rock e apresenta bem outros programas, foi um fiasco na telinha.

O que ficou deste Rock in Rio foi o tragicômico bordão que a atriz Cristiane Torloni, incorporando o estilo de sua personagem em uma telenovela, disse em uma entrevista: “Hoje é dia de rock, bebê!”. Pois é, eu não sou um bebê. E não gosto de criancices.

Tendo a concordar mais com o Lobão que há muito anos, em trocadilho tão infame quanto acertado, batizou um disco seu de “O Rock errou”.



sábado, 10 de setembro de 2011

Temos nosso próprio tempo

Quando garoto, eu adorava assistir ao seriado “Túnel do Tempo”, no qual, a cada episódio, dois caras eram transportados aleatoriamente para momentos relevantes da História.


Fui assistir à comédia “O Homem do Futuro”, filme escrito e dirigido por Cláudio Torres e protagonizado por Wagner Moura e Alinne Moraes. Bem realizado, divertido, e, claro, bebe de outras fontes como o já clássico “Back to the future”.

Meu ponto não é crítica cinematográfica, mas sim o fato de que um filme tipo sessão da tarde me inspirou umas reflexões baratas.

A questão central é voltar ou não para dar uma photoshopada no passado e as implicações disso. É ficção (ainda), óbvio, mas se pudéssemos voltar ao passado, talvez fosse a morte do futuro, como assinala o personagem. Ficaríamos em um eterno retorno, querendo apagar, consertar, refazer, melhorar as coisas. E como estamos todos interligados, uma mexidinha que eu fizesse na minha vida mudaria também a de outras pessoas e vice-versa.

Claro que eu faria muitas coisas diferentes do que fiz. Mas se o fizesse eu seria um homem diferente do que sou hoje. E eu não quero isso. Sou causa e conseqüência de tudo que fiz. Gosto de quem sou. Estou quite com o meu passado, o que inclui pequenos erros e cagadas monumentais.

Outro ponto é que a vida não é editável. Ela é ao vivo. E é única. Então, o que você está fazendo com o seu tempo? É tão somente o presente que está em suas mãos.

O filme me trouxe alguma nostalgia na empolgação juvenil dos universitários em 1991 cantando, não por acaso, “Tempo perdido”, da Legião Urbana. Eu me graduei em 1990 e sempre ouvi muito Legião. Renato Russo foi um dos porta-vozes daquela geração. Quando jovens, acreditamos que temos todo o tempo do mundo.

A nostalgia soprou em mim outra vez na cena em que Alinne Moraes diz “eu te amo” ao Wagner Moura, com a vitalidade própria das paixões jovens (as paixões jovens, não necessariamente apaixonados jovens). Paixão não envelhece. Morre. Aqui cabe tomar emprestado o título do ótimo romance de Marçal Aquino: “Eu ouviria as piores notícias dos teus lindos lábios”. Ouvir um enfático “eu te amo” dos lábios da belíssima Alinne é benção que confere a toda paixão o status de verdade incontestável e longevidade possível.

É preciso saber viver

Não tenho vindo muito ao mar. Na verdade, nunca fui muito praiano. Prefiro a montanha. O clima é ameno e eu não gosto de calor. No alto, você tem a sensação de liberdade, e não há nada de que eu goste mais. No mar, você está inserido, está dentro, há a sensação de pertencimento. E eu não sou de mergulhar, exceto nas paixões. Sou do vento e não d’água.


A montanha também me parece mais solitária. Eu sou só. Intrinsicamente. E vez em quando gosto de me isolar, em fases anti-sociais. Música incidental: “... por que temer viver só, já que morremos sozinhos? ...” (Hojerizah)

Perguntaram-me se ando ausente daqui por que o mar está flat ou por que está em fúria, levantando lodo do fundo. Talvez seja esta segunda opção, embora eu quase preferisse a primeira.

Águas paradas são profundas. Eu sou?

É fato que estou escrevendo menos. E o pouco que tenho escrito é impublicável. Não estou a fim de brincar de querido diário em público. Carne exposta no mercado digital. Ninguém tem nada a ver com a vida de ninguém. Que cada um se ocupe da sua.

Eu ando com apetite pela vida e com preguiça da vida, alternadamente. Quero sempre mais e melhor. Mas estou mais cético, ácido, desesperançado.

É preciso coragem para vida. Coragem para os excessos e para as carências. Coragem para as escolhas e as renúncias. Coragem para o grandioso e para o cotidiano. Para a rotina e para o extraordinário.

É preciso coragem para o gozo e para a brochada. É preciso coragem para destruir (há destruições positivas) e para preservar. Coragem para dar valor e para abrir mão. É preciso coragem para ser verdadeiro, sem deixar de ser diplomático e gentil. Coragem para ser autêntico. Ser básico e múltiplo.

É preciso coragem para abrir o peito e meter os pés na vida. Hay que tener cujones. Mas uma amiga diz que somos uma geração de cuzões.

A vida não é curta, mas é rápida. Somos todos cada vez mais imediatistas e refratários aos sentimentos que não exalam a felicidade aparente dos anúncios. Frustração, tristeza, desilusão, injustiça, perda, fracasso também fazem parte do repertório da vida. “Fail. Try again. Fail better” (Samuel Beckett). O único caminho é o do aprendizado contínuo.

Bah, embora esteja sóbrio, estou filosófico pacas para uma manhã ensolarada. Será que dá pra simplificar? É só ir tocando em frente. Sem problematizar. ‘Bora?